| ECONOMIA
& NEGÓCIOS |
28/05/2003
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Motivo
de chacota
Dólar fraco vira piada de especulador
e bálsamo para
a titubeante economia do País |
João
Paulo Nucci
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Soros
disse que está trocando suas verdinhas pelas moedas da Austrália,
do Canadá e da Nova Zelândia. Ninguém acreditou |
O veterano especulador George Soros acostumou-se a utilizar seu
poder de fogo de bilhões de dólares para arrasar moedas
ao redor do mundo, contribuindo para submergir nações
inteiras na mais completa miséria. Foi assim na Tailândia,
foi assim na Indonésia, até que, de repente, Soros
adotou um discurso contrário à sua prática
histórica e passou a defender o controle dos fluxos de capitais.
Agora, é a vez de Soros cuspir na moeda que lhe servia (ou
serve) de munição. O dólar, que anda em baixa
no mercado mundial, sofreu um ataque do financista. Não foi
um ataque especulativo, no modelo habitual, e sim verbal. “Minha
posição em dólar é menor hoje”,
disse em uma entrevista ao canal americano CNBC. Na sequência,
afirmou estar despejando forças no euro, no ouro (até
aí, tudo bem) e nas moedas da Austrália, do Canadá
e da Nova Zelândia, as três também chamadas dólar.
Os presidentes dos Bancos Centrais das nações envolvidas
podem ter se enchido de orgulho com a referência positiva,
mas Soros estava simplesmente sendo irônico.
O especulador resolveu fazer chacota para se contrapor às
declarações de duas semanas atrás do secretário
do Tesouro dos Estados Unidos, John Snow. Pela primeira vez na história
recente, um ocupante do cargo afirmou, com todas as letras, que
um dólar sem tanta força é algo positivo para
os Estados Unidos. Pela lógica empregada por Snow, não
se sabe se conscientemente ou por falta de alternativa, o menor
peso das verdinhas incentivaria as exportações dos
produtos americanos e ajudaria a combater os problemas internos
da economia, que ainda não deu sinais concretos de reativação
no período que seguiu à invasão do Iraque.
“Acho que Snow foi um tanto irresponsável em deixar
o dólar se desvalorizar”, disse Soros, já desprovido
de qualquer traço de ironia.
Há quem concorde com Soros, mas por motivos mais nobres
do que os meramente especulativos. A queda do dólar resulta,
necessariamente,
no fortalecimento das outras moedas. Até o nosso combalido
real vem dando sinais de força, também por conta da
anemia das verdinhas. Outras moedas globais, como o euro e o iene,
vivem ainda com mais intensidade o desafio de encontrar um patamar
ideal do câmbio (uma discussão que ferve entre os economistas
brasileiros desde que o
real passou a se fortalecer).
O Banco Central japonês, por exemplo, já atua diretamente
sobre o câmbio, comprando dólares, para não
deixar que a relação dólar-iene se desgarre
a ponto de desequilibrar suas transações comerciais
com o resto do mundo (bem que o Banco Central brasileiro podia acompanhar
a experiência japonesa mais de perto para tirar lições).
Na Europa a situação é ainda mais grave. A
fraca atividade econômica dos países da União
Européia torna alarmante a perspectiva de uma continuidade
da valorização do euro perante o dólar.
O mesmo fantasma, a deflação, tem rondado tanto
os Estados Unidos quanto a Europa. O processo em que os preços
se encolhem por absoluta falta de demanda é um sintoma tradicionalmente
grave para as economias desenvolvidas. O próprio presidente
do Banco Central americano, Alan Greenspan, alertou na semana passada
para o risco, ainda que pequeno, de essa chaga surgir em território
americano. O homem que salvou da recessão a economia americana
com uma série histórica de cortes nas taxas de juros
(bem que o Banco Central brasileiro podia acompanhar a experiência
americana mais de perto para tirar lições) agora se
diz “cautelosamente otimista” com uma recuperação
da atividade. Greenspan não falou sobre o dólar fraco
e suas virtudes. Talvez para escapar de alguma piadinha de Soros.
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