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 EDITORIAL
19/11/2003

As lições da barbárie

Saudosistas de todos os matizes vão sempre lembrar que o mundo era melhor no tempo em que eram jovens. Havia menos poluição, menos corrupção, menos trânsito e, principalmente, menos violência. Todos eram mais felizes, mais inocentes, mais livres. Os tempos mudaram. Se ainda havia alguma dúvida sobre os tenebrosos anos em que vivemos, a reportagem de capa desta edição e a entrevista com o ministro da Educação, Cristovam Buarque, jogam uma definitiva ducha de água gelada sobre a nossa impotência. De um lado, um crime bárbaro, sem sentido nem motivo. De outro, um retrato sem meios-tons de uma realidade cruel: o apartheid social que hoje atinge 50 milhões de brasileiros entre analfabetos e os que foram convencidos de que sabem ler e escrever. Entre as duas tragédias há uma ponte.

Aos 16 anos, o principal acusado de matar com todos os requintes de crueldade a menina Liana Friedenbach vivia, literalmente, como um animal. “Os envolvidos no crime são pessoas de uma ignorância absoluta”, constatou um policial que participa das investigações. Têm noções rudimentares de tempo e espaço. Calculam o horário pelo sol e as distâncias dizendo que andaram “meia hora pela picada de baixo”. Nada justifica a estupidez do assassinato. Até na selva, existem regras de convivência. No massacre de Embu-Guaçu, nem elas foram respeitadas. Mas a vida e a obra de Champinha merecem uma reflexão.

Ninguém mata por ser pobre. E nem só os pobres matam. Barbaridades acontecem também no Brasil de Primeiro Mundo, entre os bem-alimentados e instruídos. Em novembro de 2002, o País também se chocava com a frieza da bela Suzane Louise von Richthofen, 19 anos, que matou os pais a pauladas. Ao contrário de Champinha, ela estudou em bons colégios, tomou iogurte e foi criada com amor. O que não se pode desconsiderar é que o jovem assassino de Liana e os 50 milhões de analfabetos foram produzidos pela mesma realidade. Se, por exemplo, os programas sensacionalistas que dominam as tardes nas tevês abertas combatessem o apartheid social com a mesma volúpia com que mostram detalhes sórdidos de crimes hediondos, talvez a sociedade não estivesse discutindo exclusivamente a aplicação de penas mais severas.

Ramiro Alves, Editor

 
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