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  BRASIL 28/05/2003
Espírito Santo  

Vitória do social
Violência no Estado não barra aposta do poder público
munici pal na qualidade de vida: no terreno da cidadania,
em se plantando tudo dá

Florência Costa e Ricardo Giraldez (fotos) – Vitória

Ricardo Giraldez  

Na capital da moqueca capixaba, o complexo de caranguejo já não reina absoluto. Símbolo do atraso e da incapacidade de avançar, o caranguejo começa a dividir espaço, no imaginário popular, com outra espécie típica do Espírito Santo: o marlim azul – um peixe que pode pesar até 650 quilos e medir quatro metros. Obstinado, veloz, briguento, luta com todas as suas forças ao ser fisgado. É, por isso, a presa mais cobiçada e respeitada pelos amantes da pesca oceânica. Os dois animais, caranguejo e marlin azul – ambos frequentes nos lamaçais e mares do Estado –, são a própria imagem do paradoxo capixaba. Há anos, o Espírito Santo vive chafurdado na violência do crime organizado, que tomou conta de todas as esferas do poder. Vitória amarga um infeliz recorde nacional, com os mais altos índices de assassinatos no País. Mas, ao mesmo tempo que pena com a péssima imagem da violência, a capital começa a fazer juz a seu nome em outras searas. Dez anos depois de plantar as sementes de projetos sociais de longo prazo, a cidade começou a colher seus frutos.

Entre os vários prêmios que Vitória conquistou nos últimos anos
na disputa entre as cidades que oferecem a melhor qualidade de vida,
há dois valiosos troféus. Um deles é o terceiro lugar entre as capitais brasileiras no Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM)
de 2000, indicador da Organização das Nações Unidas (ONU), e a
18ª colocação nacional em pesquisa realizada em 5.507 municípios brasileiros pelo Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea),
ligado ao Ministério do Planejamento, e pela Fundação João Pinheiro,
com apoio do IBGE. Atrás apenas de Florianópolis e Porto Alegre, Vitória ultrapassou Curitiba (em quarto lugar entre as capitais e em 19º na lista geral das cidades brasileiras analisadas). Um feito, já que a capital do Paraná ficou internacionalmente conhecida como exemplo de bons serviços prestados à população. Foram avaliados itens como taxa de alfabetização de adultos, esperança de vida ao nascer, frequência escolar e renda per capita.

  Ricardo Giraldez
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O outro troféu de peso foi conferido a Vitória pela Fundação Getúlio Vargas, que pesquisou 2.988 moradores de 92 cidades, incluindo nove capitais – as que apresentaram os melhores desempenhos –, em novembro do ano passado. A capital capixaba é a que tem o maior índice de satisfação com os serviços públicos (69%), acima do índice nacional (65%). No ranking das capitais, Curitiba ficou em segundo lugar, seguida de Porto Alegre, Rio de Janeiro, Fortaleza, Belo Horizonte, Recife, Salvador e São Paulo. Os habitantes das cidades avaliaram diversos tipos de serviços, como coleta de lixo, policiamento, controle de camelôs, manutenção das praças e espaços de lazer, educação, sistema de saúde, iluminação das ruas, abastecimento de água e serviços de esgoto. As avaliações
retratam uma década de aposta do poder público nas melhorias
sociais e provam que nesse terreno em se plantando tudo dá, mas
é preciso ter muita paciência.

As sementes desta metamorfose social em Vitória foram lançadas pelo atual governador, Paulo Hartung (PSB), eleito prefeito em 1992 quando ainda estava no PSDB. Saiu como o prefeito mais bem avaliado do País e conseguiu realizar, em 1966, o tradicional plano de eleger o sucessor: seu secretário de Planejamento, Luiz Paulo Vellozo Lucas (PSDB). Engenheiro com pós-graduação em economia industrial, ele fez carreira no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) antes de tornar-se prefeito. Ao assumir seu primeiro mandato (foi reeleito em 2000), Luiz Paulo tinha pela frente o desafio de tocar a obra iniciada pelo antecessor. Traçou logo dois cenários, utilizando a imagem das espécies animais locais. “O cenário negativo é o que chamamos de complexo de caranguejo, símbolo do fracasso e do negativismo. O positivo batizamos de o salto do marlin azul, que representa o pulo para a liberdade, porque ele é um guerreiro, luta com toda a garra para se libertar. Acho que hoje podemos dizer que deixamos o complexo de caranguejo para trás”, assegurou Luiz Paulo.

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