| BRASIL |
20/08/2003
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| Memória |
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História
interrompida
Livro resgata a saga de Roberto
Silveira, governador do Rio, que morreu aos 37 anos |
Osmar
Freitas Jr. – Nova York
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Jango (à esq. e ao centro) no velório e o autor
José Sergio Rocha: “Um político à
frente de seu tempo” |
A história
do Brasil é recheada de tragédias pessoais que interferem
nos destinos nacionais, como as mortes de Getúlio Vargas, Juscelino
Kubitschek e Tancredo Neves. O recém-lançado livro Roberto
Silveira, a pedra e o fogo resgata outra saga interrompida pela
fatalidade. Em fevereiro de 1961, o helicóptero que levaria
o governador Roberto Silveira de Petrópolis para visitar vítimas
das chuvas explodiu ao levantar vôo, matando o último
grande líder político fluminense. Tinha 37 anos e era
secretário-geral do PTB nacional, uma das mais fortes opções
a João Goulart para disputar a sucessão de Jânio
Quadros. O livro é um fascinante desfile das raízes
políticas do velho Estado do Rio de Janeiro, antes da fusão
com a Guanabara.
Escrito pelo jornalista José Sergio Rocha, o livro foi
editado pela Casa Jorge Editorial, do ex-prefeito de Niterói
Jorge Roberto Silveira, filho do homem. A pesquisa minuciosa e o
texto quase épico conferem robustez às 518 páginas
da breve saga de Roberto Silveira, eleito governador em 1958 contra
o inabalável PSD de Amaral Peixoto, genro de Getúlio.
Em dois anos, projetou-se nacionalmente com ações
polêmicas: apoiou a revolta popular que destruiu a estação
das barcas, legalizou o jogo do bicho repassando verbas para ações
sociais de freiras e padres e conjugou reforma agrária com
alfabetização em massa.
Precursor dos marqueteiros num Estado marcado pelo formalismo
dos coronéis, foi um dos primeiros a usar pesquisas de opinião.
Para um eleitorado acostumado à arrogância dos barões
do café, era impossível não se deixar seduzir
pelas audácias do jovem petebista. Uma delas foi na cidade
de Cambuci, dominada pelo PSD. Depois de tentar em vão atrair
algum adulto para a campanha, Roberto comprou um pacote de balas
e se sentou na calçada com um menino. Logo estava cercado
de crianças, que o seguiram em passeata até a ponte
mais conhecida da cidade. O pessedista Getúlio de Moura,
que esperava colher a unanimidade dos eleitores do local para governador,
teve 2.934 votos. Graças ao empenho da garotada, Roberto,
que esperava zero, teve 2.363. O local ainda é conhecido
como a Ponte das Crianças.
A impaciência com o marechal Lott na campanha presidencial
de 1960 levou o elétrico governador do Rio a defini-lo como
“piano de cauda alemão”, difícil de carregar.
Mesmo assim, o Rio foi um dos poucos Estados onde Lott, apoiado
por ele, venceu Jânio. Num comício em Niterói,
Jânio se rendeu, declarando que Roberto seria seu sucessor
na Presidência. “Aliás, saindo desta bela praça
por ele reconstruída, irei visitá-lo em sua casa”,
arriscou o futuro presidente. Jânio então se mandou
para o Palácio do Ingá, onde Roberto o esperava com
uma garrafa de uísque. Os sobreviventes da noitada contam
que Jânio bebeu todas. “Quanto mais ele bebia, mais
lúcido ficava”, diria Roberto Silveira, que se despediu
de Jânio brincando: “Da próxima vez que você
vier aqui, vou lhe servir é cachaça. Não quero
meu governo falido.”
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