|
ISTOÉ – Como se dá a forma de pressão
dos países
desenvolvidos sobre os países em desenvolvimento
nessas reuniões multilaterais?
Chang – Os países ricos tentam forçar
um consenso, entre aspas.
Esses países usam de várias técnicas para chegar
lá e convencerem
os países em desenvolvimento a votarem em bloco com eles.
Vale todo tipo de pressão: de ameaças de cortar ajuda
financeira a represálias, passando por qualquer outro tipo
de suborno. Eles são bem claros ao afirmar que aqueles países
em desenvolvimento que venham a apoiar suas propostas ganharão
mais ajuda financeira. As negociações até agora
eram assim, só que isso está começando a mudar.
Os países
em desenvolvimento começaram a enxergar essa agenda dos países
ricos como algo negativo para eles. Há quatro anos, os países
em desenvolvimento começaram a se rebelar. Foi na reunião
da OMC, em Seattle. Foi quando eles perceberam que iriam pagar muito
mais caro pelas patentes farmacêuticas, o que provocaria a
morte de muitos doentes vítimas da Aids.
ISTOÉ – Já é possível
enxergar mudanças significativas no comércio internacional
depois que os países em desenvolvimento começaram
a se rebelar?
Chang – Ainda não, mas já começamos
a perceber uma mudança na dinâmica da política
internacional. Desde que foi criada a OMC, em 1995, ocorreram quatro
reuniões em nível ministerial. Foram nesses encontros
que se tomaram as grandes decisões. As reuniões para
negociações mais minuciosas e detalhadas são
realizadas permanentemente por um escalão de embaixadores
em Genebra, na Suíça. As reuniões da OMC só
não fracassaram de vez porque, no encontro de Doha, no Catar,
se acabou criando um clima amistoso de apoio aos Estados Unidos.
Foi logo depois da queda das torres gêmeas, em setembro de
2001. Os Estados Unidos souberam tirar proveito da solidariedade
internacional. O representante de comércio dos Estados Unidos,
Robert Zoellick, chegou a afirmar que os países que não
aceitassem o livre comércio apoiavam os terroristas.
ISTOÉ – Se as regras na OMC não mudarem,
a situação ficará mais difícil para
os países em desenvolvimento?
Chang – Os americanos querem, por exemplo, acabar
com o tratamento especial e diferenciado que é dado a alguns
países com renda per capita inferior a US$ 1 mil. Esses países
têm direito de lançar mão de subsídios
nas exportações. Só que os Estados Unidos não
querem mais manter a tolerância com esses países e
estão pressionando para que essas tarifas diferenciadas acabem
em 2015. Se as regras não mudarem, os países em desenvolvimento
serão expulsos da OMC porque terão de reduzir suas
tarifas a níveis bastante semelhantes às dos países
desenvolvidos. Os países ricos usam essas medidas para nutrir
suas próprias indústrias e agora estão dizendo
que os países em desenvolvimento não devem fazer o
mesmo. Os países desenvolvidos não querem que os pobres
façam a mesma coisa que eles fazem.
ISTOÉ – Nas negociações no âmbito
da Alca, o governo brasileiro está enfrentando os Estados
Unidos. Os americanos estão dando de ombros e já disseram
que a Alca sai com ou sem o Brasil. Isso não seria um blefe
dos EUA?
Chang – Não sou especialista nas relações
entre América Latina e Estados Unidos, mas arrisco dizer
que o Brasil é o alvo principal dos Estados Unidos na Alca.
O governo brasileiro sabe disso e tem sido muito inteligente nas
negociações. Os Estados Unidos querem otimizar seu
poder de alavancagem e de persuasão preferencialmente através
de acordos bilaterais e regionais. Essa é uma prática
recorrente dos Estados Unidos. Quanto mais regional for o acordo
da Alca, melhor para eles porque aumentam suas chances de exercer
o poder sobre o Brasil.
ISTOÉ – Qual receita o sr. indicaria para
o Brasil, já que negociar com os americanos é uma
briga praticamente de cartas marcadas?
Chang – Os Estados Unidos não são o
único mercado importador dos produtos brasileiros. Existem
outros mercados no mundo. A China, por exemplo, é uma economia
que, dentro de pouco tempo, será uma potência maior
do que a americana. A economia chinesa é pouco explorada
pelo Brasil. Com tantas economias em fase de crescimento rápido,
o Brasil não deve ficar dependente única e exclusivamente
dos Estados Unidos para exportar seus produtos. A Índia é
outro país
que também está crescendo muito rapidamente, não
tanto como
a China. O Brasil deveria estar investindo em marketing de forma
mais agressiva. O País é o maior exportador mundial
de café e, no entanto,
na Coréia do Sul todo mundo associa o café de boa
qualidade ao colombiano e não ao brasileiro. Esse é
só um exemplo para comprovar que, se o Brasil investisse
mais em marketing, poderia vender mais. Os países em desenvolvimento,
inclusive o Brasil, não estão investindo suficientemente
nas possibilidades de entrar em outros mercados mais desenvolvidos.
Os Estados Unidos não são a única alternativa.
O que está faltando é uma maior interação.
Existe uma certa tendência dos países em desenvolvimento
em olhar só para os desenvolvidos e não
para outros mercados.
|