| CIÊNCIA,
TECNOLOGIA & MEIO AMBIENTE |
08/10/2003
|
A economia do amor
Musa dos movimentos sociais,
a futurista Hazel Henderson defende a inclusão dos critérios de
qualidade de vida para calcular a riqueza das nações
Darlene Menconi
| |
 |
| |
“A
natureza é a professora
que dita como as coisas podem
ser feitas neste momento” |
Com fala
mansa e língua ferina, a ativista e consultora inglesa Hazel
Henderson não tem formação acadêmica, mas
é doutora honoris causa em economia pelas universidades
de Tóquio, San Francisco e Massachusetts. Naturalizada americana,
Hazel prega uma globalização mais igualitária
e humanista e viaja o mundo em defesa da inclusão de critérios
sociais nos índices que revelam a saúde econômica
das nações. Presença garantida nos fóruns
sociais, ela foi uma das musas inspiradoras das esquerdas. Hazel aposta
na diplomacia brasileira
para liderar um movimento contrário à hegemonia americana,
com enfoque na qualidade de vida e na preservação da
natureza. Seu modelo econômico contabiliza o espantoso crescimento
de paraísos fiscais como as Ilhas Cayman, que em 1998 sediavam
200 mil empresas e hoje abrigam 1,5 milhão. Na base desse bolo
estaria a economia informal e a exploração dos recursos
naturais, que ela batizou de economia do amor. Hazel veio ao Brasil
para divulgar a Conferência Internacional dos Indicadores de
Sustentabilidade e Qualidade de Vida, que acontece
s este mês, em Curitiba.
ISTOÉ – Quais são os princípios
da economia do amor?
Hazel Henderson – É como se fosse um bolo
com várias camadas. Nas superiores estão a economia
de mercado oficial, as transações em dinheiro e os
investimentos privados. Depois vem o setor público. No recheio
está a evasão fiscal. O que chamo de economia do amor
é a metade produtiva do bolo. É todo o trabalho não
remunerado dos colaboradores, das mulheres que cuidam dos filhos,
dos idosos, dos serviços domésticos, dos voluntários
e da agricultura de subsistência. Em 1995, a Organização
das Nações Unidas (ONU) avaliou que essa economia
representava US$ 16 trilhões. Desses, US$ 11 trilhões
seriam gerados por mulheres e US$ 5 trilhões por homens.
ISTOÉ – Qual a moeda dessa nova economia?
Hazel – Todo o bolo está sustentado na mãe
natureza. A moeda
não é dinheiro. O valor está na absorção
dos custos da poluição, na reciclagem e no tratamento
dos efluentes tóxicos, nas toneladas de
lixo espacial ao redor da Terra, na inclusão social, no investimento
em saúde e em educação. Até mesmo o
Banco Mundial concorda que o investimento em educação
não deveria competir no orçamento com gastos como
a construção de estradas. É um investimento
que leva
20 anos para se pagar.
ISTOÉ – Como transformar os recursos naturais
em riqueza?
Hazel – Antes é preciso olhar o cenário
global. Os Estados Unidos estão perdendo credibilidade. Nesse
contexto de falta de liderança, de repente o Brasil se torna
um líder do grupo de 21, que já são 23, ou
24 países. Pelos critérios que usamos para avaliar
uma economia saudável, o Brasil é o país mais
rico do mundo, com toda sua biodiversidade. Nossos indicadores não
consideram só o PIB. Usamos 12 aspectos para medir a qualidade
de vida de um país: educação, emprego, energia,
meio ambiente, saúde, direitos humanos, receita e sua distribuição,
infra-estrutura, segurança nacional, segurança pública,
lazer e moradia.
ISTOÉ – Qual o papel do meio ambiente nesse
cenário?
Hazel – Este é o século das nações
em desenvolvimento. Há um ano, todo mundo imaginava que seria
a hora da hegemonia americana. Apesar do poderio militar, o século
americano foi curto. O ponto fraco foi a economia. Vivemos hoje
no mundo da informação, do conhecimento e da ecologia.
Estamos redefinindo o progresso, numa direção sustentável,
o que significa incluir no preço dos produtos o custo social
e ambiental. Se deixarmos o mercado financeiro continuar como está,
será como determinar a destruição mais acelerada
dos recursos naturais. Este é o velho modelo, em que as empresas
estão hipnotizadas pela idéia da lucratividade. Dinheiro
não é riqueza. Não há como separar economia
de ecologia. O mundo mudou e a economia tradicional precisa mudar.
Não é à toa que o Prêmio Nobel de Economia
de 2002, para Daniel Kahneman, foi sobre a psicologia dos mercados.
ISTOÉ – Por que instituições
como o Banco Mundial estão interessadas em mapear as reservas
de água do planeta?
Hazel – Elas querem transformar recursos naturais
em dinheiro. Não pensam no retorno de longo prazo. No desenvolvimento
sustentável,
não se aumenta a lucratividade a cada trimestre, como querem
os acionistas. Estamos redefinindo o progresso, numa direção
sustentável que considera o progresso econômico de
pequenas comunidades
e a ecologia. Muita gente investe em fundos de empresas que
respeitam o meio ambiente.
ISTOÉ – Por que a sra. é chamada de
acupunturista da economia?
Hazel – Nossos avós não tinham noção
de que os recursos naturais
eram finitos. Se continuarmos no atual modelo econômico, precisaremos
de dois, ou mesmo de três, planetas para suprir nossas necessidades.
A economia insustentável não apenas destrói
o ambiente, mas perde dinheiro. No Brasil, a nova administração
compreende essas questões. Meu papel é agir nesses
locais. É como se eu tivesse uma agulha
de acupuntura para fazer pequenas contribuições úteis
ao conjunto
que é o planeta.
ISTOÉ – Como as mulheres se inserem nesse
tipo de sociedade?
Hazel – Espero que mais e mais rapidamente as mulheres
entrem
no mercado de trabalho e na política. Nos Estados Unidos,
as
empresas gerenciadas por mulheres já empregam um terço
da força
de trabalho do país. Nos próximos anos, as mulheres
serão as donas
das empresas privadas.
ISTOÉ – Qual a diferença entre a administração
feminina e a masculina?
Hazel – As mulheres têm motivações
diferentes ao começar suas empresas. Elas querem ser independentes
e ajudar sua comunidade. A outra motivação é
que muitos negócios começaram em suas próprias
casas, o que facilita tomar conta dos filhos. Muito abaixo na lista
estão as mulheres que querem ficar muito ricas ou ter poder.
As mulheres estão criando alimentos orgânicos e abrindo
lojas de produtos saudáveis. Elas estão muito mais
envolvidas com a ecologia.
ISTOÉ – Como é possível sobreviver
no mundo
competitivo de hoje?
Hazel – O próprio Charles Darwin fala em altruísmo,
cooperação e
como isso, e não a competição, levou à
evolução das espécies. Os cientistas descobriram
que um hormônio nos capacita a formar grupos para nos proteger.
Não nos surpreende que as mulheres, e em particular as mães,
precisem desse hormônio para se unir aos filhos. O importante
é notar que o modelo econômico atual, chamado de racional
pelos teóricos, maximiza os interesses individuais. Por incrível
que pareça,
o mundo que se preocupa em compartilhar e com o trabalho cooperativo
é chamado de irracional. Só que é esse modelo
que vai garantir a evolução da nossa espécie.
|