| BRASIL |
28/05/2003
|
| Segurança |
|
‘‘O
policial corrupto é o pior bandido”
Paulo Lacerda, diretor-geral
da Polícia Federal, diz que
combate ao crime organizado deve começar com cerco
à polícia comprometida |
Ricardo
Miranda
| |
 |
| |
“Se os traficantes estivessem satisfeitos e em paz, não
estariam utilizando essas
ações de guerrilha urbana” |
O delegado aposentado Paulo Lacerda, diretor-geral da Polícia
Federal, prepara sua estratégia para combater o crime organizado
com uma “obsessão” na cabeça: combater
a corrupção policial que, segundo ele, está
em toda parte. “Não existe crime organizado se não
existir uma polícia comprometida”, ensina Lacerda.
“O combate à corrupção policial é
prioridade número 1”, garante. No momento em que a
segurança pública do País trava uma guerra
de vida ou morte contra chefes do crime robustecidos por anos de
inoperância do Estado, Lacerda, 57 anos, diz que vive o maior
desafio de sua vida. Trabalhou 15 anos como bancário, 20
como delegado da PF e seis como assessor especial no Senado, auxiliando
CPIs (Comissões Parlamentares de Inquérito). Na PF
desde 1975, ganhou fama – e inimigos – ao elucidar o
Esquema PC, comandado por Paulo César Farias, tesoureiro
de campanha de Fernando Collor. Apontado como um craque na arte
de investigar crimes do colarinho branco, foi o criador da Divisão
de Repressão ao Crime Organizado e Inquéritos Especiais
(Decoie), grupo de elite especializado em crimes financeiros. Xerife
de Lula, Lacerda prepara a criação de uma coordenação
especializada no combate ao tráfico de armas e promete isolar
presos perigosos em cadeias federais. Em seu gabinete na sede da
PF em Brasília, Lacerda disse a ISTOÉ que não
se desmonta o tráfico matando traficantes e criticou o destaque
dado pela mídia ao narcoterrorismo no Rio de Janeiro. Segundo
ele, a guerra não está perdida.
ISTOÉ – O País está perdendo
a guerra para o crime organizado?
Paulo Lacerda – Não. O que está havendo,
especialmente no Rio, é uma reação do crime
organizado ao cerco da polícia. Se a gente parar de incomodá-los,
eles vão vender a cocaína deles e vão intensificar
seus negócios sujos. Se estivessem satisfeitos e em paz,
não estariam utilizando essas ações de guerrilha
urbana. E não se enganem. Eles vão reagir ainda mais
na medida em que aumentarmos o cerco.
ISTOÉ – O que querem os traficantes fechando
vias expressas, incendiando ônibus e atirando em hotéis,
shoppings e pontos turísticos do Rio?
Lacerda – A imprensa é fundamental para
alertar a sociedade do que está acontecendo, mas às
vezes dá uma dimensão exagerada. Ela não cria
o fato, mas o amplifica e isso gera consequências. Passa um
traficante e dá um tiro na porta de um hotel sem atingir
ninguém. No dia seguinte, a câmera focaliza o local
onde entrou o projétil. Manchete de primeira página:
“Atentado contra o Hotel Glória.” Aquilo é
tudo o que o traficante está querendo: alarmar a sociedade.
Ajudaria muito se a mídia procurasse dar a dimensão
adequada. É nota, não é manchete. Vou contar
como a coisa funciona. Morre um traficante. Aí chega o “Zé
Mané”, que quer assumir o lugar do outro. Mas ele não
tem espaço, não é ninguém. Como aparecer?
Chega na frente do Copacabana Palace e joga uma cabeça de
negro numa vidraça. Saiu na mídia, o cara lá
se valorizou. Vocês valorizaram ele. É isso que ele
quer. Esse marketing do tráfico não é bom para
a sociedade.
ISTOÉ – O que diferencia o tráfico
de drogas no Brasil?
Lacerda – A luta de mercado dos traficantes pelos
grandes centros consumidores do planeta ganha em cidades como o
Rio de Janeiro cores de guerra por causa das armas nas mãos
dos criminosos. Por isso decidimos criar uma coordenação
específica de repressão a armas ilícitas e
criaremos em todas as superintendências regionais uma delegacia
especializada de repressão a armamentos. Vamos sair em campo
atrás das armas ilegais que entram no País.
ISTOÉ – Existe algum Pablo Escobar brasileiro
(chefão do tráfico colombiano morto em 1993), algum
barão do tráfico no Brasil?
Lacerda – Não estamos, ainda, no mesmo
patamar de uma Colômbia para colocar quem quer que seja no
nível de um Pablo Escobar. O Fernandinho Beira-Mar não
chega perto. Ele se notabilizou especialmente pelo fato de ter ido
para a Colômbia e ter se ligado às Farc (Forças
Armadas Revolucionárias da Colômbia, grupo terrorista
ligado aos traficantes) para trocar cocaína por armas. Só
que acima dele já tinha outro, que está preso, o Leonardo
Dias de Mendonça, que praticamente introduziu o Fernandinho
naqueles cartéis colombianos.
|