| Ha-Joon
Chang |
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| É
hora de chutar a escada |
| O
conselho é do professor coreano Ja-Hoon Chang, especialista
em comércio exterior, para quem Lula já tem cacife internacional
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Liana
Melo
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Um representante
de um país rico não deve perguntar ao economista coreano
Ha-Joon Chang, professor de estudos do desenvolvimento na Universidade
de Cambridge, na Inglaterra, o que ele acha de livre comércio
e globalização. Sua análise é bombástica:
“Quando um país chega ao topo, chuta a escada para impedir
o acesso dos outros.” Especialista em comércio internacional
e autor do livro Chutando a escada, editado no Brasil pela Unesp,
Chang passou a última semana viajando pelo eixo Rio-São
Paulo-Brasília. Ele veio ao Brasil participar do Seminário
Internacional sobre Desenvolvimento Tecnológico e Industrial,
promovido pelo Ministério da Ciência e Tecnologia. Falou
sobre comércio exterior e sobre o novo acordo do Brasil com
o FMI. Entre prós e contras, o coreano acha que o governo brasileiro
foi precipitado ao aceitar as regras do Fundo. Nas críticas
à globalização, Chang não doura a pílula
ao afirmar que os países ricos não têm nenhum
interesse em diminuir a distância dos pobres. Para ele, se as
regras da Organização Mundial do Comércio (OMC)
não mudarem, “os países em desenvolvimento serão
expulsos nos próximos anos.”
Abrir os olhos e enxergar novos mercados é, segundo Chang,
a alternativa dos países em desenvolvimento para escapar
da fúria capitalista dos ricos. Estados Unidos e Europa seriam,
portanto, os verdadeiros inimigos da globalização.
Só a história poderá comprovar o diagnóstico
de Chang, que dá dicas de sobrevivência. Levantar uma
barreira contra as imposições dos ricos seria a saída
de países como o Brasil para furar o bloqueio no comércio
internacional. Animado com os novos ventos que sopram da América
Latina e da Ásia, Chang acredita que o Brasil poderá
assumir um papel de liderança nesta nova ordem econômica
internacional, junto com a Índia e a China. Em entrevista
a ISTOÉ, ele disse também que o Brasil deveria estar
investindo mais em marketing para reforçar seus cofres. “É
o maior exportador de café do mundo e, na Coréia do
Sul, o café de boa qualidade é associado ao produto
colombiano.”
ISTOÉ – No livro Chutando a escada,
o sr. defende que a maioria dos países desenvolvidos só
chegou lá adotando medidas protecionistas. Significa que
a saída para os países em desenvolvimento é
voltar-se para dentro, e não brigar por condições
de igualdade nos organismos multilaterais?
Ha-Joon Chang – Não acho que os países
em desenvolvimento devam olhar para dentro como solução.
Esses países necessitam crescer e, para isso, devem aumentar
suas exportações para importar tecnologias e insumos
básicos. Os países em desenvolvimento precisam participar
dos mercados mundiais. É como um filho: quando a criança
nasce, ela não vai direto para a universidade. É preciso
prepará-la para chegar lá e ganhar dinheiro na vida
adulta. O mesmo acontece com os países em desenvolvimento.
Eles precisam desenvolver suas indústrias para enfrentar
os países ricos.
ISTOÉ – Qual é a receita para os países
em desenvolvimento não serem tragados pelos países
desenvolvidos?
Chang – As regras da Organização Mundial
do Comércio (OMC) precisam ser modificadas o mais rápido
possível. Só assim os países em desenvolvimento
terão condições de proteger suas indústrias
e disputar um espaço na economia mundial de forma menos desigual.
Tentar evitar o desenvolvimento industrial nesses países
é o mesmo que impedir que eles se insiram na economia mundial.
Precisamos de regras diferentes na OMC e em outros acordos multilaterais.
Não se pode esperar que países como a Etiópia,
que tem uma renda per capita de US$ 1,50 por dia, sejam submetidos
às mesmas regras aplicadas aos desenvolvidos. Portanto, existem
países em níveis diferentes de desenvolvimento e,
por isso, precisam de políticas diferentes e regras distintas.
ISTOÉ – Como fazer frente aos países
desenvolvidos no mercado mundial se eles têm dinheiro e poder
para pressionar os pobres? Não é uma luta muito desigual?
Chang – Os países em desenvolvimento já
começam a se perguntar por que continuam participando de
organismos internacionais multilaterais
se as regras não atendem seus interesses. No FMI, por exemplo,
o princípio é simples: cada US$ 1, um voto. Portanto,
os Estados Unidos, que são o maior acionista do FMI, acabam
dominando a votação, o
que acaba dando a eles poder de veto nas decisões. É
por isso que essas negociações internacionais vêm
fracassando. Os países em desenvolvimento não estão
mais dispostos a acatar as imposições
dos países desenvolvidos. Não é à toa
que fracassaram as rodadas
da OMC em Seattle, nos Estados Unidos, e em Cancún, no México.
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