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 ENTREVISTA
19/11/2003
Ha-Joon Chang
É hora de chutar a escada

O conselho é do professor coreano Ja-Hoon Chang, especialista em comércio exterior, para quem Lula já tem cacife internacional


Liana Melo

  Renato Velasco
Um representante de um país rico não deve perguntar ao economista coreano Ha-Joon Chang, professor de estudos do desenvolvimento na Universidade de Cambridge, na Inglaterra, o que ele acha de livre comércio e globalização. Sua análise é bombástica: “Quando um país chega ao topo, chuta a escada para impedir o acesso dos outros.” Especialista em comércio internacional e autor do livro Chutando a escada, editado no Brasil pela Unesp, Chang passou a última semana viajando pelo eixo Rio-São Paulo-Brasília. Ele veio ao Brasil participar do Seminário Internacional sobre Desenvolvimento Tecnológico e Industrial, promovido pelo Ministério da Ciência e Tecnologia. Falou sobre comércio exterior e sobre o novo acordo do Brasil com o FMI. Entre prós e contras, o coreano acha que o governo brasileiro foi precipitado ao aceitar as regras do Fundo. Nas críticas à globalização, Chang não doura a pílula ao afirmar que os países ricos não têm nenhum interesse em diminuir a distância dos pobres. Para ele, se as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC) não mudarem, “os países em desenvolvimento serão expulsos nos próximos anos.”

Abrir os olhos e enxergar novos mercados é, segundo Chang, a alternativa dos países em desenvolvimento para escapar da fúria capitalista dos ricos. Estados Unidos e Europa seriam, portanto, os verdadeiros inimigos da globalização. Só a história poderá comprovar o diagnóstico de Chang, que dá dicas de sobrevivência. Levantar uma barreira contra as imposições dos ricos seria a saída de países como o Brasil para furar o bloqueio no comércio internacional. Animado com os novos ventos que sopram da América Latina e da Ásia, Chang acredita que o Brasil poderá assumir um papel de liderança nesta nova ordem econômica internacional, junto com a Índia e a China. Em entrevista a ISTOÉ, ele disse também que o Brasil deveria estar investindo mais em marketing para reforçar seus cofres. “É o maior exportador de café do mundo e, na Coréia do Sul, o café de boa qualidade é associado ao produto colombiano.”

ISTOÉ – No livro Chutando a escada, o sr. defende que a maioria dos países desenvolvidos só chegou lá adotando medidas protecionistas. Significa que a saída para os países em desenvolvimento é voltar-se para dentro, e não brigar por condições de igualdade nos organismos multilaterais?
Ha-Joon Chang –
Não acho que os países em desenvolvimento devam olhar para dentro como solução. Esses países necessitam crescer e, para isso, devem aumentar suas exportações para importar tecnologias e insumos básicos. Os países em desenvolvimento precisam participar dos mercados mundiais. É como um filho: quando a criança nasce, ela não vai direto para a universidade. É preciso prepará-la para chegar lá e ganhar dinheiro na vida adulta. O mesmo acontece com os países em desenvolvimento. Eles precisam desenvolver suas indústrias para enfrentar os países ricos.

ISTOÉ – Qual é a receita para os países em desenvolvimento não serem tragados pelos países desenvolvidos?
Chang –
As regras da Organização Mundial do Comércio (OMC) precisam ser modificadas o mais rápido possível. Só assim os países em desenvolvimento terão condições de proteger suas indústrias e disputar um espaço na economia mundial de forma menos desigual. Tentar evitar o desenvolvimento industrial nesses países é o mesmo que impedir que eles se insiram na economia mundial. Precisamos de regras diferentes na OMC e em outros acordos multilaterais. Não se pode esperar que países como a Etiópia, que tem uma renda per capita de US$ 1,50 por dia, sejam submetidos às mesmas regras aplicadas aos desenvolvidos. Portanto, existem países em níveis diferentes de desenvolvimento e, por isso, precisam de políticas diferentes e regras distintas.

ISTOÉ – Como fazer frente aos países desenvolvidos no mercado mundial se eles têm dinheiro e poder para pressionar os pobres? Não é uma luta muito desigual?
Chang –
Os países em desenvolvimento já começam a se perguntar por que continuam participando de organismos internacionais multilaterais
se as regras não atendem seus interesses. No FMI, por exemplo, o princípio é simples: cada US$ 1, um voto. Portanto, os Estados Unidos, que são o maior acionista do FMI, acabam dominando a votação, o
que acaba dando a eles poder de veto nas decisões. É por isso que essas negociações internacionais vêm fracassando. Os países em desenvolvimento não estão mais dispostos a acatar as imposições
dos países desenvolvidos. Não é à toa que fracassaram as rodadas
da OMC em Seattle, nos Estados Unidos, e em Cancún, no México.

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