| BRASIL |
19/11/2003
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| Governo |
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Pisando
no gelo
Encontro de Lula e Corrêa, pesquisa
da OAB e Operação Anaconda aceleram reforma do Judiciário |
Leonel
Rocha e Luiz Cláudio Cunha
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Para Lula, encontro com Corrêa só depende de ajuste de agenda.
Na pauta, como será o novo Judiciário |
A crise
entre o Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal será
posta em pratos limpos, como manda a etiqueta, em torno de uma mesa.
No caso, a mesa de jantar da residência de João Paulo
Cunha (PT-SP), presidente da Câmara dos Deputados, que ofereceu
o terreno neutro para o primeiro encontro de paz entre os dois principais
desafetos da República – o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva e o ministro Maurício Corrêa, presidente
do STF. Na quarta-feira 12, o Planalto confirmou o encontro, ainda
sem data, quando “as agendas forem ajustadas”. O encontro
é o primeiro sinal de ajuste nos limites da elegância
nas línguas soltas de Lula e Corrêa, depois de meses
de cerrado tiroteio verbal de um lado e outro da praça dos
Três Poderes. É também um passo decisivo para
desobstruir o caminho da reforma do Judiciário, que o governo
pretende aprovar ainda no primeiro semestre de 2004.
A resistência corporativa de ministros e juízes tende
a ficar mais
tênue a partir de dois fatos distintos que atingiram a imagem
do
Judiciário nos últimos 15 dias: pesquisa da OAB em
16 capitais
mostrando a baixa estima do brasileiro pelos togados homens de
preto e a estrondosa ação da Polícia Federal
na Operação Anaconda,
que flagrou juízes e procuradores do Ministério Público
enrolados em grampos, propinas, venda de sentenças e outras
bandalheiras. No
ranking das instituições mais confiáveis, o
Judiciário amarga um quinto lugar, com apenas 39%, atrás
da Igreja (74%), Imprensa (60%), Presidência da República
(58%) e Advocacia (55%). Consegue ficar na frente apenas do Ministério
Público (37%), que tem o encargo de fiscal da lei, e do Congresso
Nacional (34%), que carrega o fardo de legislar. A pesquisa revela
que o principal responsável pela queda de credibilidade do
poder é o envolvimento de juízes com corrupção,
tráfico de drogas e lavagem de dinheiro. Por tudo isso, talvez,
86% pedem a aprovação, “com urgência”,
da reforma do Judiciário.
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O presidente do STF, Maurício Corrêa, quer mostrar que a banda
podre não pode ser confundida com toda a Justiça |
Mas será preciso paciência. Nos planos do Palácio
do Planalto, a reforma deverá ser aprovada no Congresso até
junho de 2004, a tempo de escapar do plenário esvaziado do
segundo semestre, quando deputados e senadores estarão em
campanha municipal. A base da proposta do governo é o texto
que tramita há 12 anos no Congresso, com cinco pontos já
definidos como básicos: 1) controle externo do Judiciário,
a partir de uma comissão de 15 membros (nove magistrados,
dois advogados, dois procuradores e dois indicados pelo Parlamento
– um pela Câmara, outro pelo Senado); 2) autonomia financeira
das defensorias públicas, que hoje dependem do Executivo;
3) unificação de critérios para concurso de
juízes e promotores; 4) federalização dos crimes
contra direitos humanos; 5) quarentena de três anos para juízes
na sua comarca de origem. “A reforma será fatiada,
para facilitar a aprovação. Mas o governo não
aceita, por exemplo, a súmula vinculante, que engessa a Justiça
e limita a ação do juiz de primeiro grau”, diz
o secretário da reforma do Judiciário no Ministério
da Justiça, Sérgio Renault. O Planalto aceita como
alternativa a proposta de súmula impeditiva de recursos –
vedando a contestação se a decisão inferior
estiver de acordo com a súmula do tribunal superior.
É uma diferença importante para esvaziar as mesas
dos juízes. O ministro Carlos Velloso, do STF, diz que entre
a primeira e segunda instâncias existem brechas para o advogado
recorrer 54 vezes num mesmo processo. Por isso, em 2002, cada um
dos 11 ministros do Supremo julgou quase dez mil processos, média
de 27 sentenças por dia, incluindo domingos e feriados –
um trabalho insano comparado com o remanso da Suprema Corte dos
Estados Unidos, que apreciou no ano todo apenas 100 ações
– regiamente repartidas entre os nove juízes da casa.
No Brasil, junta-se a essa carga a má fama recente dos homens
da lei, flagrados do lado do crime. Na quinta-feira 13, numa decisão
inédita no Pará, o Tribunal de Justiça demitiu
por corrupção o juiz Francisco Deliane e Silva, que
vendia decisões em São Félix do Xingu. Na véspera,
o Judiciário deu provas de que tem problemas de cortar a
carne: a Corte Especial do Tribunal Regional Federal de Brasília
condenou o desembargador Eustáquio da Silveira e sua mulher,
a juíza federal Vera Carla Silveira, por orientação
indevida aos advogados de traficantes da quadrilha de Fernandinho
Beira-Mar. Condenou, mas não puniu: aposentou o casal compulsoriamente,
mas manteve intocados seus salários – um total de R$
27 mil por mês.
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