Receita
para crescer
Governo anuncia uma série de
medidas para reaquecer
a economia: crédito, obras públicas e menos juros |
Leonel
Rocha e Luiz Cláudio Cunha
Colaborou Célia Chaim (SP)
| |
 |
| |
Mantega prepara o Orçamento da União para 2004: investimentos
e custeio de R$ 409 bi |
O governo Lula já sabe que ingredientes usar para tentar
tirar o País da recessão e fazer a economia voltar
a crescer ainda em 2003. O objetivo é religar os motores
do transatlântico de bandeira verde-e-amarela que passou os
últimos seis meses navegando lentamente nas águas
turvas da recessão, da baixa arrecadação de
impostos, do desemprego, da tensão social e da desaceleração
industrial provocada pela queda nas vendas do comércio. São
medidas de curto, médio e longo prazos a serem anunciadas
ainda este mês pelos ministros da área econômica
na esperança de retomar o crescimento. O sinal positivo para
que as medidas sejam adotadas e reaqueçam a economia será
dado pelo Congresso nas votações das reformas previdenciária
e tributária previstas para as próximas semanas.
A aposta do governo é na aprovação das emendas
que mudam as aposentadorias do setor público e o sistema
de arrecadação de impostos – o que dará
uma folga fiscal ao Tesouro. Se vencer no Parlamento, o Planalto
vai aguardar outra boa notícia do Conselho de Política
Monetária (Copom), que na quinta-feira 31 divulgou a ata
da última reunião quando reduziu os juros em 1,5%.
No documento, o Copom garante que o corte na taxa Selic não
irá comprometer as conquistas do combate à inflação
e indica que a queda dos juros é irreversível. Na
ata, o BC faz uma rara aposta no futuro: “O Copom permanece
atento à evolução do nível de atividade
e avalia que o quadro de desaceleração recente tende
a ser revertido a partir do segundo semestre deste ano.” Do
Conselho Monetário Nacional (CMN) o governo espera a redução
nos depósitos compulsórios dos bancos, na esperança
de crescimento do crédito. Outro ingrediente para fazer o
navio Brasil zarpar é a retomada dos financiamentos engavetados
pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social
(BNDES). O primeiro da fila será a encomenda de quatro petroleiros
para a Petrobras, no valor de US$ 228 milhões, com recursos
do Fundo de Marinha Mercante. A construção dos navios
vai gerar ainda este ano dois mil empregos diretos e outros dez
mil indiretos.
Projetos como este fazem parte do Plano Plurianual (PPA), o pacote
de grandes obras de infra-estrutura e transportes já definido
pelo governo para os próximos cinco anos, e que servirá
de norte para o planejamento de investimentos de longo prazo das
empresas. Um deles é a construção, por estaleiros
nacionais, de outros 20 navios petroleiros, além da duplicação
da BR-101 no Nordeste, da recuperação e ampliação
de portos e da implantação de ferrovias e hidrelétricas.
“Com isto daremos início ao projeto de desenvolvimento”,
anunciou na semana passada o ministro do Planejamento, Guido Mantega.
Junto com o PPA, o Palácio do Planalto vai enviar nos próximos
dias ao Parlamento a proposta de Orçamento da União
que prevê custeio e investimentos de R$ 409 bilhões,
4,5% maior que a deste ano.
A receita básica de curto prazo definida pelo governo –
reduzir juros, cortar compulsório e liberar os financiamentos
engavetados pelo BNDES – é a mesma recomendada pelos
empresários e até pelo Fundo Monetário Internacional,
cujos representantes estiveram em Brasília na semana passada
elogiando a capacidade do governo Lula de cortar despesas. Só
o fato de o governo ter definido esta estratégia de curto
prazo para a política monetária está levando
os bancos a reduzir as taxas reais de juros cobradas no cheque especial
e no financiamento às compras do consumidor, além
de encher de esperanças os dirigentes de entidades empresariais.
É o que está acontecendo entre os comerciantes.
O arrocho dos juros provocou uma queda de 9,89% no faturamento
real de bens de consumo duráveis (eletroeletrônicos,
eletrodomésticos e automóveis, por exemplo ) entre
janeiro e maio deste ano. Mesmo assim, com a provável redução
da taxa de juros na próxima reunião do Copom, o último
trimestre pode mostrar a retomada das vendas do comércio.
“A recuperação econômica geral vai demorar
um pouco mais e ocorrerá de forma mais sustentável
em 2004. Mas no varejo o reaquecimento ocorrerá ainda este
ano”, prevê o economista Carlos Thadeu de Freitas, diretor
da Confederação Nacional do Comércio (CNC).
 |
|
Lula
com os líderes da base governista (à esq.) e o
ministro
José Dirceu: governo acredita que o transatlântico da economia
brasileira começa a zarpar
|
|