| BRASIL |
19/11/2003
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| História |
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Chacal
à brasileira
Livro conta a saga do homem que
inspirou terrorista francês |
Eliane
Lobato
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O que leva um convicto homem de direita a dedicar-se de corpo
e alma para a esquerda? Todo o livro O homem que morreu três
vezes – uma reportagem sobre o “Chacal brasileiro”,
de Fernando Molica (Record, 335 págs., R$ 38), está
impregnado por essa dúvida, embora erradicá-la não
seja o objetivo do autor. Nem poderia. Molica, repórter especial
da Rede Globo, escolheu como tema a incrível vida vivida
pelo advogado gaúcho Antonio Expedito Carvalho Perera, dono
de uma biografia tão surpreendentemente transfigurada que
não serviria mesmo de parâmetro para responder à
pergunta. Perera abandonou suas convicções políticas
ao migrar do Partido Democrata Cristão para a organização
revolucionária Vanguarda Popular Revolucionária (VPR)
e, ato contínuo, atuar no terrorismo internacional comandado
por Illich Ramírez Sánches, o temível “Carlos,
o Chacal”. A cuidadosa investigação feita pelo
autor explica os movimentos que o levaram a pólos tão
distintos e torna a obra um instrumento capaz de ampliar as possibilidades
de entendimento de nossa história recente.
Década de 60. O homem que considerava o comunismo uma “imundície
pestilenta” e apoiou o golpe militar de 31 de março
de 1964 vislumbra um futuro de prosperidade (própria) enquanto
planeja livrar o País de “esquerdistas” como
Leonel Brizola, a quem planejava assassinar. Quem, entretanto, acaba
morrendo é ele próprio: em outubro do mesmo
ano, é demitido do Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande
do Sul, acusado de falsificar documentos. Expedito e Porto Alegre
saem de cena, entram Perera e São Paulo. O advogado, agora,
defende metalúrgicos, estudantes – esquerdistas, quem
diria!
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| Molica
investigou a vida de Perera, que passou da direita para a esquerda
e precisou morrer três vezes para se livrar da polícia |
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Embora não tenha pertencido ao “quadro da VPR”,
Perera é um simpatizante importante da organização
e chega a esconder Carlos Lamarca, o homem mais procurado pelos
militares, em sua própria casa. Preso e torturado, é
mandado para o exílio no Chile. Para se ter uma idéia
do quanto está mudado, Brizola passa a ser admirado e a intenção,
agora, é assassinar o então ministro da Fazenda, Delfim
Netto. Apontado pela imprensa francesa como o “mentor intelectual
e espiritual do terrorista Chacal”, ele vira alvo da polícia
internacional e precisa morrer de novo. Daí para a frente
seria Paulo Parra na Itália, até a morte real, por
câncer, em 1996. Brasil? Nunca mais.
Não foi nada fácil para Molica levantar toda a trama.
Mas O homem que morreu três vezes comprova que o cruzamento
de história com jornalismo, quando bem feito, resulta em
belas obras. A leitura seria mais agradável se a história
não fosse tão interrompida por transcrições
de documentos e detalhadas descrições dos percalços
do repórter em busca dos fatos. O autor poderia concentrar
o relato no interessante personagem que descobriu. Também
autor do romance Notícias do Mirandão, Molica
soube lidar com os mistérios que cercaram as várias
vidas de Perera. Está inscrito entre as boas promessas da
literatura brasileira.
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