| ECONOMIA
& NEGÓCIOS |
28/05/2003
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Leilão
viciado
Conluio entre Enron e AES é desvendado
cinco anos
depois da privatização da Eletropaulo |
Célia Chaim
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Mau
negócio: em abril de 1998,
a Eletropaulo trocava de mãos
por R$ 2,1 bilhões, sem ágio |
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O governo brasileiro fez papel de bobo na privatização
da companhia elétrica de São Paulo em 1998, a Eletropaulo,
uma das maiores empresas elétricas do mundo. Vendeu a “coroa
da rainha” pelo preço mínimo e comemorou a martelada
como se tivesse feito um grande negócio. Que ágio
que nada. O ágio foi de 0%, algo por si só escandaloso
diante dos 82% obtidos pela Rio Grande Energia e dos 70% da CPFL,
de São Paulo. Aparentemente, só havia um concorrente
– o consórcio Light, formado pelo grupo energético
americano AES, a Electricité de France, a Houston Industries
e a siderúrgica brasileira CSN –, que não teve
“estímulo” para aumentar sua oferta além
do lance mínimo de R$ 2,1 bilhões (equivalentes, na
época, a US$ 1,8 bilhão). Quem se esbaldou na comemoração
foi a AES e a falida Enron, que, juntas, costuraram nos bastidores
uma grande tramóia para evitar ágio na privatização.
A denúncia foi publicada pelo jornal Financial Times na
terça-feira 20. O diário inglês não revelou
a origem das informações, mas sua credibilidade irretocável
foi suficiente para espalhar o escândalo. “Foi um desastre
para o governo brasileiro: jóia da coroa da energia naquele
ano, a Eletropaulo – que possui cinco milhões de clientes
– deveria atrair algumas centenas de milhões acima
do valor mínimo”, diz a reportagem. Para se ter uma
ligeira idéia de quanto o País perdeu, a Enron –
que originalmente disputaria a empresa e surpreendeu com sua “desistência”
em pleno leilão – havia definido um valor máximo
de aproximadamente
R$ 3 bilhões pela Eletropaulo.
O resumo da história é simples: a Enron desistiu
do leilão para que a AES pudesse comprá-la pelo preço
mínimo. Em troca, a Enron poderia construir, em parceria
com a AES, uma usina elétrica de 1.500 megawatts para alimentar
a Eletropaulo e seria a principal construtora e operadora da usina
de energia, atraindo comissões para ambas; e ainda forneceria
todo o combustível, graças à sua participação
no gasoduto Brasil–Bolívia.
O físico Luiz Pinguelli Rosa, presidente da Eletrobrás,
acha que deve haver uma investigação sobre a denúncia
do jornal inglês. Para ele, as privatizações
do setor elétrico foram feitas “na base da cavalaria”,
para arrecadar dinheiro, e o caso da AES seria um exemplo. “As
privatizações do setor elétrico foram muito
piores que as das telecomunicações. Os procedimentos,
as regras – foi tudo uma grande confusão”, disse.
O governo brasileiro, logo em seguida, prometeu investigar as acusações.
A AES tem uma dívida de US$ 1,2 bilhão com o Banco
Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). A
dívida total da empresa americana com o banco é de
cerca de US$ 1,2 bilhão. A gigante Enron
foi dizimada como protagonista do maior escândalo corporativo
da
história americana em dezembro de 2001. Alguns de seus executivos
conheceram a prisão de perto, depois da majestosa fraude
contábil
que cometeram. O mais novo e inédito capítulo de suas
falcatruas
acaba de ser apresentado, desta vez em parceria com a AES e dentro
de uma empresa brasileira.
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