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  INTERNACIONAL 23/07/2003
EUA

O governador do futuro?
Arnold Schwarzenegger quer repetir, na Califórnia,
a façanha de outro ator, Ronald Reagan

Osmar Freitas Jr. – Nova York

Eric Gaillard/Reuters  

Califórnia é um Estado de fenômenos impossíveis. Por exemplo: a partir de outubro próximo pode ser empossado no palácio do governo, em Sacramento, pela primeira vez na história, um governador com peitos maiores do que os da primeira-dama. A se acreditar na enxurrada de páginas da imprensa americana dedicada ao assunto ultimamente, o ator, ex-Mister Universo e ex-Mister Olympia Arnold Schwarzenegger será o próximo mandatário estadual. Só mesmo na Califórnia um austríaco patola, que chegou no pedaço sem falar uma única palavra em inglês (e continua com um sotaque horroroso), pode se transformar num campeão de bilheterias, ganhar montanhas e vales de dinheiro, e
ser eleito, aos 55 anos, para o cargo mais alto do executivo local.
O território – ultraliberal, lembram alguns – é domínio do Partido Democrata e Schwarzenegger é republicano de carteirinha. E daí?
O homem, apesar dessas convicções, casou com uma donzela do clã Kennedy, o maior bastião democrata americano. E quem poderia
impedi-lo? Quem vai encarar?

AP  
Altura: 1,88m |Peso: 105 kg
Bíceps: 56 cm | Busto: 144 cm
Cintura: 87 cm| Coxas: 73 cm
 
1977 O filme O homem dos
músculos
de aço consolidou
Schwarzenegger, ex-mister
Olympia, como ator-atleta
 

O candidato, se eleito, terá de usar todos seus bíceps, tríceps, oblíquos, trapézio, panturrilhas, supino reto e fossa ilíaca na tarefa hercúlea de levantar o déficit orçamentário local, que já chega a US$ 36 bilhões. Mesmo assim, “Arrrrnold” – como é chamado pelos fãs – parece querer mesmo comprar a briga. A ISTOÉ ele disse, na semana passada: “Estou estudando com muito cuidado a situação. Os políticos parecem ter esgotado seus caminhos. Existem momentos em que alguém de
fora tem de entrar e assumir o controle. Acho que este momento chegou para
a Califórnia.”

Impeachment – A campanha eleitoral deve atrasar ainda mais os tours de promoção de seu último trabalho. Mas será um lapso relativamente curto, visto que a corrida rumo à capital Sacramento deve terminar em outubro, caso tudo dê certo para o herói. Deve também dar tudo errado para o atual ocupante do cargo, o governador democrata Gray Davis, que normalmente ficaria onde está até 2006.

Rogério Carneiro  
1983 Em Carnival in Rio, o ator, desinibido, rasga a fantasia em meio ao festival de bumbuns da folia carioca  

O que acontece atualmente é mais uma fantasia que os californianos, mestres nesta área, transformaram em realidade. Um deputado estadual republicano, Darrell Issa, lançou há seis meses uma campanha para um “recall” (“rechamada” eleitoral, uma espécie de impeachment) do governador. Alega má-fé, fraude e incompetência administrativa. Trata-se de uma manobra legalmente possível e que já foi tentada por 31 vezes em outras épocas, mas com a qual nenhum incumbente foi retirado do posto. Para a jogada dar certo, era preciso que a turma do recall conseguisse 900 mil assinaturas de eleitores do Estado pedindo a efetivação da medida. Vencida essa etapa, acontecerá um plebiscito em setembro, no qual se aprova ou não o recall. Por fim, candidatos vários competem numa nova eleição.

O próprio Issa, que é o único candidato já declarado, não teria nenhuma chance de conseguir o recall, não fosse a extrema impopularidade do atual governador, com apenas 27% de aprovação entre eleitores, e a ajuda de gente barra-pesada. Arnold andou emprestando seus músculos para a campanha, enquanto promovia seu “Terminator 3”. E pegou gosto pela coisa, tanto que Issa é uma espécie de azarão nas apostas. O movimento, financiado a princípio por US$ 500 mil do bolso do deputado, recebeu ajuda bem mais substancial dos cofres republicanos do Estado e de contribuições privadas. No dia 15 de julho, já se tinha conseguido 1,6 milhão de jamegões, o que selava a sorte do governador Gray Davis. Era necessário uma última assinatura: a do juiz que decidirá a questão. Antes mesmo da retirada do governador, a imprensa americana já havia eleito Schwarzenegger governador. Por exemplo, a capa da revista mensal Esquire titulou: “O próximo governador da Califórnia, realmente.” A publicação escalou dois repórteres para perfilar o ator. O primeiro, uma mulher, revelou um bobalhão egocêntrico, que se julga artista plástico por pintar golfinhos em caixas de charuto e projetar relógios que, apesar de caríssimos, não funcionam. Um pretensioso que ousa dar conselhos sobre design para os projetistas da General Motors. Um entrevistado que não fecha a matraca em autopromoção, impedindo qualquer pergunta. No outro segmento, Esquire publica a análise de um repórter, homem, na qual Arnold aparece como estadista. Em reunião do conselho diretor de sua entidade benemerente na filial de Detroit – a National Inner-City Games Foundation –, o astro expõe seus músculos cerebrais, aconselhando sabiamente, pedindo maior empenho, dando soluções para os problemas da juventude desamparada. Exige, por exemplo, que, além dos esportes – que formam a engrenagem-mestra do programa de atividades pós-escola, da fundação dedicada a crianças dos guetos pobres –, também seja incluído o auxílio educacional aos que estão atrasados nas aulas normais. O “Exterminador”, o “Bárbaro Conan” quer que seus funcionários sirvam de tutores para quem tira nota baixa em matemática e contribui, junto com outros doadores e recursos públicos, para dar mais opções a crianças que, do contrário, só têm a rua e seus perigos. “É preciso ter uma visão, uma visão como a que John Kennedy trouxe para os americanos”, diz. Este é um Arnold líder cívico.

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