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 ENTREVISTA
25/06/2003

ISTOÉ – O que é traição e o que é fantasia na internet?
Maria Helena –
Para os que acreditam ter encontrado o verdadeiro amor navegando na internet, é importante lembrar que um beijo virtual será sempre diferente de um beijo real, que movimenta dezenas de músculos e é considerado um termômetro da paixão. Essas escapadas podem ser interpretadas como traição ou como uma masturbação sem consequências, dependendo da conversa registrada pelos e-mails, da fase em que está o casamento ou até da maneira como o casal lida com as fantasias. Esse tipo de traição só deve ser considerado nocivo quando é confundido com a realidade, vira obsessão ou prejudica alguém.

ISTOÉ – Ao mesmo tempo que as pessoas ainda desfrutam do efêmero “ficar” – a relação relâmpago que teve seu auge nos anos 90 –, a sra. afirma que os homens e mulheres desejam cada vez mais as relações duradouras. Como chegou a essa conclusão e o que explicaria essa mudança?
Maria Helena –
Os especialistas acham que – sem estatísticas ou pesquisas, mas por dedução – existe uma tendência apontando para relações mais duradouras. Não deixo de levar em conta a moda do
ficar, mas acredito que essa é uma das armadilhas montadas pela revolução sexual. Os jovens se encontram, vão direto aos finalmentes
e queimam todas as etapas. Com isso não aprendem a namorar. Essa febre de relações carnais implicou atitudes de fuga, de não se envolver, não começar nada, de dar valor ao passageiro. No entanto, o sexo recreativo ignora o fato de que o ato de amor pressupõe carinho e confiança, o que leva tempo para se criar. Certamente mais do que
uma noite. Mas, apesar de todas as dificuldades, muitos ainda desejam
a sensação de criar raízes e de pertencer a alguém, o que só uma relação comprometida pode dar.

ISTOÉ – Esse movimento detectado pela sra. não iria na contramão de uma sociedade cada vez mais descartável, de pessoas autocentradas que só visam ao seu próprio bem estar?
Maria Helena –
Alguns são extremamente egoístas e individualistas. Depois de terem se machucado uma vez, não conseguem confiar novamente, muito menos se entregarem. De fato, dá medo se envolver com alguém. Por isso muitos colocam o coração dentro de uma caixa-preta e lacram. Sentem medo de amar e pensam “é melhor dar pouco para perder pouco”. Isso cria um vazio e onde há esse vazio há dor emocional e existencial. Com medo, sem medo ou apesar do medo, o melhor mesmo é tentar. Apesar de tudo, as pessoas querem sair da fase do sexo acelerado, casual, para mergulhar no velho e conhecido amor.

ISTOÉ – O que a sra. tem a dizer sobre os jovens que ao
final das festas ou de uma balada fazem a competição de
quem beijou mais?
Maria Helena –
Acho que isso é muito comum nessa época da vida, na juventude. Nessa fase eles estão experimentando. Junto disso vem a competição, ficam se vigiando mutuamente. Enquanto os homens medem sua virilidade pelo número de beijos que roubaram, as mulheres se preocupam com sua reputação, com o que os outros vão falar. Muitas se freiam, se policiam. Os homens estão na fase do quanto mais melhor, pensam em quantidade, não em qualidade. E também não pensam no day after. Mais provável é que com o processo de amadurecimento sexual e emocional esse tipo de atitude seja superada.

ISTOÉ – Alguns dizem que as mulheres (jovens) fogem mais das relações duradouras do que os homens. Isso estaria acontecendo?
Maria Helena –
Eu discordo. Podem estar todos numa fase de matar a curiosidade, tanto os meninos quanto as meninas. As mulheres amadurecem mais rápido do que os homens. Para elas, a concretização do sonho, da fantasia sexual primária é encontrar o parceiro, formar o vínculo amoroso. Pela minha experiência, a mulher quer o vínculo. Por outro lado, na medida em que os homens dissociam sexo do amor, algumas mulheres começam a copiar esse comportamento. Elas fazem uma troca de papéis e não querem nada além daquela balada. Mas não diria que é possível generalizar.

ISTOÉ – Fugir de relações duradouras é uma forma de esconder a própria insegurança? Sempre foi assim?
Maria Helena –
Acho que sempre foi assim, porque, na medida em que
se vence a insegurança, adquire-se confiança. Só então se é capaz
de amar. Antigamente as mulheres eram totalmente passivas, mantidas em um estado de infantilização sexual. Não era para elas crescerem.
Não havia fuga das relações duradouras porque as mulheres estavam predestinadas a serem esposas e mães. Agora é exatamente o inverso: há um amadurecimento sexual precoce, principalmente por parte das meninas, das quais se espera que sejam sexy pelo menos dos cinco
aos 55 anos. Isso é um desrespeito ao processo normal de crescimento, como se queimassem etapas. E a influência da mídia nesse aspecto
é forte. Por outro lado, com a revolução sexual as mulheres ficaram
mais donas de si, correm mais riscos e se tornam capazes de fazer escolhas livres e conscientes.

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