| ECONOMIA
& NEGÓCIOS |
28/05/2003
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Alca?
Não, obrigado
Professor da FGV diz que entrar
na Área de Livre Comércio
das Américas significa, na prática, inviabilizar um projeto
nacional de desenvolvimento |
João
Paulo Nucci
Extremamente politizado, o debate sobre a criação
da Área de Livre Comércio (Alca) no Brasil rende boas
brigas, mas com argumentos quase sempre baseados em dois ou três
lugares-comuns repetidos à exaustão. São poucos
os que têm a noção exata da abrangência
do acordo que, pela agenda dos Estados Unidos, criará em
2005 um gigante mercado comum nos 34 países situados entre
a Patagônia e o Alasca (com a óbvia exceção
de Cuba). Interessado em desvendar as reais intenções
dos Estados Unidos, o economista Paulo Nogueira Batista Jr. resolveu
recorrer à minuta original do acordo, um catatau de 350 páginas
escritas em linguagem puramente técnica. As conclusões
da tarefa estão no trabalho “A Alca e o Brasil”,
que será publicado na edição, que circula a
partir de agosto, da Revista de Estudos Avançados,
do instituto de mesmo nome da Universidade de São Paulo,
onde Batista Jr. é pesquisador visitante (cargo que acumula
com o de professor da Fundação Getúlio Vargas
em São Paulo).
Escrito em linguagem clara e acessível (uma raridade em
termos de estudos acadêmicos, sobretudo econômicos),
o trabalho é taxativo:
a Alca, da forma como foi concebida pelos EUA, não nos interessa.
“O Brasil faz uma escolha. Ou ele preserva a possibilidade
de definir
um projeto nacional ou se incorpora de forma passiva a uma agenda
que vem de fora. Essa é a grande questão”, diz
o professor. Na entrevista, ele detalha os riscos que o País
corre, comenta o posicionamento do governo Lula e diz como o próprio
George W. Bush tem contribuído
com os críticos do acordo.
ISTOÉ – Qual é a concepção
que os EUA têm da Alca?
Paulo Nogueira Batista Jr. – A Alca é uma
iniciativa dos EUA e tem sido impulsionada basicamente por sucessivos
governos americanos, desde o mandato do George Bush pai (1989-1992).
A Alca não seria apenas uma área de livre comércio
no sentido tradicional. Ela inclui, na concepção americana,
um conjunto de temas que implicaria a fixação de regras
comuns entre os países para vários aspectos essenciais
da política econômica, como investimentos, propriedade
intelectual, defesa da concorrência e vários outros
temas.
ISTOÉ – O acordo, como está proposto,
interessa ao Brasil?
Batista Jr. – Na minha opinião, não.
Porque não é favorável a
um país em desenvolvimento com as características
do Brasil
participar de uma área de livre comércio com economias
muito mais desenvolvidas e mais poderosas. E muito menos interessa
ao Brasil participar com as características que a Alca tende
a tomar a partir
da concepção americana. O projeto é muito abrangente,
envolve
muitas restrições à política econômica
brasileira e, ao mesmo tempo,
cria benefícios duvidosos.
ISTOÉ – Quais são os riscos?
Batista Jr. – Deixando de lado a abrangência
da pauta e avaliando apenas a criação da área
de livre comércio, nos deparamos com a
falta de competitividade do sistema econômico brasileiro,
que é um problema estrutural. A diferença a favor
dos países desenvolvidos é colossal. Há também
um problema das próprias empresas. Muitos empresários
dizem que basta reduzir o custo Brasil para atingir um grau de competitividade
internacional. Isso pode ser verdade para vários setores
importantes da economia, mas não é plausível
que seja para
a grande maioria das empresas.
ISTOÉ – Quais seriam as consequências
da implantação da Alca?
Batista Jr. – Se o mercado interno for aberto de
forma ampla para as nações desenvolvidas, muito provavelmente
as importações tenderão a aumentar muito mais
que as exportações. O desequilíbrio externo,
um dos nossos problemas centrais, se agravaria. Do ponto de vista
da estrutura do sistema econômico, o mais provável
é que o País regrida para uma economia muito mais
simples, muito menos diversificada do que ela é hoje. O Brasil
é, na América Latina, o País que tem a indústria
mais diversificada. Uma série de setores da economia dificilmente
resistiria à competição. Alguns setores, como
o de informática ou o químico, nos quais há
o predomínio dos EUA, poderiam desaparecer. A tendência
é o Brasil se concentrar em setores onde já somos
competitivos, como a agroindústria e as áreas têxtil,
siderúrgica e de calçados.
ISTOÉ – A Alca é um processo sem volta?
Batista Jr. – Não. No momento não existe
nenhum compromisso jurídico do Brasil com a Alca. Politicamente,
é preciso considerar que os EUA formularam a proposta de
uma maneira muito desequilibrada. Toda a idéia foi concebida
de uma forma enviesada, no sentido que os americanos querem dar
prioridade a seus interesses, o que é difícil de aceitar.
Com o governo Bush, essa tendência na direção
de uma negociação desequilibrada se aprofundou. O
Bush e o Congresso tomaram uma série de atitudes protecionistas
que sinalizam claramente a pouca disposição dos EUA
com a abertura do seu mercado. Isso torna a defesa da Alca no Brasil
muito mais complicada do que era antes. Os partidários da
Alca se recolheram a um silêncio tumular nos últimos
tempos. O Clinton era mais perigoso. Na gestão dele, os americanos
disfarçavam a busca dos interesses com uma retórica
de cooperação internacional. No período Bush,
o protecionismo e o nacionalismo são mais francos.
ISTOÉ – O prazo para implantação
da Alca é 2005.
Ele será respeitado?
Batista Jr. – Espero que não, e provavelmente
não. Acredito que
esse prazo seja adiado. De um lado, houve esse recrudescimento do
nacionalismo nos EUA. Por outro lado, a eleição do
Lula. O governo Lula está sinalizando uma mudança.
O problema é que a Alca é uma iniciativa da maior
potência econômica, política e militar do planeta.
O Brasil, com
a Alca, em grande medida se incorpora de forma passiva a uma agenda
que é formulada, concebida e implementada pelos EUA. O Brasil
faz uma escolha. Ou ele preserva a possibilidade de definir um projeto
nacional
ou se incorpora de forma passiva a uma agenda que vem de fora. Essa
é a grande questão.
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