Passado
no presente
Dez anos depois do fim do apartheid,
começam os julgamentos dos colaboradores do regime segregacionista |
Kátia Mello
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Na África do Sul são julgados 22 brancos
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Durante os anos do apartheid, havia uma frase usada pelos políticos
do Congresso Nacional Africano (CNA), partido de Nelson Mandela,
que praticamente tornou-se um slogan de alívio à dor
e à penúria dos que perdiam pessoas queridas na luta
contra o regime racista: don’t mourn, mobilize (não
lamente, mobilize-se). A mobilização veio em massa
e, em abril de 1994, o CNA conseguiu derrubar três séculos
do mais cruel regime segregacionista, com a primeira eleição
multirracial no país, que levou Nelson Mandela à Presidência.
Mas apesar da reconciliação entre brancos e negros,
promovida e institucionalizada por Mandela na criação
da Comissão de Reconciliação e Verdade (CRV)
em 1997, as lamentações vieram. Em distintos processos
judiciais, os sul-africanos agora pedem justiça. Na segunda-feira
19, há exatos 39 anos do histórico julgamento de Mandela
e no mesmo tribunal da capital, Pretória, em que ele foi
preso por “conspiração contra o governo”,
22 brancos sentaram-se no banco dos réus. Pertencentes aos
grupos de extrema direita Boeremag e Afrikaaner Force, eles são
acusados de tentativa de derrubar o governo multirracial com uma
série de ataques com bombas no ano passado e de planejar
um atentado contra o ex-presidente Mandela. Na era pós-apartheid,
este é o primeiro julgamento por “alta traição”
e o primeiro dos muitos passos para a cura das feridas abertas pelo
apartheid.
No mesmo dia, do outro lado do Atlântico, em Nova York,
começou o julgamento de um megaprocesso contra 34 grandes
multinacionais e corporações financeiras, acusadas
de terem “ajudado e encorajado” o regime segregacionista
ao infringirem as sanções econômicas contra
o apartheid, decretadas pela ONU em 1968. Na lista figuram nomes
como o Citigroup (do banco Citibank), a IBM, o Deutsche Bank, a
Ford, a Isuzu, a Damler-Chrysler, o Crédit Suisse, o Crédit
Lyonnais, o UBS e outros. As gigantes da mineração,
como a De Beers e a Anglo-American, são acusadas de manter
trabalhadores com baixos salários. O advogado do caso, o
americano Edward Fagan, é o mesmo que auxiliou sobreviventes
do Holocausto a receber a bolada de US$ 1,25 bilhão em um
acordo de indenização dos bancos suíços.
Fagan alega que as instituições financeiras ajudaram
a custear o governo de minoria branca, principalmente entre os anos
de 1985 e 1993. O advogado americano espera obter uma indenização
coletiva avaliada em US$ 100 bilhões. O juiz federal John
Sprizzo estabeleceu a data de 6 de novembro para começar
a escutar as vítimas, mas um grupo de quatro mil organizações
de direitos humanos pressionam pela antecipação da
audiência. A atuação das ONGs tem sido vital
neste caso. Elas conseguiram incluir no litígio os bancos
suíços que forneceram créditos ao governo racista.
A Suíça, que manteve uma relação muito
próxima e suspeita com os governos fascistas durante a Segunda
Guerra Mundial, agora sofre o vexame de ser exposta como nação
que nunca adotou as sanções econômicas impostas
à África do Sul. As grandes negociações
destas empresas e instituições financeiras giravam
em torno da extração de minerais, principalmente o
ouro.
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Nos EUA, o advogado Edward Fagan processa bancos e multinacionais
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Sobre esse processo, o presidente Thabo Mbeki afirmou que ele deveria
acontecer dentro da África do Sul, e não em um tribunal
estrangeiro. “O governo sul-africano não participa
e não participará desse litígio. Consideramos
completamente inaceitável que assuntos que são centrais
para o nosso futuro sejam julgados em tribunais estrangeiros, os
quais não trazem benefícios para o bem-estar de nosso
país”, disse o presidente. As empresas e os bancos,
como o UBS, acusam Fagan de estar apenas interessado em se promover
pela mídia e receber gordos honorários. Mas, para
algumas vítimas do apartheid, essa seria talvez uma das raras
chances de compensação. No mês passado, Mbeki
anunciou a indenização de US$ 3.800 para cada uma
das 19.050 vítimas do apartheid listadas pela Comissão
de Reconciliação e Verdade (CRV). Porém essas
indenizações restringem-se às pessoas que relataram
seus casos para a CRV. O presidente descartou a possibilidade de
indenizar as pessoas que não se apresentaram à comissão,
que tinha o poder de conceder anistia.
Em um artigo sobre a CRV, a escritora Gillian Slovo, filha do
famoso ativista Joe Slovo, um dos fundadores da instituição,
questionou-a por ela ter proposto anistia aos que cometeram crimes
políticos. Gillian tem interesse especial pelo caso –
sua mãe foi assassinada por terroristas em Moçambique
com uma carta-bomba. “Meu pai colocou desta maneira: a melhor
vingança que eu posso pensar para os homens que assassinaram
a minha mulher é que eles vivam em paz num sistema que lutaram
brutalmente para não existir.” Apesar disso, Gillian
disse que “um dos aspectos mais ofensivos foram as situações
em que as vítimas foram encorajadas a perdoar aqueles que
causaram a elas tantos danos. Isso foi um compromisso político
transformado em um abraço forçado nos velhos inimigos,
os quais sempre fizeram com que as vítimas, que já
haviam perdido o direito de protestar legalmente, fizessem mais
sacrifício”. Pai e filha com visões diametralmente
opostas numa questão que ainda irá gerar muita polêmica.
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