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  INTERNACIONAL 28/05/2003
Argentina

A soberba armada
Governo indulta líder “carapintada” e chefe guerrilheiro, criminosos com sinais trocados

Cláudio Camargo

Ricardo Abad/AP  -  Juan Pablo Maldovan/AP  
O coronel Mohammed Ali Seineldín (à esq.) e o ex-líder guerrilheiro Gorriarán Merlo, fascinados pela ação militarista
 

Na aparência, nada mais díspar do que esses dois personagens: Mohammed Ali Seineldín e Enrique Haroldo Gorriarán Merlo. O primeiro, ex-coronel do Exército argentino, de ascendência drusa e família muçulmana, converteu-se ao catolicismo e, à maneira dos cristãos-novos, tornou-se um rematado fundamentalista, recoberto ainda com o manto do anticomunismo e do nacionalismo messiânicos. Combatente da guerra das Malvinas (1982), ele se tornou o principal líder dos oficiais “carapintadas” que se rebelaram, no governo Raúl Alfonsín (1983-1989), contra os processos a militares acusados de violação dos direitos humanos durante a ditadura. Em 1990, depois da última rebelião, Seineldín foi condenado à prisão perpétua. Já Gorriarán, um dos cérebros militares do Exército Revolucionário do Povo (ERP, guerrilha trotskista), transformou-se numa espécie de “Rambo da esquerda”. Depois de lutar ao lado dos guerrilheiros sandinistas na Nicarágua, participou em 1980, no Paraguai, do espetacular assassinato do ex-ditador nicaraguense Anastasio Somoza. Em 1989, ele liderou uma ensandecida tentativa de tomar o quartel La Tablada, argumentando que a ação evitaria um golpe preparado pelos “carapintadas”. Quase todos os seus companheiros morreram no ataque. Também pegou prisão perpétua. Na terça-feira 20, o presidente Eduardo Duhalde, em nome da “pacificação definitiva” do país, assinou um decreto concedendo indulto aos dois. “Eles cometeram atos criminosos por ideais”, alegou o presidente.

Cada qual com seus ideais, soldados e bandeiras, Seineldín e Gorriarán participaram ativamente dos dramáticos eventos da década de 80, que marcaram o primeiro governo democrático depois da ditadura militar (1976-1983). O episódio de La Tablada marcou o confronto dessas duas ideologias radicalmente contrapostas, mas filosoficamente unidas pelo denominador comum do fascínio das armas e pela soberba militarista, traduzidas em total desrespeito às regras do jogo democrático. Talvez por isso mesmo, o ataque relevou a assombrosa miopia política dos participantes do drama. Marcou o ocaso do Movimento Todos por la Pátria (MTP), uma organização reformista ligada a movimentos sociais que acabou seduzida pelo chamado das armas, e ricocheteou nos “carapintadas”, que até então tinham conseguido colocar o governo democrático contra a parede. Mas, para o establishment militar argentino, o ataque foi uma dádiva, já que estava acossado, de um lado, pelas instituições republicanas, que levavam oficiais aos banco dos réus; e, de outro, pelos “carapintadas”, que se rebelavam contra os julgamentos. A ameaça da guerrilha ressurgida fez com que a retórica da unidade castrense falasse mais alto.

A questão agora é saber se o indulto de Duhalde – um de seus últimos atos como presidente, que teve a oposição do sucessor, Néstor Kirchner – contribuirá para a “pacificação” ou, ao contrário, porá ainda mais lenha na fogueira da instabilidade institucional argentina. É bom lembrar que, quando o então presidente Carlos Menem indultou os comandantes militares da ditadura e o líder da guerrilha montonera, Mario Fiermenich, em 1990, ele foi duramente criticado por entidades de direitos humanos. Os comandantes, quase todos, já voltaram para o xilindró, mercê de outros processos de violações de direitos humanos, mas Fiermenich continua solto. “É lamentável, porque, num país que quer recuperar o sentido da justiça, seria melhor que os argentinos sentissem que o peso da lei recai sobre quem a infringe, e quem quebra as normas deve pagar as consequências”, declarou o futuro chefe de gabinete de Kirchner, Alberto Fernández. Nunca é demais lembrar que a ilusão militarista – à esquerda e à direita – foi uma das maiores tragédias da Argentina nos últimos 70 anos.

 
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