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ISTOÉ – O que é traição
e o que é fantasia na internet?
Maria Helena – Para os que acreditam ter encontrado
o verdadeiro amor navegando na internet, é importante lembrar
que um beijo virtual será sempre diferente de um beijo real,
que movimenta dezenas de músculos e é considerado
um termômetro da paixão. Essas escapadas podem ser
interpretadas como traição ou como uma masturbação
sem consequências, dependendo da conversa registrada pelos
e-mails, da fase em que está o casamento ou até da
maneira como o casal lida com as fantasias. Esse tipo de traição
só deve ser considerado nocivo quando é confundido
com a realidade, vira obsessão ou prejudica alguém.
ISTOÉ – Ao mesmo tempo que as pessoas ainda
desfrutam do efêmero “ficar” – a relação
relâmpago que teve seu auge nos anos 90 –, a sra. afirma
que os homens e mulheres desejam cada vez mais as relações
duradouras. Como chegou a essa conclusão e o que explicaria
essa mudança?
Maria Helena – Os especialistas acham que –
sem estatísticas ou pesquisas, mas por dedução
– existe uma tendência apontando para relações
mais duradouras. Não deixo de levar em conta a moda do
ficar, mas acredito que essa é uma das armadilhas montadas
pela revolução sexual. Os jovens se encontram, vão
direto aos finalmentes
e queimam todas as etapas. Com isso não aprendem a namorar.
Essa febre de relações carnais implicou atitudes de
fuga, de não se envolver, não começar nada,
de dar valor ao passageiro. No entanto, o sexo recreativo ignora
o fato de que o ato de amor pressupõe carinho e confiança,
o que leva tempo para se criar. Certamente mais do que
uma noite. Mas, apesar de todas as dificuldades, muitos ainda desejam
a sensação de criar raízes e de pertencer a
alguém, o que só uma relação comprometida
pode dar.
ISTOÉ – Esse movimento detectado pela sra.
não iria na contramão de uma sociedade cada vez mais
descartável, de pessoas autocentradas que só visam
ao seu próprio bem estar?
Maria Helena – Alguns são extremamente egoístas
e individualistas. Depois de terem se machucado uma vez, não
conseguem confiar novamente, muito menos se entregarem. De fato,
dá medo se envolver com alguém. Por isso muitos colocam
o coração dentro de uma caixa-preta e lacram. Sentem
medo de amar e pensam “é melhor dar pouco para perder
pouco”. Isso cria um vazio e onde há esse vazio há
dor emocional e existencial. Com medo, sem medo ou apesar do medo,
o melhor mesmo é tentar. Apesar de tudo, as pessoas querem
sair da fase do sexo acelerado, casual, para mergulhar no velho
e conhecido amor.
ISTOÉ – O que a sra. tem a dizer sobre os
jovens que ao
final das festas ou de uma balada fazem a competição
de
quem beijou mais?
Maria Helena – Acho que isso é muito comum
nessa época da vida, na juventude. Nessa fase eles estão
experimentando. Junto disso vem a competição, ficam
se vigiando mutuamente. Enquanto os homens medem sua virilidade
pelo número de beijos que roubaram, as mulheres se preocupam
com sua reputação, com o que os outros vão
falar. Muitas se freiam, se policiam. Os homens estão na
fase do quanto mais melhor, pensam em quantidade, não em
qualidade. E também não pensam no day after. Mais
provável é que com o processo de amadurecimento sexual
e emocional esse tipo de atitude seja superada.
ISTOÉ – Alguns dizem que as mulheres (jovens)
fogem mais das relações duradouras do que os homens.
Isso estaria acontecendo?
Maria Helena – Eu discordo. Podem estar todos numa
fase de matar a curiosidade, tanto os meninos quanto as meninas.
As mulheres amadurecem mais rápido do que os homens. Para
elas, a concretização do sonho, da fantasia sexual
primária é encontrar o parceiro, formar o vínculo
amoroso. Pela minha experiência, a mulher quer o vínculo.
Por outro lado, na medida em que os homens dissociam sexo do amor,
algumas mulheres começam a copiar esse comportamento. Elas
fazem uma troca de papéis e não querem nada além
daquela balada. Mas não diria que é possível
generalizar.
ISTOÉ – Fugir de relações duradouras
é uma forma de esconder a própria insegurança?
Sempre foi assim?
Maria Helena – Acho que sempre foi assim, porque,
na medida em que
se vence a insegurança, adquire-se confiança. Só
então se é capaz
de amar. Antigamente as mulheres eram totalmente passivas, mantidas
em um estado de infantilização sexual. Não
era para elas crescerem.
Não havia fuga das relações duradouras porque
as mulheres estavam predestinadas a serem esposas e mães.
Agora é exatamente o inverso: há um amadurecimento
sexual precoce, principalmente por parte das meninas, das quais
se espera que sejam sexy pelo menos dos cinco
aos 55 anos. Isso é um desrespeito ao processo normal de
crescimento, como se queimassem etapas. E a influência da
mídia nesse aspecto
é forte. Por outro lado, com a revolução sexual
as mulheres ficaram
mais donas de si, correm mais riscos e se tornam capazes de fazer
escolhas livres e conscientes.
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