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  ESPORTE 28/05/2003
Tênis

Esta cena vai se repetir?
Em condições adversas e com a auto-estima abalada, Gustavo Kuerten tenta seu quarto título em Roland Garros

Paulo Cleto*

  Eric Feferberg/AP
  Campeão: Guga na França em 1997: prodígio

São poucos os tenistas que têm três troféus de campeão conquistados nas quadras de terra vermelha, trazidos da vila de Ermenonville para Paris. Gustavo Kuerten é um deles. É também o único ainda em atividade e tem a chance rara de conquistar uma quarta vez o evento que começa na segunda-feira 26 na França. Esse é o desejo de seus fãs, o que não faz necessariamente com que o tenista se pronuncie da mesma maneira. Na semana passada, após mais uma derrota, Guga declarou que “vencer Roland Garros está fora da minha realidade”. E qual é essa realidade?
Não acredito que a cirurgia, pela qual passou no início de 2002, seja a causa dos seus problemas atuais. De lá para cá, Kuerten passou centenas de horas em quadra e em nenhum momento sentiu dores.

Alguns mencionam que o brasileiro está longe do ritmo ideal. Isso já não é verdade. Desde que voltou às quadras, Guga disputou 81 partidas e faturou dois torneios. Mais do que o necessário. Outros, os céticos, afirmam que, com muitos milhões no banco, o rapaz não tem mais o mesmo apetite. Se dinheiro fosse a única motivação para os tenistas, Andre Agassi, 33 anos, não teria voltado recentemente ao topo do ranking mundial. O americano, que faturou muito mais que o brasileiro em sua longa carreira, está jogando, talvez, o melhor tênis de sua vida.
As quadras de terra da Europa sempre foram onde Gustavo Kuerten conquistou seus melhores resultados. Ali afinava os golpes e lustrava sua confiança – o maior patrimônio de um tenista – para o grand finale – Roland Garros. Mas tudo saiu errado nesta temporada. Não venceu três partidas seguidas, quando havia a expectativa de muitas vitórias e, pelo menos, um título. O que mais se comenta, inclusive o próprio tenista, é que Kuerten perdeu a confiança de outrora. Atualmente ele se abate quando não capitaliza suas oportunidades e se desespera quando não consegue dominar o oponente.

Aos 26 anos, Guga Kuerten não tem mais o corpo, a juventude
e o entusiasmo de quando venceu Roland Garros pela primeira vez,
em 1997. Poucos – se alguém – trabalharam tanto quanto ele, dentro
e fora da quadra. Mas, como seu técnico, Larri Passos, gosta de afirmar, esse é o caminho para Gustavo Kuerten. Guga não é um talento, como Sampras ou Agassi, e por isso tem que passar mais tempo em quadra. Essas realidades confrontantes criaram um paradoxo. Com a inflexível realidade da idade, dos títulos e da segurança financeira, os aspectos físico, mental e a motivação são diferentes dos de um tenista em
início de carreira.

A sempre tênue arte do bom senso teria que definir o quanto, e como, Gustavo Kuerten deve continuar a utilizar, ou reservar, suas energias fora dos momentos de competição. Mais importante ainda, como canalizá-las para as partidas e os momentos-chave destas. Com a idade, o esportista precisa encontrar diferentes objetivos, motivações e caminhos para se manter entre os melhores. Especialmente em um esporte extremamente competitivo como o tênis. Essa é uma arte que tanto tenistas cujas estrelas se apagaram prematuramente quanto aqueles que conseguiram uma carreira duradoura deixaram como legado.

Tudo isso deve estar claro na mente do campeão. Como ele já mostrou, especialmente dentro de uma quadra, que sabe lidar com crises, podemos ver, ainda em Paris, a volta dos bons resultados. Para isso, Guga vai ter que achar em seu coração a força e a resolução que o levaram aos raros três títulos em Roland Garros.

* Técnico da equipe brasileira da Copa Davis durante 18 anos, técnico da equipe brasileira em três Olimpíadas e de tenistas como Jaime Oncins, Luiz Mattar e Carlos Alberto Kirmayr

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