A
soberba armada
Governo indulta líder “carapintada”
e chefe guerrilheiro, criminosos com sinais trocados |
Cláudio Camargo
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O
coronel Mohammed Ali Seineldín (à esq.) e o ex-líder guerrilheiro
Gorriarán Merlo, fascinados pela ação militarista |
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Na aparência, nada mais díspar do que esses dois personagens:
Mohammed Ali Seineldín e Enrique Haroldo Gorriarán
Merlo. O primeiro, ex-coronel do Exército argentino, de ascendência
drusa e família muçulmana, converteu-se ao catolicismo
e, à maneira dos cristãos-novos, tornou-se um rematado
fundamentalista, recoberto ainda com o manto do anticomunismo e
do nacionalismo messiânicos. Combatente da guerra das Malvinas
(1982), ele se tornou o principal líder dos oficiais “carapintadas”
que se rebelaram, no governo Raúl Alfonsín (1983-1989),
contra os processos a militares acusados de violação
dos direitos humanos durante a ditadura. Em 1990, depois da última
rebelião, Seineldín foi condenado à prisão
perpétua. Já Gorriarán, um dos cérebros
militares do Exército Revolucionário do Povo (ERP,
guerrilha trotskista), transformou-se numa espécie de “Rambo
da esquerda”. Depois de lutar ao lado dos guerrilheiros sandinistas
na Nicarágua, participou em 1980, no Paraguai, do espetacular
assassinato do ex-ditador nicaraguense Anastasio Somoza. Em 1989,
ele liderou uma ensandecida tentativa de tomar o quartel La Tablada,
argumentando que a ação evitaria um golpe preparado
pelos “carapintadas”. Quase todos os seus companheiros
morreram no ataque. Também pegou prisão perpétua.
Na terça-feira 20, o presidente Eduardo Duhalde, em nome
da “pacificação definitiva” do país,
assinou um decreto concedendo indulto aos dois. “Eles cometeram
atos criminosos por ideais”, alegou o presidente.
Cada qual com seus ideais, soldados e bandeiras, Seineldín
e Gorriarán participaram ativamente dos dramáticos
eventos da década de 80, que marcaram o primeiro governo
democrático depois da ditadura militar (1976-1983). O episódio
de La Tablada marcou o confronto dessas duas ideologias radicalmente
contrapostas, mas filosoficamente unidas pelo denominador comum
do fascínio das armas e pela soberba militarista, traduzidas
em total desrespeito às regras do jogo democrático.
Talvez por isso mesmo, o ataque relevou a assombrosa miopia política
dos participantes do drama. Marcou o ocaso do Movimento Todos por
la Pátria (MTP), uma organização reformista
ligada a movimentos sociais que acabou seduzida pelo chamado das
armas, e ricocheteou nos “carapintadas”, que até
então tinham conseguido colocar o governo democrático
contra a parede. Mas, para o establishment militar argentino, o
ataque foi uma dádiva, já que estava acossado, de
um lado, pelas instituições republicanas, que levavam
oficiais aos banco dos réus; e, de outro, pelos “carapintadas”,
que se rebelavam contra os julgamentos. A ameaça da guerrilha
ressurgida fez com que a retórica da unidade castrense falasse
mais alto.
A questão agora é saber se o indulto de Duhalde
– um de seus últimos atos como presidente, que teve
a oposição do sucessor, Néstor Kirchner –
contribuirá para a “pacificação”
ou, ao contrário, porá ainda mais lenha na fogueira
da instabilidade institucional argentina. É bom lembrar que,
quando o então presidente Carlos Menem indultou os comandantes
militares da ditadura e o líder da guerrilha montonera, Mario
Fiermenich, em 1990, ele foi duramente criticado por entidades de
direitos humanos. Os comandantes, quase todos, já voltaram
para o xilindró, mercê de outros processos de violações
de direitos humanos, mas Fiermenich continua solto. “É
lamentável, porque, num país que quer recuperar o
sentido da justiça, seria melhor que os argentinos sentissem
que o peso da lei recai sobre quem a infringe, e quem quebra as
normas deve pagar as consequências”, declarou o futuro
chefe de gabinete de Kirchner, Alberto Fernández. Nunca é
demais lembrar que a ilusão militarista – à
esquerda e à direita – foi uma das maiores tragédias
da Argentina nos últimos 70 anos.
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