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  BRASIL 24/09/2003
Geopolítica  

Missão secreta no Peru
Avião da Força Aérea Brasileira sobrevoa território
vizinho, age com rapidez e permite o resgate de 70
reféns do Sendero Luminoso
Área rastreada pela missão

Mário Simas Filho

 

Exatamente às 20h40 da segunda-feira 9 de junho, oito militares da Aeronáutica embarcaram no jato Embraer 145-FAB R-99B, na Base Aérea de Anápolis (GO), com destino a Porto Velho (RO). Era uma missão secreta. Eles não sabiam para onde iriam nem por que estavam voando. Às 23h40, o avião pousou, reabasteceu e só voltou a decolar às 6h10 da terça-feira 10. Três horas e 40 minutos depois, o jato aterrissou na área de uso militar do Aeroporto Internacional de Lima, no Peru. Os militares brasileiros foram recebidos por oficiais da Força Aérea Peruana e só então souberam qual era o objetivo da missão. Os peruanos explicaram que, desde a manhã do dia 9 de junho, 71 funcionários da Techint, uma empresa argentina que está construindo um gasoduto na região de Ayacucho, eram mantidos como reféns, em plena floresta amazônica, de militantes do Sendero Luminoso – grupo terrorista de orientação maoísta. Entre os reféns estavam três suboficiais da Polícia Nacional do Peru e o governo conduzia as negociações. Os terroristas exigiam dinamite, armas e um resgate de
US$ 200 mil para a libertação do grupo. A missão dos militares brasileiros era rastrear toda a região de floresta, procurando interceptar transmissões de rádio e celulares via satélite feitas pelos terroristas
para tentar localizar exatamente onde estavam os reféns.

  Ichiro Guerra
  Sivam em ação: o jato Embraer 145-FAB R-99B no aeroporto de Lima em 10/6/2003; o ministro da Defesa do Peru fez questão de conhecer o avião por dentro

Às 15h27 o jato da FAB decolou de Lima rumo à região de Ayacucho. A bordo, além dos oito brasileiros, estava um oficial da Força Aérea Peruana. O Embraer 145-FAB R-99B faz parte da seleta frota do Sivam (Sistema de Vigilância da Amazônia) adquirida há pouco mais de um ano pela Força Aérea. O avião, usado para missões que por razões geográficas não podem ser atendidas por satélites de observação, está equipado para sensoriamento remoto e dispõe de tecnologia de última geração, que permite a sua utilização sob quaisquer condições meteorológicas. Para fazer rastreamentos de ondas de transmissão e captar imagens, o avião conta com Radar de Abertura Sintética (SAR), Scanner Hiperespectral (HSS), Scanner Multiespectral (MSS) e Sensor Ótico e Infravermelho (OIS). São sistemas que operam em faixas de microondas,: infravermelho e visual e permitem o monitoramento de extensas áreas, o que possibilita o controle sobre a região amazônica, não só de seu espaço aéreo mas também sobre o que ocorre em solo, como desmatamentos e queimadas, garimpagem ilegal, assentamento de povos indígenas e movimentação de narcotraficantes, contrabandistas e, é claro, terroristas. “A missão foi secreta, mas serve de exemplo para ilustrar como o Sivam pode funcionar para toda a região e não apenas para o Brasil”, disse um oficial da Aeronáutica no Rio de Janeiro que pediu para não ser identificado. “É importante que o Brasil comece a trabalhar em conjunto com os países vizinhos”, completa o militar.

  Oscar Paredes/AP
  O presidente Alejandro Toledo comemorou a libertação dos reféns, mas nada disse sobre a participação brasileira

O resgate – Sobrevoando a zona de Ayacucho, os brasileiros conseguiram interceptar diversos sinais de transmissão de rádio na faixa de VHF. A cada transmissão registrada, era mapeada uma posição. Depois de quase uma hora de sobrevôo na floresta, foi possível identificar com precisão o ponto de onde as transmissões estavam vindo: um acampamento num lugarejo chamado Toccate. Imediatamente, as coordenadas geográficas do lugar foram transmitidas do avião brasileiro para o ministro da Defesa do Peru, Aurelio Loret de Mola Bohmeas, que em terra comandava a ação de militares e policiais peruanos. Com o mapa da mina nas mãos, helicópteros e aviões peruanos passaram a sobrevoar o acampamento. Percebendo que tinham sido descobertos e localizados, os sequestradores usaram a estratégia de libertar um a um os reféns, para evitar um possível ataque. Os integrantes do Sendero Luminoso informavam, via rádio, o nome de cada refém libertado. “Com certeza
eles perceberam que foram descobertos através das ondas de rádio
e usaram isso para se garantir contra uma investida policial”, explicou
o ministro Loret de Mola à imprensa peruana. Os nomes dos libertados eram captados no avião brasileiro. Depois de liberado o último refém,
os sequestradores se dividiram em grupos e fugiram pela mata fechada. “As tropas terrestres priorizaram o resgate dos trabalhadores”,
explicou o ministro peruano.

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