| MEDICINA
& BEM ESTAR
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06/08/2003
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| Psiquiatria
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Traídos
pelo desejo
Atrações da vida moderna fazem
surgir novas modalidades de compulsão. Entre as mais preocupantes,
estão a obsessão pela internet, compras, sexo virtual e exercícios
físicos |
Mônica
Tarantino e Juliane Zaché
Ansiedade, nervosismo, tensão. E uma vontade incontrolável
de saciar o desejo, sem medir consequências. É essa
a sensação que atormenta 34 milhões de brasileiros
(um terço da população acima de 18 anos) com
dificuldades de controlar os seus impulsos. Eles convivem com uma
doença chamada compulsão. “O compulsivo tem
uma necessidade de repetir a ação que escapa de seu
controle”, explica a psiquiatra Sueli Guimarães, da
Universidade de Brasília. Saciar desejos, para eles, é
a forma encontrada de aliviar angústias e ter mais prazer
de viver. O resultado é que o indivíduo começa
a dedicar cada vez mais tempo aos atos compulsivos e perde a noção
dos danos que a atitude causa à sua vida e à de quem
está por perto. Depois de algum tempo, a necessidade de se
entregar ao impulso volta.
E o ciclo recomeça.
Uma das compulsões mais conhecidas tem o sexo como objeto
do desejo. As atrações da vida moderna, porém,
têm feito surgir novas modalidades da doença. Os especialistas
estão preocupados com o aparecimento da compulsão
por compras, exercícios físicos, internet e sexo virtual.
Um shopping center e um cartão de crédito na mão,
por exemplo, formam uma combinação explosiva para
um comprador compulsivo. “O impulso de torrar até o
último centavo é estimulado pelas facilidades oferecidas
por cartões de crédito, financiamentos e empréstimos”,
explica a psiquiatra Daniela Lobo, do Hospital das Clínicas
de São Paulo (HC/SP). A malhação desenfreada,
por sua vez, encontra campo fértil para se desenvolver muito
em parte por causa da cultura da boa forma, comum nos dias atuais.
Este tipo de compulsão atinge principalmente pessoas insatisfeitas
com a sua aparência. Em geral, elas têm pavor de ganhar
um grama que seja e se sentem na obrigação de malhar
pelo menos duas a três horas por dia. “A maioria tem
visão distorcida da imagem corporal e tendência a sofrer
de problemas como a anorexia, distúrbio alimentar caracterizado
pela resistência em comer”, diz a psicóloga Mônica
Di Pietro, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
A internet também criou condições para uma
variedade recente de compulsão. No mundo todo, médicos
deparam com o crescimento do número de pessoas que navegam
pela rede virtual horas a fio. É um modo de ficar na internet
diferente de quem acessa a rede por algumas horas ou precisa, eventualmente,
virar a noite no computador para concluir um trabalho. Os dependentes
não conseguem desligar o aparelho para cumprir compromissos
ou mesmo procurar outras formas de distração. Essa
situação é o retrato do que aconteceu com o
analista de sistemas José Ricardo*, 34 anos. Ele é
um típico internauta compulsivo. Tudo começou há
quatro anos, quando Ricardo usava a internet para vender equipamentos
de informática e consertar computadores de clientes. Aos
poucos, ficou seduzido pelo meio. Há dois anos, na fase mais
crítica, pagava contas de telefone astronômicas por
causa da quantidade de horas na rede. “Chegava em casa cansado,
mas não jantava nem tomava banho. Ia direto para o computador.
Minha esposa dormia sozinha”, diz Ricardo. De tanto a mulher
reclamar, ele decidiu viver sem telefone em casa para não
se conectar mais. “Enquanto eu não aprender a me controlar,
vai ter de ser assim”, diz.
Muita gente que se perde diante do computador tem chances de associar
mais de uma modalidade compulsiva. A rede virtual abriga desde pessoas
que migram de site em site até as que usam o equipamento
como trampolim para o desejo de jogar, comprar ou fazer sexo virtual,
por exemplo. Na verdade, a relação entre as compulsões
e a internet é um novo campo de estudo, especialmente no
que diz respeito ao sexo. “O cibersexo cria um espaço
inédito para os indivíduos explorarem anonimamente
fantasias e papéis sexuais diferentes, muitas vezes guardados
em segredo”, explica o psiquiatra Aderbal Vieira Júnior,
do Ambulatório de Sexo Patológico da Unifesp. Esse
é o segredo e o tormento da vida da nutricionista Rafaela*,
de Santa Catarina, 31 anos, que substituiu o consumo de drogas (cocaína
e ecstasy) pelo sexo virtual. “Entro em transe, como se estivesse
tomando uma droga. Meu namorado sabe que há algo errado porque
evito sexo com ele, mas não tenho coragem de contar”,
diz.
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