| ARTES
& ESPETÁCULOS |
17/09/2003
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| Livros |
Estilo retocado
Em seu quarto livro, Budapeste,
Chico Buarque abandona os enredos asfixiantes em troca de uma história
mais palatável
Luiz Chagas
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‘‘ E engravidou de mim, e na sua barriga o livro
foi ganhando novas formas, e foram dias e noites sem pausa,
sem comer um sanduíche, trancado no quartinho da agência, até
que eu cunhasse, no limite das forças, a frase final: e a mulher
amada, cujo leite eu já sorvera, me fez beber da água com que
havia lavado sua blusa. ’’ Trecho do
livro Budapeste |
José Costa vive no Rio de Janeiro. É casado com
Vanda, que engravidou num momento em que ele se sentia despojado
de amor próprio. Gerou Joaquinzinho. Na qualidade de sócio-proprietário
da Cunha & Costa Agência Cultural, fundada pelo amigo
de infância Álvaro Cunha, seu trabalho é escrever
para outras pessoas discursos, declarações, notas
e artigos inteiros que, não raro, alcançam sucesso,
são comentados, forjam jargões, mas o mantêm
anônimo. Sua solidão, contudo, é relativa. Existem
tantos como ele espalhados pelo mundo que chegam a se reunir em
congressos mundiais de escritores desconhecidos. Na volta de um
desses eventos, realizado em Istambul, Turquia, seu avião
é desviado para Budapeste, Hungria, onde pernoita. Como ninguém
por lá sabe pronunciar José Costa, surge, então,
Zsoze Kósta, um brasileiro apaixonado, ou melhor seduzido,
subjugado pela língua magiar a ponto de passar a viver com
a bela Krista, mulher que lhe ensina o novo idioma.
É do diálogo (monólogo?) entre os dois personagens
que se alimenta Budapeste (Companhia das Letras, 176 págs.,
R$ 29,50), quarto livro de Chico Buarque, que o escreveu na sua
casa no Rio de Janeiro e no apartamento em Paris. Luiz Schwarcz,
proprietário da editora que também publicou os romances
Estorvo (1991) e Benjamim (1995), conta que Chico
nunca teve prazo de entrega. “Budapeste ele levou dois
anos para escrever, enquanto os outros demorou um ano.” Chico
Buarque é também autor da novela Fazenda modelo
(1975) e de quatro peças de teatro entre 1968 e 1979. Mas
o que chama a atenção em Budapeste, principalmente
em relação aos enredos asfixiantes dos livros anteriores,
é a linguagem mais palatável, sedutora até,
com que envolve o leitor para enfim aprisioná-lo numa armadilha
estilística: o que é verdade e o que não é?
Para Schwarcz, um filho de húngaro, a escolha do idioma foi
aleatória. “Chico nunca esteve em Budapeste”,
afirma o editor, divertindo-se com a decisão do autor de
transformar em dialeto um regionalismo falado na Transilvânia
oriental. O essencial é o jogo claro-escuro entre os dois
idiomas, o português e “a única língua
do mundo que, segundo as más línguas, o diabo respeita”.
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José é capaz de escrever sobre qualquer assunto,
desde que seja sob a forma de prosa. Atinge o cume de sua carreira
ao criar O ginógrafo, “autobiografia”
erótica de Kaspar Krabbe, um executivo alemão que
“zarpou de Hamburgo e adentrou a Guanabara”. No Brasil,
aprendeu a escrever o português no corpo de uma certa Tereza,
e mais tarde nos corpos de prostitutas
e estudantes que chegavam a fazer fila para merecer tal atenção.
Na pele de Zsoze, ele só escreve em versos. Assim que começa
a dominar o idioma magiar, cria um livro de poemas, Titkos Háramsoros
Versszakok ou Tercetos secretos, que sai assinado por
um tal de Kocsis Ferenc, poeta em franca decadência. São
referências cruzadas que se repetirão pelo livro.
Em certo momento, José abandona Vanda no Rio de Janeiro
para descobrir-se Zsoze nos braços de Krista, em Budapeste,
e vice-versa. Sempre que está na capital húngara ou
na Cidade Maravilhosa hospeda-se no Hotel Plaza, nome genérico
que obedece à estranha regra de nunca se localizar numa praça.
Mas Vanda acaba se apaixonando pela autobiografia do alemão
Krabbe, escrita por José. Enquanto Krista considera os poemas
nada mais que “exóticos”, o que leva Zsoze a
romper com ela. Esta idéia de espelhos, simulacros e duplos
remete a escritores como Henry James e Jorge Luis Borges, como sinaliza
o onipresente José Miguel Wisnik, encarregado do texto de
apresentação do livro. Aos que se identificam mais
com histórias do que com estruturas, porém, a liberdade
de José-Zsoze em lidar com seus devaneios guarda ecos de
Phillip Roth e Rubem Fonseca nos seus melhores momentos. A diferença
é que o personagem de Chico Buarque se revela voyeur de si
próprio e de seus delírios.
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