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  INTERNACIONAL 28/05/2003
Terrorismo

O enigma da Al-Qaeda
Americanos aumentam nível de alerta depois de supostos ataques e ameaças da rede, que estaria se reorganizando

Al-Jazeera/aptn/AP  
Dupla dinâmica: Al-Zawahiri (à esq.) e Bin Laden
 

Foi apenas um dia depois que o governo americano, alarmado com a onda de ataques terroristas ocorridos no Oriente Médio, tinha elevado o nível de alerta de “amarelo” (elevado) para “laranja” (alto), o segundo maior na escala de cinco cores criada para indicar a possibilidade de ataques em território americano. Na quarta-feira 21, a rede de tevê árabe Al-Jazira levou ao ar uma gravação de áudio de três minutos e meio atribuída ao médico egípcio Ayman al-Zawahiri, o número dois da organização terrorista al-Qaeda – liderada por Osama Bin-Laden –, na qual ele conclama os muçulmanos a retomarem os ataques contra americanos e judeus. “Considerem seus 19 irmãos que atacaram a América em Washington e Nova York com seus aviões como um exemplo”, disse Zawahiri, referindo-se aos sequestradores que promoveram os atentados de 11 de setembro de 2001. “Os cruzados e os judeus só compreendem a linguagem do assassinato, do derramamento de sangue... e das torres queimando”, trombeteia o líder terrorista. “Ataquem as missões dos EUA, do Reino Unido, da Austrália, da Noruega, assim como seus interesses, empresas e empregados”, conclui o chamado.

Mary Altaffer/AP  
Policiais montam guarda em frente a Wall Street, certamente um dos mais atrativos alvos
 

O toque insólito foi a referência à Noruega, já que este país nórdico não apoiou o ataque anglo-americano ao Iraque, preferindo uma solução pacífica da ONU, e sua capital, Oslo, foi há dez anos a sede das negociações para o acordo de paz entre palestinos e Israel e o estabelecimento da Autoridade Nacional Palestina. Alguns analistas arriscaram a hipótese de al-Zawahiri, ou quem quer que seja o dono da voz, ter confundido a Noruega com a vizinha Dinamarca, que deu apoio decisivo aos EUA e ao Reino Unido na guerra contra o Iraque. Na dúvida, o governo de Oslo preferiu não especular e proteger suas embaixadas. O nível de paranóia com uma nova onda de ataques já havia levado os governos dos EUA, do Reino Unido, da Alemanha, do Canadá e da Itália a fecharem, na terça-feira 20, suas representações diplomáticas na Arábia Saudita, por temor de novos ataques terroristas, supostamente da al-Qaeda. Na semana passada, atentados terroristas atribuídos à organização provocaram a morte de 34 pessoas em Riad (Arábia Saudita) e 41 em Casablanca (Marrocos).

Pego de surpresa no momento em que a Casa Branca anunciava o lançamento do presidente George W. Bush à reeleição, o governo americano reagiu erraticamente. Bush procurou tranquilizar os americanos dizendo que “quase a metade da cúpula dessa organização está presa ou morta”. Bem ao seu estilo texano, o presidente disse que os EUA “perseguirão os terroristas em todo rincão da terra”. Já seu secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, voltou a apontar as baterias contra o regime dos aiatolás do Irã. “Não há dúvida de que existem membros da al-Qaeda no Irã. Países que acolhem organizações terroristas comportam-se como terroristas”, completou o belicoso secretário.

A surpreendente “ressurreição” da al-Qaeda neste momento – muitos esperavam que a rede lançasse ataques durante a guerra do Iraque – voltou a colocar dúvidas sobre a eficácia da estratégia da Casa Branca de combate ao terrorismo. Segundo o jornal The New York Times, líderes da al-Qaeda reorganizaram bases de operações em pelo menos meia dúzia de países, entre eles Quênia, Sudão, Paquistão e Chechênia. A rede estaria empregando unidades menores e mais disciplinadas sob o controle de uma nova geração de líderes. No início do ano, depois de várias prisões, parecia que a al-Qaeda tinha sido atingida de morte. Mas desde o ataque americano ao Iraque, a al-Qaeda tem experimentado um aumento no recrutamento. A rede terrorista teria hoje três mil membros, contra cerca de 20 mil nos anos 90. “A capacidade deles foi minada. Mas eles ainda são uma ameaça, ainda estão lutando e tentando atacar os EUA”, disse um funcionário. De qualquer forma, permanece um mistério envolto num enigma o paradeiro de Bin Laden e do próprio Zawahiri, que se refugiaram nas montanhas do Afeganistão quando os americanos atacaram suas bases nas montanhas de Tora Bora.

Uma mãozinha a Sharon
Anja Niedringhaus/AP  
Terror: cinco atentados em quatro dias
 
Poucas horas antes do primeiro encontro entre o primeiro-ministro israelense, Ariel Sharon, e seu colega palestino Mahmoud Abbas, na noite de sábado 17, um homem-bomba explodiu-se em Hebron, na Cisjordânia, matando dois colonos israelenses. Era o prenúncio de que os dias que se seguiriam à primeira reunião entre líderes de Israel e da Autoridade Palestina desde o início da Segunda Intifada palestina, em setembro de 2000, seriam de muita violência. Nos três dias subsequentes, mais quatro ataques suicidas palestinos mataram 17 pessoas. Sharon cancelou sua ida a Washington para discutir o plano de paz chamado “road map”, elaborado pelos EUA, União Européia, ONU e Rússia, que prevê a criação do Estado palestino em 2005. Mas, na sexta-feira 23, o premiê israelense acabou aceitando o roteiro de paz, anunciando que irá apresentá-lo a seu gabinete para aprovação. O pronunciamento de Sharon aconteceu depois de o premiê Abbas ter concordado com o plano e de o presidente George W. Bush ter garantido a Israel que irá levar em conta as possíveis alterações sugeridas pelo governo israelense.

Fernando F. Kadaoka
 
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