| Barbara
Heliodora |
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| A
senhora terrível |
Crítica
teatral mais importante e temida do País
completa 80 anos, carregando a mesma certeza
de não ser condescendente com peças ruins |
Ricardo
Miranda
Se fosse uma personagem, correria o risco de incorporar o arquétipo
da velha senhora se equilibrando numa cadeira de balanço,
óculos de grau na ponta do nariz, crochê nas mãos
e novela na televisão. Mas, na vida real, a carioca Barbara
Heliodora, 80 anos comemorados no dia 29 passado, é tudo,
exceto um clichê. Em boa forma, a memória afiada desfiando
o imenso conhecimento de sua maior paixão, o teatro –
junto com o bisneto Pedro, de um ano e cinco meses –, Bárbara
é como a obra de Shakespeare, da qual é a maior conhecedora
no País. Ou seja, quanto mais o tempo passa, melhor fica.
Arriscando-se na juventude em papéis como os de uma árvore
numa montagem de Chapeuzinho Vermelho, para depois descobrir
sua falta de vocação para o palco, passando pelos
estudos de literatura inglesa na Universidade de Connecticut, Estados
Unidos, e pela experiência de algumas direções,
nos últimos 45 anos Barbara Heliodora desempenha o papel
da crítica teatral mais respeitada e temida do País.
Seus textos, publicados nos principais jornais do Rio do Janeiro
e nos últimos 11 anos em O Globo, atingem amigos,
inimigos involuntários, mas nunca erra o alvo. Entre as cabeças
coroadas que acertou com sua sinceridade pesada estão a da
atriz Marília Pêra e dos diretores Ulysses Cruz e Gerald
Thomas, de quem recebeu uma chuva de impropérios verbais
e, logo depois, um pedido de perdão. Três vezes mãe,
quatro netos, um bisneto e dezenas de vasos de rosas e margaridas
espalhados pela varanda de seu casarão no magnífico
Beco do Boticário, no bairro
do Cosme Velho, a Barbara de 80 diz que é “a mesma
de 79”. Leia-se:
é capaz de elogiar Reynaldo Gianecchini em seu esforço
para ser ator
e desconstruir montagens patrocinadas por queridinhos da mídia,
como
Jô Soares e Eduardo Moscovis. Muito diferente de ler Barbara
Heliodora – que em média assiste a três peças
por semana – é ver Barbara Heliodora. É preciso
muita atenção para se convencer de que aquela senhora
afável é a mesma que consagra e crucifica espetáculos,
empala e entroniza artistas e gêneros teatrais. Na segunda-feira
1º, entre telefonemas de felicitações e carinhos
em seu cachorro bassê Toco –
“a pessoa mais importante da casa” –, Barbara,
a terrível, conversou
com ISTOÉ sobre a experiência fascinante, e angustiante,
de
conhecer profundamente uma arte.
ISTOÉ – Como é fazer 80 anos?
Barbara Heliodora – É sobreviver. A coisa
mais engraçada, principalmente para uma pessoa como eu, com
muita memória, é lembrar o quanto as coisas eram diferentes,
o que era o Rio de Janeiro quando eu era menina. A cidade ficou
mais caótica do que eu. Perto da minha casa, na rua Clarice
Índio do Brasil (Flamengo), havia um estábulo e vendiam
leite tirado das vacas. Verdureiras e peixeiros vendiam seus produtos
em casa e anotavam tudo em um caderno. Na praia de Botafogo, na
esquina da rua Marquês de Abrantes, tinha um teatrinho de
bonecos todo domingo de tarde. Uma pena essas coisas terem desaparecido.
As crianças eram crianças por mais tempo. Não
sou saudosista, mas qualquer um, de qualquer idade, sente que o
mundo vive uma crise de passagem. É um pouco angustiante,
fico preocupada com o mundo que meus netos e bisnetos herdarão.
Minhas filhas dizem que sou uma lista telefônica ambulante,
lembro de coisas que aconteceram há 50 anos,
em detalhes. Mas para o teatro desenvolvi memória seletiva.
Hoje em
dia anulo automaticamente as coisas muito ruins que vejo.
ISTOÉ – Se sua vida fosse encenada, o que
seria?
Barbara – Uma comédia meio sem graça.
ISTOÉ – Dizem que a sra. escreve tudo o que
pensa,
sem freios. É assim mesmo?
Barbara – É porque eles não sabem
o que eu penso. Na maioria das vezes é exatamente o que eu
penso, mas muitas coisas eu procuro dizer sem chegar ao delírio,
porque a minha vontade era dizer assim: “Mas isso é
uma estupidez, uma coisa horrorosa.” Algumas coisas me irritam,
aí eu paro e só escrevo no dia seguinte. Não
escrevo com raiva. Talvez eu faça um pouco menos de cerimônia.
Se uma pessoa faz uma coisa que está toda errada e você,
para ser bonzinho, diz que é ótimo, ela vai piorar
cada vez mais. O ideal seria se todos tivessem um amigo que dissesse:
“Isso está um horror, não está pronto,
está uma porcaria.” Há muita auto-indulgência.
É preciso que se diga a verdade, mas a minha verdade não
é de papa. Há vários críticos, cada
um tem a sua opinião.
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