| EDUCAÇÃO
& CIDADANIA
|
28/05/2003
|
| ISTOÉ
São Paulo - Especial |
Barbárie veterana
Trotes selvagens se perpetuam na
Esalq, com um arsenal de crueldades sem limites
Dolores Orosco – Piracicaba
|
|
| Campus
da Esalq: Uma das universidades mais bem equipadas
do País é também palco de agressões à luz do dia |
|
Violência, tortura psicológica e humilhação.
A Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), em Piracicaba,
um dos mais ricos e bem equipados campus da Universidade de São
Paulo, continua na idade da pedra quando o assunto é trote.
Na Esalq, a prática lembra mais os métodos aplicados
pela polícia política nos anos de ditadura. A alegria
de passar no concorrido vestibular da Esalq se transforma em medo,
quando uma série de peças de mau gosto aplicada pelos
estudantes mais antigos – chamados estranhamente de “doutores”
– submete o calouro a um contínuo corredor polonês
que vai se prolongar por todo o curso. Ainda que tenha passado para
o segundo, terceiro ano, o “esalqueano” será
sempre submisso ao aluno que entrou pelo menos um ano antes na escola.
No campus da Esalq é possível ver cenas como adolescentes
ajoelhados em pedregulhos – forma mais conhecida de o “bixo
reverenciar o seu doutor” –, calouros gastando o próprio
dinheiro para comprar lanches e material didático para os
veteranos e até sendo agredidos, como foi presenciado pela
reportagem de ISTOÉ. Em pleno dia, um veterano apertou o
pescoço de uma aluna nova até fazê-la chorar
de dor. Motivo: ela, com toda razão, o chamou de estúpido.
Trata-se de uma pequena amostra do que acontece dentro das repúblicas.
Nos apartamentos e casas divididos pelos universitários,
o trote é institucionalizado e quem se recusa a participar
é expulso e marginalizado dentro da faculdade. Nas repúblicas
chamadas “azulonas” o trote é violento e velado,
ao contrário do que acontece nas “vermelhas”,
que receberam esse nome em referência aos alunos com preferências
de esquerda na década de 1960 e que eram contra o trote.
A maioria das “brincadeiras” aplicadas no ambiente caseiro
dos universitários é esdrúxula. É o
caso dos chamados “mastiguinha” e “reforço”.
O novo aluno é forçado a comer algo que já
foi mastigado por um veterano, enquanto o “reforço”
é a mistura de ovo, farinha crua, maionese, mostarda, vinagre
e até pedaços de papel e plásticos que o “bixo”
é forçado a ingerir. Segundo relatos de alguns alunos,
esse trote
já provocou casos graves de infecção estomacal.
Tais práticas são narradas no livro-denúncia
Trote na Esalq, dos professores Antonio
de Almeida Júnior e Oriowaldo Queda, que atualmente lecionam
na universidade. Por meio de relatos de calouros, veteranos e dos
pais
dos estudantes, o autores traçam um diagnóstico do
que eles próprios chamam de “terrorismo juvenil”.
| |
 |
| |
Brincadeira
perigosa: depois de protestar contra a proibição do
trote, alunos se jogam no lago da escola |
Tijolinho – Toda a perversidade do trote
na Esalq se intensifica nas sessões de tortura conhecidas
como “ralo monstro”, que acontecem principalmente na
semana que antecede o dia 13 de maio, Dia da Abolição
da Escravatura e considerada a “Semana do Terror”. De
madrugada, os veteranos reúnem cerca de 50 calouros, que
são obrigados a ficar nus e passar por castigos, aberrações
conhecidas e tão centenárias quanto a faculdade –
fundada em 1900 –, como o “tijolinho”, no qual
um peso é amarrado no pênis do calouro. Segundo um
estudante do curso de gestão ambiental – o mais concorrido
da universidade –, as sessões do “ralo monstro”
foram diárias naquela semana. “Mesmo com o frio, os
‘doutores’ nos deram banhos de mangueira e nos obrigaram
a fazer exercícios. Alguns deles nos chutavam e davam socos.
Fiquei cheio de hematomas”, contou. “Depois, eles nos
abandonaram só de cuecas em canaviais que ficam afastados”,
relatou o estudante. Por causa dos trotes, alguns deles chegam a
abandonar o curso. O costume da recepção nada amigável
dos alunos da Esalq vai na contramão do que vem ocorrendo
na maioria das universidades paulistanas. Desde a tragédia
com o estudante Edison Tsung Chi Hsueh, que morreu afogado na piscina
do campus da Faculdade de Medicina da USP, durante um trote em 1999,
as atléticas e centros acadêmicos têm incentivado
o chamado “trote solidário”, no qual os “bixos”
são incentivados a fazer doações. Na ocasião,
o governador Geraldo Alckmin sancionou uma lei proibindo o trote
nas universidades públicas estaduais. Mas a barbárie
continua e não é um fenômeno recente. A direção
da faculdade reconhece que a tradição do trote é
a principal dificuldade para combatê-lo. “Punir não
vai resolver o problema. O que fazemos é um trabalho de conscientização
e oferecemos alternativas, como atividades esportivas, eventos beneficentes
e festas”, afirma o reitor da Esalq, José Roberto Portali
Parra. Como resultado desse trabalho, o reitor cita que a tradicional
passeata dos “bixos”, que acontece no 13 de maio, foi
proibida este ano. Não houve passeata, mas os estudantes
fizeram um protesto em frente ao prédio da reitoria e depois
se jogaram no lago do campus. “É um processo cultural
e esperamos que o trote seja extinto em dois ou três anos.
O problema é que não temos como controlar cada um
dos 1.700 alunos”, explica Marcos Vinícius Folegatti,
prefeito do campus. Enquanto a triste tradição não
chega ao fim, a Esalq forma estudantes especialistas no desrespeito
aos direitos humanos.
|
A
violência entre os alunos da Esalq* |
Chispada
- Os calouros são obrigados a andar nus por um
espaço público. Muitos acabam até
sendo levados à delegacia para prestar esclarecimentos.
Cabo de guerra - As pontas de um barbante
são amarradas nos genitais de dois alunos de primeiro
ano. Eles simulam um cabo de guerra e vence quem suportar
mais a dor.
Pastinha - O calouro é obrigado
a passar pasta de dente no pênis e se masturbar
na frente de um grupo de veteranos.
Rolo compressor - O aluno é forçado
a rolar nu sobre outros calouros que também estão
sem roupa e deitados no chão.
Vômito congelado - Os veteranos
armazenam vômitos nas
geladeiras das repúblicas para depois obrigar grupos
de novos alunos
a ingerir a substância.
* Fonte: livro Trote na Esalq,
de Antonio de Almeida Júnior
e Oriowaldo Queda. 2003/Esalq-USP
|
|
|