| BRASIL |
17/09/2003
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| Comércio
exterior |
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Vitória
da periferia
Acima de acordos econômicos,
a grande conquista da 5ª Conferência da Organização Mundial
do Comércio foi a formação do G-21, que representa metade da
população mundial na defesa de um equilíbrio de forças |
Célia
Chaim
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Denúncia de pressão dos EUA para esvaziar o grupo de países
liderados pelo Brasil |
O presidente George
W. Bush não desgrudou do telefone às vésperas
da 5ª Conferência Ministerial da Organização
Mundial do Comércio (OMC), que se encerra neste domingo14,
em Cancún, o balneário mexicano que invade o mar do
Caribe, um dos vizinhos mais próximos de Cuba. Bush ligou para
o presidente Lula, ligou também para lideranças da Índia,
do Paquistão e da África do Sul. Como se fosse um estadista
bem-intencionado, o presidente americano ligou para pedir um consenso
– obviamente em torno das políticas comerciais americanas,
com as quais os quatro países discordam abertamente. Lula foi
enfático: sem avanços significativos na negociação
agrícola não seria possível avançar nas
demais arenas.
Sob uma temperatura que variou de 25º a 34º, o encontro
que acontece a cada dois anos – o último foi em Doha,
capital do Qatar, país do Oriente Médio rico em petróleo
entre o Golfo Pérsico e a Arábia Saudita – teve
muita discussão, protestos naturalistas (como os silenciosos
nudistas que escreveram com seus corpos “Não à
OMC”) e ultra-radicais (como o harakiri do agricultor sul-coreano
Lee Kyung-Hae, militante que morreu num hospital de Cancún
quarta-feira 10), alguns acordos e uma grande conquista liderada
pelo Brasil: a criação do Grupo dos 21 que, na verdade,
já reúne mais de 21, 22 países tidos como “periféricos”
que representam 65% da população rural e cerca da
metade da população mundial, reunindo, além
do Brasil, África do Sul (que tem peso econômico relevante
em seu continente e é parte de uma aliança que vem
sendo montada com o Brasil e a China), Argentina, Chile, China,
Colômbia, México e Tailândia. Sozinhos, Estados
Unidos e União Européia somam quase 40% do comércio
mundial e é contra essas duas fortalezas que o G-21 defende
maior abertura dos mercados agrícolas e redução
mais veloz e ampla dos subsídios à agricultura.
Os Estados Unidos jogam dos dois lados. “O presidente (Bush)
ressaltou que um resultado ambicioso e bem-sucedido em Cancún,
especialmente na agricultura, beneficiará a todos os países”,
disse o porta-voz da Casa Branca, Scott McClellan. O que ele não
falou é que tem que ser bem-sucedido para eles. Ao mesmo
tempo que divulgam essas teóricas intenções
de acordo, os Estados Unidos costuram pesadas pressões contra
o grupo recém-formado, ao qual aderiu também a Turquia.
A organização não-governamental Action Aid
foi a primeira a denunciar o aumento da pressão dos Estados
Unidos para esvaziar o G-21. Segundo o coordenador da campanha internacional
de comércio da organização, Adriano Campolina,
os Estados Unidos estão pressionando a Costa Rica, Guatemala
e El Salvador para abandonar o G-21, em troca de cotas comerciais.
O objetivo é um só: esvaziar o grupo. No comando dessa
máquina devastadora está o também devastador
Robert Zoellick, representante de comércio americano. Pequeno
currículo de Zoellick: 50 anos, braço direito do presidente
Bush nessa área, ideólogo da Alca, grande defensor
do livre comércio (à moda americana, é claro),
servidor dos republicanos há mais de 20 anos.
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Protesto naturalista: a meta era escrever “Não
à OMC” |
Ameaças
– A
portas fechadas, Zoellick, que tem orgulho em se definir como o “czar
estado-unidense da globalização”, conversou com
representantes de alguns países do grupo das pequenas economias
para demovê-los dessa “idéia tola” de se
constituir em Grupo (para o qual também estariam sendo encaminhados
os países africanos). As pressões, aparentemente, não
surtiram efeito, mas persistiram ao longo da conferência. Mais
ainda quando os países em desenvolvimento receberam o apoio
de outro “G”, o G-9, constituído por Japão,
Coréia do Sul, Taiwan, Israel, Bulgária, Islândia,
Noruega, Liechtetenstein e Suíça, grandes importadores
de produtos agrícolas. “As ameaças e tentativas
de suborno praticadas pelo Estados Unidos demonstram antes de tudo
seu temor frente ao novo equilíbrio de forças na Organização
Mundial de Comércio, com o surgimento e fortalecimento do G-21”,
disse Campolina. |