| ARTES
& ESPETÁCULOS |
22/10/2003
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| Música |
Esse mulato é luxo só
Aos 86 anos, Henri Salvador lança
novo disco mantendo
a aura de requinte no repertório e na voz
Apoenan
Rodrigues
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São tantas as boas lembranças da longa temporada
brasileira do cantor, compositor e humorista Henri Salvador, 86
anos, que elas ocupam um espaço especial na sua história.
Salvador desembarcou no Rio de Janeiro em 1941, recém-casado,
vindo de Paris, onde hoje mora num belo apartamento na exclusiva
Place Vendôme, endereço das maiores grifes e do mítico
Hotel Ritz. O então jovem Salvador, natural de Sinnamary,
Guiana Francesa, veio aos trópicos com a orquestra de Ray
Ventura, enquanto a guerra explodia na Europa. Adotou o País
sem se importar com a penúria aqui passada. Para comprar
comida, roubava garrafas de refrigerantes do Cassino da Urca e as
vendia, pois não recebia cachê de Ventura, que gastava
tudo no jogo. Mesmo assim, o Brasil não lhe sai da memória.
Tanto que seu 28º álbum, o já essencial Ma
chère et tendre – cujo lançamento mundial
acontece na terça-feira 28 –, faz várias referências
à terra de Grande Othelo, considerado por Salvador uma das
cinco maiores personalidades que ele conheceu, conforme segredou
ao jornal O Estado de S.Paulo.
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Quando
jovem, o cantor trabalhou em tevê e
passou longa temporada
no Rio de Janeiro |
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Vous, segunda faixa do disco, composição de
Guy Béart, datada de 1958, abre com um pandeiro brasileiríssimo
no ritmo, acompanhado de um violão joãogilbertiano.
É um samba parisiense. Tão chique como se Paulinho
da Viola entoasse uma canção francesa. O Brasil volta
à tona na bossa pop Toi, no samba-canção
Bormes-les-mimosas e na bossa Itinéraire. Este
apego à brasilidade também encontra resposta na admiração
por João Gilberto, a quem considera um de seus ídolos
modernos. Quando Salvador se instalou por aqui, o Rio, ainda capital
federal, tinha dinheiro circulando. Desfrutava do charme único
de um balneário sem violência e pleno de glamour. O
músico trabalhou bastante. Entre os cariocas iniciou sua
carreira
solo. Circulava por várias casas
noturnas, encantando platéias com seu savoir-faire lapidado
em
décadas na Cidade Luz.
Paris – Ele desembarcou com os pais em Paris,
aos sete anos. O pai queria que fosse advogado ou médico.
Mas logo apaixonou-se pelo circo e pelo cinema, descobriu sua capacidade
para fazer rir observando pessoas pitorescas na rua. Ainda adolescente,
entrou em contato com a voz singular de Louis Armstrong e com o
suingue do compositor, maestro e pianista de jazz Duke Ellington,
com quem tocou mais tarde. Fascinado por Nat King Cole, de certa
forma herdou seu estilo adaptando-o ao modo francês de cantar.
Fez a alegria de muitas platéias, acrescentando requinte
a elas com sua voz grave e macia como o veludo. Basta ouvir a faixa-título
do recente CD. A suavidade de seu timbre é um bálsamo
nestes tempos de excessos eletrônicos. Igual sensação
acontece em C’était un jour comme les autres
ou em Le voyage dans le bonheur, três composições
de sua autoria, com diferentes parceiros, todas carregando na melodia
um clima de romance, pulverizado ao som de discretos violinos e
metais ou de violões notívagos.
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As canções guardam certo tom nostálgico, mas
não são passadistas. Algumas relembram a atmosfera
dos anos 1950, época em que o artista começou a conhecer
a popularidade na terra onde foi criado. Fazia programas de televisão
de grande audiência. Com eles, aprimorou sua veia humorística.
No alvorecer da década, conheceu Jacqueline Garabedian, sua
segunda mulher, morta em 1976. Ela é a personalidade
mais importante da sua vida. Grande parte da suavidade de Henri
Salvador – que continua com impressionante vitalidade –
certamente vem deste romance agora eternizado em canções
tão sofisticadas. Esse mulato quando canta é luxo
só.
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