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  INTERNACIONAL 23/07/2003
EUA

Trippett  
1991 Apesar de ser casado com uma Kennedy, o republicano de carteirinha apoiou George Bush, pai  

Estranho no ninho – Mas qual será o Schwarzenegger que os californianos vão eleger? O clima de campanha política já está a pleno vapor, com vários grupos de interesses pintando o personagem central com as tintas que mais lhes convêm. É o esperado. Afinal, quando falou pela primeira vez em se lançar na aventura política, em 2001, Arnold imediatamente recebeu chumbo grosso dos marketeiros democratas, ligados ao então candidato Gray Davis. Fizeram circular pelas redações histórias de infidelidade conjugal e uso de esteróides pelo campeão dos músculos. Foram até pouco criativos, visto que no documentário Pumping iron, estrelado por Schwarzenegger em 1977, quando era apenas o Mr. Olympia, dono do título de “Corpo mais perfeito do mundo”, o mocinho confessou que havia fumado – e tragado – maconha. Anos depois, em 1983, o machão aparece no Rio, como anfitrião do documentário Carnival in Rio, em que mostra o Carnaval carioca. Rasga a fantasia em meio à mulherada pelada – numa delas tenta embutir uma cenoura entre as nádegas fartas. O filme ainda está à venda nas boas casas do ramo e forneceria vasto material à oposição da chapa do Exterminador.

Leandro Pimentel  
2001 De volta para o futuro, Schwarzenegger e a mulher, Shriver, no Sambódromo, ao lado do transexual Roberta Close  

Nas trincheiras conservadoras também não existe amor incondicional a este homem que optou pelo Partido Republicano ao ouvir um discurso de candidatura de Richard Nixon nos anos 70. “Eu fui criado sob o regime socialista da Áustria. Lá, as decisões eram sempre feitas pelo governo e impostas ao povo. Gostei de ouvir os republicanos pregando a menor participação do governo na vida das pessoas. Deixe que o povo decida o que quer”, diz Arnold. Desde que pisou nos EUA, ele vem apoiando presidentes republicanos, especialmente Ronald Reagan, seu herói, e George Bush, pai. Acontece que estas não são credenciais suficientes para a direita do partido. Schwarzenegger abraça causas que são anátemas da linha-dura: é a favor do direito constitucional ao aborto, do controle de vendas de armas (imagine! um cara que já matou 400 pessoas em seus filmes), e da causa dos imigrantes. Explica-se: 1) Como diretor de uma fundação dedicada à infância desamparada, Arnold sabe muito bem o que a proibição ao aborto iria gerar no país: mais crianças vivendo em condições subumanas. 2) Com os músculos que ele tem – com os quais já nocauteou um camelo no filme Conan –, quem precisa andar armado? 3) Quem nasceu na Áustria, foi ser pedreiro na América e se tornou milionário com ingressos de cinema comprados por minorias étnicas não pode mesmo ser contra os imigrantes. O problema dos reaças californianos é que eles vêm tomando surra dos democratas há anos. Sua maior esperança em exterminar com a máquina eleitoral democrata é o cyborg Arnold.

A Casa Branca, num de seus típicos lances individualistas, quis desencorajar o movimento para o recall do governador Davis. “Os
gurus de Washington queriam que o circo pegasse fogo ainda sob o comando democrata. Desejavam uma revolta popular californiana que fosse enfrentada por Davis, culminando com uma enxurrada de votos
para George W. Bush nas eleições presidenciais de 2004”, disse a
ISTOÉ Monica Getz, a porta-voz do deputado Darrell Issa. Além disso,
a Conselheira de Segurança Nacional, Condoleezza Rice, havia manifestado interesse em concorrer ao cargo nas eleições de 2006 –
ela é de Birmingham, no Alabama, mas fez a Universidade de Stanford,
na Califórnia. “O problema com tudo isso é que o recall vai tornar vago
o posto, e se Arnold não sair candidato esta será uma oportunidade perdida. Tanto para o Partido Republicano, principalmente se forem enfrentar a senadora democrata Dianne Feinstein, uma campeã de
votos, quanto para Arnold, que não sabe o que pode acontecer no futuro”, diz o consultor de comunicações do Partido Republicano na Califórnia, Rob Stutzman.

Emenda a calhar – O cenário parece montado de modo espetacular para a premier de Schwarzenneger em Sacramento. E quem sabe, no futuro, a Presidência do país também lhe caia de bandeja. Atualmente, a Constituição americana só permite a candidatura ao Executivo àqueles americanos nascidos no país. Mas ISTOÉ descobriu que há uma semana, o senador Orrin Hatch, republicano de Utah, está trabalhando na moita para apresentar uma emenda constitucional que permitiria a candidatura à Presidência aos que obtiveram a cidadania americana há pelo menos 20 anos. Arnold Schwarzenegger se naturalizou em 1983. Outra coincidência: Orrin Hatch, apesar de conservador ferrenho, é o melhor amigo do ultraliberal Ted Kennedy, irmão de Eunice Kennedy Shriver. Esta vem a ser mãe de Maria Shriver, a esposa de Arnold. Ou seja: está tudo em família. A jornalista Maria Shriver, sobrinha de John e Bob, pode ganhar novamente a Casa Branca para a família, usando como arrombador da porta o republicano Arnold.

Impossível? Era o que diziam quando um ator bem menos carismático – seu filme mais lembrado é Bedtime for Bonzo, em que a estrela principal é um macaco – também rumou à Presidência. Ronald Reagan, a quem Arnold está sendo comparado, deixou o cinema em 1964 para chegar ao governo da Califórnia em 1966 e, após duas tentativas, ganhar a indicação de seu partido à Presidência e só sair do Salão Oval depois de dois mandatos. Schwarzenegger, pondere-se, pelo menos fez filmes mais divertidos. E tem peitorais, bíceps e nádegas muito melhor esculpidos. O austríaco só tem um músculo que não funciona direito. Não é o que se poderia pensar: aquilo não é músculo. Arnold é cardíaco.

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