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 ENTREVISTA
19/11/2003

ISTOÉ – Como se dá a forma de pressão dos países
desenvolvidos sobre os países em desenvolvimento
nessas reuniões multilaterais?
Chang –
Os países ricos tentam forçar um consenso, entre aspas.
Esses países usam de várias técnicas para chegar lá e convencerem
os países em desenvolvimento a votarem em bloco com eles. Vale todo tipo de pressão: de ameaças de cortar ajuda financeira a represálias, passando por qualquer outro tipo de suborno. Eles são bem claros ao afirmar que aqueles países em desenvolvimento que venham a apoiar suas propostas ganharão mais ajuda financeira. As negociações até agora eram assim, só que isso está começando a mudar. Os países
em desenvolvimento começaram a enxergar essa agenda dos países
ricos como algo negativo para eles. Há quatro anos, os países em desenvolvimento começaram a se rebelar. Foi na reunião da OMC, em Seattle. Foi quando eles perceberam que iriam pagar muito mais caro pelas patentes farmacêuticas, o que provocaria a morte de muitos doentes vítimas da Aids.

ISTOÉ – Já é possível enxergar mudanças significativas no comércio internacional depois que os países em desenvolvimento começaram a se rebelar?
Chang –
Ainda não, mas já começamos a perceber uma mudança na dinâmica da política internacional. Desde que foi criada a OMC, em 1995, ocorreram quatro reuniões em nível ministerial. Foram nesses encontros que se tomaram as grandes decisões. As reuniões para negociações mais minuciosas e detalhadas são realizadas permanentemente por um escalão de embaixadores em Genebra, na Suíça. As reuniões da OMC só não fracassaram de vez porque, no encontro de Doha, no Catar, se acabou criando um clima amistoso de apoio aos Estados Unidos. Foi logo depois da queda das torres gêmeas, em setembro de 2001. Os Estados Unidos souberam tirar proveito da solidariedade internacional. O representante de comércio dos Estados Unidos, Robert Zoellick, chegou a afirmar que os países que não aceitassem o livre comércio apoiavam os terroristas.

ISTOÉ – Se as regras na OMC não mudarem, a situação ficará mais difícil para os países em desenvolvimento?
Chang –
Os americanos querem, por exemplo, acabar com o tratamento especial e diferenciado que é dado a alguns países com renda per capita inferior a US$ 1 mil. Esses países têm direito de lançar mão de subsídios nas exportações. Só que os Estados Unidos não querem mais manter a tolerância com esses países e estão pressionando para que essas tarifas diferenciadas acabem em 2015. Se as regras não mudarem, os países em desenvolvimento serão expulsos da OMC porque terão de reduzir suas tarifas a níveis bastante semelhantes às dos países desenvolvidos. Os países ricos usam essas medidas para nutrir suas próprias indústrias e agora estão dizendo que os países em desenvolvimento não devem fazer o mesmo. Os países desenvolvidos não querem que os pobres façam a mesma coisa que eles fazem.

ISTOÉ – Nas negociações no âmbito da Alca, o governo brasileiro está enfrentando os Estados Unidos. Os americanos estão dando de ombros e já disseram que a Alca sai com ou sem o Brasil. Isso não seria um blefe dos EUA?
Chang –
Não sou especialista nas relações entre América Latina e Estados Unidos, mas arrisco dizer que o Brasil é o alvo principal dos Estados Unidos na Alca. O governo brasileiro sabe disso e tem sido muito inteligente nas negociações. Os Estados Unidos querem otimizar seu poder de alavancagem e de persuasão preferencialmente através de acordos bilaterais e regionais. Essa é uma prática recorrente dos Estados Unidos. Quanto mais regional for o acordo da Alca, melhor para eles porque aumentam suas chances de exercer o poder sobre o Brasil.

ISTOÉ – Qual receita o sr. indicaria para o Brasil, já que negociar com os americanos é uma briga praticamente de cartas marcadas?
Chang –
Os Estados Unidos não são o único mercado importador dos produtos brasileiros. Existem outros mercados no mundo. A China, por exemplo, é uma economia que, dentro de pouco tempo, será uma potência maior do que a americana. A economia chinesa é pouco explorada pelo Brasil. Com tantas economias em fase de crescimento rápido, o Brasil não deve ficar dependente única e exclusivamente dos Estados Unidos para exportar seus produtos. A Índia é outro país
que também está crescendo muito rapidamente, não tanto como
a China. O Brasil deveria estar investindo em marketing de forma mais agressiva. O País é o maior exportador mundial de café e, no entanto,
na Coréia do Sul todo mundo associa o café de boa qualidade ao colombiano e não ao brasileiro. Esse é só um exemplo para comprovar que, se o Brasil investisse mais em marketing, poderia vender mais. Os países em desenvolvimento, inclusive o Brasil, não estão investindo suficientemente nas possibilidades de entrar em outros mercados mais desenvolvidos. Os Estados Unidos não são a única alternativa. O que está faltando é uma maior interação. Existe uma certa tendência dos países em desenvolvimento em olhar só para os desenvolvidos e não
para outros mercados.

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