| BRASIL |
19/11/2003
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| Congresso |
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A
órfã das reformas
Prometida há dez anos, mudança
política se arrasta no Congresso. A nova proposta promete muita
polêmica |
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Weiller
Diniz
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O relator: “O processo eleitoral é, cada vez
mais, a compra do mandato”, afirma Ronaldo Caiado (PFL-GO) |
Ela já foi
batizada de mãe de todas as reformas. Na última década
ganhou visibilidade eventual na retórica inflamada dos candidatos,
mas até hoje a reforma eleitoral partidária ainda é
tratada como filha bastarda no crediário de mudanças
que vem sendo aprovado pelo Congresso. O presidente Lula garantiu,
durante sua viagem à África, que o governo vai mudar
o jogo e votá-la. É quase impossível encontrar
um parlamentar contrário às mudanças do atual
sistema. Só este ano foram mais de 500 discursos pró-reforma.
Com o aval do governo, ela começa a engatinhar. Afinal, 75%
das propostas convertidas em lei no Brasil têm o DNA do Executivo.
“Os deputados têm medo de dar um tiro no pé, pensando
que o modelo favorece sua reeleição, mas 50% deles não
voltam, por isso o apoio do governo é vital”, diz o ex-relator
da reforma, senador Sérgio Machado (PMDB-CE). Em novembro de
2001, o então deputado José Dirceu (PT-SP) já
engrossava o coro pela reforma em um incisivo discurso na Câmara:
“A verdadeira reforma política só acontecerá
se a sociedade e o eleitorado renovarem o Congresso em 2002, derrotando
a coalizão conservadora que governa o País desde 1985.
A decadência dos costumes políticos, o crescimento
da corrupção e da impunidade são de responsabilidade
desta maioria conservadora.” Dirceu se referia às nebulosas
relações dos políticos com seus mecenas e a
escândalos financeiros que redundaram no impeachment do presidente
Collor e na cassação dos anões do Orçamento.
Casos que tiveram origem no financiamento de campanhas. Hoje, o
principal ministro do governo prega uma pauta mínima: o financiamento
público de campanhas, fidelidade partidária, redução
de três para dois senadores por Estado, com mandato de quatro
anos.
Exceto pela lipoaspiração do Senado, a ruptura pregada
por Dirceu coincide com propostas de partidos de direita e de centro.
Na peneira das propostas existentes – 99 no Senado e 170 na
Câmara –, sobram convergências: financiamento
exclusivamente público, fidelidade partidária, votação
através de listas partidárias (fechadas ou abertas)
e o fim das coligações para as eleições
proporcionais. O único avanço aprovado nos últimos
anos foi a cláusula de barreira – um mínimo
de 5% do total dos votos dados à Câmara para que a
legenda tenha direito a beliscar nacos do dinheiro público
através do fundo partidário e consiga ter acesso ao
horário gratuito. A nova regra está prevista para
vigorar em 2006, mas, como ela pode fulminar aliados do atual governo
(PCdoB, PSB e PL), ainda corre riscos.
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Jobim adverte:
“Se nada for feito, a política será transformada numa atividade
cativa de ricos, bispos e representantes de corporações” |
Sem atrito – O presidente da Câmara, João
Paulo (PT-SP), é outro petista ilustre que incensa a reforma
política, mas defende ser mais prudente no momento limitar
a discussão aos temas de menor atrito. Dessa forma, não
se discutiria a escolha dos suplentes de senadores guindados ao
cargo sem nenhum voto (a maioria deles é parente ou financiador
dos titulares), o voto obrigatório e a coincidência
das eleições no Brasil. Desde que o ex-presidente
José Sarney conseguiu um mandato de cinco anos, há
uma eleição a cada biênio. “A reforma
ampla só sairá com uma grande pressão popular.
Mas a sociedade não está nem aí para ela, porque
não sabe quanto custa uma obra superfaturada para os financiadores
e o clientelismo com o orçamento público”, acusa
o cientista político Paulo Kramer, da Universidade de Brasília.
As eleições são cada vez mais caras e sofisticadas.
O fundo partidário (R$ 50 milhões/ano) não
cobre o custo das campanhas. Os especialistas acham que o valor
real, entre contas oficiais e caixa 2, chegue aos R$ 5 bilhões
por eleições gerais. A relação entre
o recurso desembolsado e o mandato é quase direta. A organização
Transparência Brasil fez as contas do ano passado e constatou
que o dinheiro acaba comprando o mandato. “O processo eleitoral
é, cada vez mais, a compra do mandato”, concorda o
relator da reforma na Câmara, Ronaldo Caiado (PFL-GO). “Se
nada for feito, a política vai se transformar numa atividade
cativa de ricos, bispos, profissionais de mídia e representantes
de corporações”, alerta o ministro Nelson Jobim,
futuro presidente do STF e ex-presidente do TSE, um estudioso do
tema.
O deputado Caiado acha que encontrou a solução mágica
para o financiamento público e a distribuição
da verba. Pela planilha feita
por ele, o custo por eleitor seria de R$ 7. Pelo número de
votantes
em 2002 (115 milhões), o Tesouro reservaria R$ 806 milhões
para as eleições de 2006. Desse total, 1% (R$ 8 milhões)
seria repassado igualmente entre os 30 partidos registrados no TSE
– R$ 268 mil/cada um. O critério, sem nenhuma exigência,
vai criar uma indústria de partidos. “Haverá
partido criando partido para receber o dinheiro. Já houve
gente que negociou tempo de tevê”, desaprova o ministro
Jobim. Os outros 99% (R$ 798 milhões) seriam distribuídos
aos partidos proporcionalmente ao número de deputados federais.
A maior legenda da Câmara, o PT, com 91 deputados e 17,6%
dos 513 deputados, teria direito a R$ 142 milhões, rateados
entre as instâncias partidárias. A direção
nacional ficaria com 30% (R$ 42,6 milhões) e os 27 diretórios
estaduais repartiriam os outros 70% (R$ 99,4 milhões). Metade
deste valor é repassada de acordo com o eleitorado no Estado
e a outra metade considerando o número de deputados federais
do partido em cada Estado. O relator Caiado propõe ainda
que, em 2010, os candidatos de cada partido sejam escolhidos
em uma lista fechada. Eles seriam filtrados em votações
primárias nas convenções partidárias.
Como toda lei eleitoral é fruto da circunstância, em
2006 encabeçariam as listas os atuais detentores de mandato.
Enquanto a modernidade não chega, a única estrela
eleitoral brasileira continuará sendo a urna eletrônica,
que apagou um trunfo das oligarquias: a fraude.
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