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  COMPORTAMENTO 19/11/2003
Lançamento
 
Fusão de beleza
Calendário Pirelli completa 40 anos com fotos carregadas de efeitos gráficos e pautado na visão feminina da sensualidade
 
A história do calendário

Marina Caruso – Londres (Inglaterra)

  Fotos: Alexandre Campbell
  Sonho: Nick Knight produziu imagens surreais (à esq.) e clicou a modelo Esther De Jong, grávida de oito meses, como se recebesse sexo oral

Nada de sentenças pesadas e condenações extremas. Na quarta-feira, 12 no Royal Court of Justice, espécie de suprema corte de Londres, a ordem era celebrar. O local foi escolhido para o lançamento do Calendário Pirelli 2004. Luxuosa, a cerimônia de celebração dos 40 anos da folhinha mais famosa do mundo começou com um saboroso jantar por volta das 21h e terminou depois da meia-moite com baforadas de charutos, por entre as imponentes colunas do prédio. As estrelas da noite, disputando com a beleza dos enormes pés-direitos do lugar, eram o fotógrafo inglês Nick Knight, 47 anos, a surpreendente modelo sudanesa Alek Wek e outras beldades escolhidas para estampar o calendário do próximo ano.

Ao contrário das edições anteriores, o The cal 2004 tem tanto de arte gráfica quanto de fotografia. A fusão do trabalho de Knight – que clicou as modelos durante oito dias num estúdio em Londres – com o projeto gráfico do diretor de arte Peter Saville criou um efeito inusitado, muito mais sensual e onírico, do que claramente sexy. Tudo em perfeita sintonia com a evolução da fotografia na era da digitalização. Mas a inversão, ou melhor dizendo, a trangressão de valores não pára por aí. Famoso por provocar até os homens mais castos, o Calendário 2004 será, pela primeira vez, pautado na visão feminina da sensualidade. Isso porque, assim que foi convidado para fazer o trabalho, Knight decidiu consultar estrelas de renome internacional antes de escolher o que seria seu tema.

Perguntou a 14 mulheres, entre elas Catherine Deneuve, Bjork,
Courtney Love, Isabella Rosselini e Liv Tyler, de que forma gostariam
de ver a sensualidade feminina retratada. O resultado da pesquisa, cheio de borrões e mistérios, como num sonho, faz desta edição do Pirelli a mais surrealista de todas. “Não posso dizer que artista pautou qual foto porque acho que este é um dos charmes das imagens. Em cada uma há um segredo e uma história para decifrar”, explica Knight. “Só o que digo
é que entre os desejos e devaneios dessas mulheres há um, em especial, que foi sutilmente retratado no mês de maio.” Quem olha a foto da modelo holandesa Esther De Jong, envolta em uma espécie de vendaval de flores vermelhas, nota facilmente as curvas de uma grávida, mas o
tal segredo a que Knight se refere vai além. “Isso foi feito a partir do desejo de se ver recebendo sexo oral no oitavo mês de gravidez”, entrega o fotógrafo. Chocante e ousada, a proposta se harmoniza com
a evolução dos padrões de beleza contada, folha por folha, pela Pirelli, desde o seu primeiro calendário.

Apesar de a marca ter origem e matriz italianas, a primeira versão do calendário nasceu em Londres, 40 anos atrás. Isso porque em 1993, em busca de uma nova estratégia de marketing para cativar a clientela, a filial inglesa lançou uma folhinha promocional. Deu tão certo que no ano seguinte a matriz decidiu transformá-la em algo fixo. Nascia, então, em 1964 – sob as lentes do fotógrafo Robert Freeman, famoso por capturar as melhores imagens dos Beatles – o calendário Pirelli, tal como ele é conhecido hoje, distribuído para clientes especiais, colecionadores e formadores de opinião. De lá pra cá muita coisa aconteceu e a história do calendário pode ser dividida em três fases. A primeira, de 1964 a 1974, foi uma espécie de juventude transviada do The cal. Era a década dos Beatles, do rock, do look mod, da minissaia e de movimentos pacifistas contra a guerra do Vietnã. A moda era transgressora como boa leitura de seu tempo. Fotógrafos começavam a quebrar protocolos do mundinho fashion. Harry Pecanotti, por exemplo, roubou, em 1969, a imagem natural das modelos, sem poses, algo até então inusitada em catálogos de moda. Toda essa efervescência criativa apontava uma carreira promissora, que foi, no entanto, bruscamente interrompida.

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