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| Tênis |
Esta
cena vai se repetir?
Em condições adversas e com a
auto-estima abalada, Gustavo Kuerten tenta seu quarto título
em Roland Garros |
Paulo Cleto*
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Campeão:
Guga na França em 1997: prodígio |
São poucos os tenistas que têm três troféus
de campeão conquistados nas quadras de terra vermelha, trazidos
da vila de Ermenonville para Paris. Gustavo Kuerten é um
deles. É também o único ainda em atividade
e tem a chance rara de conquistar uma quarta vez o evento que começa
na segunda-feira 26 na França. Esse é o desejo de
seus fãs, o que não faz necessariamente com que o
tenista se pronuncie da mesma maneira. Na semana passada, após
mais uma derrota, Guga declarou que “vencer Roland Garros
está fora da minha realidade”. E qual é essa
realidade?
Não acredito que a cirurgia, pela qual passou no início
de 2002, seja a causa dos seus problemas atuais. De lá para
cá, Kuerten passou centenas de horas em quadra e em nenhum
momento sentiu dores.
Alguns mencionam que o brasileiro está longe do ritmo ideal.
Isso já não é verdade. Desde que voltou às
quadras, Guga disputou 81 partidas e faturou dois torneios. Mais
do que o necessário. Outros, os céticos, afirmam que,
com muitos milhões no banco, o rapaz não tem mais
o mesmo apetite. Se dinheiro fosse a única motivação
para os tenistas, Andre Agassi, 33 anos, não teria voltado
recentemente ao topo do ranking mundial. O americano, que faturou
muito mais que o brasileiro em sua longa carreira, está jogando,
talvez, o melhor tênis de sua vida.
As quadras de terra da Europa sempre foram onde Gustavo Kuerten
conquistou seus melhores resultados. Ali afinava os golpes e lustrava
sua confiança – o maior patrimônio de um tenista
– para o grand finale – Roland Garros. Mas tudo saiu
errado nesta temporada. Não venceu três partidas seguidas,
quando havia a expectativa de muitas vitórias e, pelo menos,
um título. O que mais se comenta, inclusive o próprio
tenista, é que Kuerten perdeu a confiança de outrora.
Atualmente ele se abate quando não capitaliza suas oportunidades
e se desespera quando não consegue dominar o oponente.
Aos 26 anos, Guga Kuerten não tem mais o corpo, a juventude
e o entusiasmo de quando venceu Roland Garros pela primeira vez,
em 1997. Poucos – se alguém – trabalharam tanto
quanto ele, dentro
e fora da quadra. Mas, como seu técnico, Larri Passos, gosta
de afirmar, esse é o caminho para Gustavo Kuerten. Guga não
é um talento, como Sampras ou Agassi, e por isso tem que
passar mais tempo em quadra. Essas realidades confrontantes criaram
um paradoxo. Com a inflexível realidade da idade, dos títulos
e da segurança financeira, os aspectos físico, mental
e a motivação são diferentes dos de um tenista
em
início de carreira.
A sempre tênue arte do bom senso teria que definir o quanto,
e como, Gustavo Kuerten deve continuar a utilizar, ou reservar,
suas energias fora dos momentos de competição. Mais
importante ainda, como canalizá-las para as partidas e os
momentos-chave destas. Com a idade, o esportista precisa encontrar
diferentes objetivos, motivações e caminhos para se
manter entre os melhores. Especialmente em um esporte extremamente
competitivo como o tênis. Essa é uma arte que tanto
tenistas cujas estrelas se apagaram prematuramente quanto aqueles
que conseguiram uma carreira duradoura deixaram como legado.
Tudo isso deve estar claro na mente do campeão. Como ele
já mostrou, especialmente dentro de uma quadra, que sabe
lidar com crises, podemos ver, ainda em Paris, a volta dos bons
resultados. Para isso, Guga vai ter que achar em seu coração
a força e a resolução que o levaram aos raros
três títulos em Roland Garros.
* Técnico da equipe brasileira da Copa Davis
durante 18 anos, técnico da equipe brasileira em três
Olimpíadas e de tenistas como Jaime Oncins, Luiz Mattar e
Carlos Alberto Kirmayr
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