| BRASIL |
28/05/2003
|
| Política |
|
Governo
& governo
Discussão sobre a taxa de juros
revela divisão no núcleo do
poder: por enquanto, Lula está com os conservadores |
Luiz
Cláudio Cunha e Sônia Filgueiras
| |
 |
| |
O vice José Alencar e Lula: o clima está tenso |
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que gosta tanto
de imagens futebolísticas, viu o jogo da economia cair na
boca do povo. O placar da semana passada poderia resumir assim a
mais retumbante reunião do Conselho de Política Monetária
do Banco Central (Copom), que decidiu na quarta-feira 21 o jogo
bruto dos juros, mantendo em sobressalto a torcida brasileira. De
goleada, por sete a zero, os membros do Copom decidiram sustentar
a taxa básica dos juros no patamar de 26,5%. Porém,
mais do que torcidas ou discursos, o confronto mensal do Copom exibiu
uma face inédita do governo Lula: a divisão interna.
Ainda na parábola futebolística de Lula, a divisão
poderia ser expressa em times de futebol. Uma esquadra retranqueira
que veste a camiseta da Fazenda e tem o líbero Antônio
Palocci como astro principal jogou pelo regulamento do mercado,
que aposta na tática ortodoxa de defesa dos juros altos para
conter o ataque da inflação. Do outro lado, o time
mais ousado, onde desponta o centro-avante José Alencar,
vice-presidente da República, que joga para forçar
a queda dos juros e injetar adrenalina na economia o mais rapidamente
possível. No grupo do ministro da Fazenda, Antônio
Palocci, brilham ainda o temido José Dirceu, dono do meio-campo
governista e ministro da Casa Civil, o disciplinado Henrique Meirelles,
presidente do Banco Central, o deputado João Paulo Cunha,
presidente da Câmara dos Deputados, e Ciro Gomes, ministro
da Integração Nacional. No time de Alencar, industrial
e vice-presidente, despontam o aguerrido senador Aloizio Mercadante,
líder do governo no Senado, o cerebral Guido Mantega, ministro
do Planejamento, o explosivo Carlos Lessa, presidente do BNDES,
e figuras dos partidos aliados, como o deputado e ex-czar dos governos
militares Delfim Netto (PP-SP).
Foi Alencar quem, em Minas Gerais, desferiu o chute mais violento,
na terça-feira 20. “Não podemos ficar à
mercê deste pessoal que nos colocou no cabresto. Precisamos
ver a competência do Banco Central para negociar direito isso”,
atacou, num encontro com prefeitos, reafirmando suas críticas
ao BC. No dia seguinte, o Copom revelou ao País o que o vice-presidente
mais temia: a manutenção dos juros básicos
em 26,5%. A quinta – e mais polêmica – reunião
do Copom no governo Lula escancarou ao País essa briga intestina.
Quem defende o crescimento esperava uma queda de pelo menos 0,5%.
O governo deu sua “justificativa técnica”. A
inflação caiu e deve continuar nessa trajetória,
mas haverá soluços em julho, com reajustes de energia
elétrica. Além disso, a queda dos preços no
atacado registrada em maio ainda não repercutiu no varejo,
ou seja, no bolso do consumidor. Portanto, o governo teria achado
melhor consolidar o processo de queda, antes de qualquer ousadia.
Argumentou-se ainda que o mundo lá fora não estaria
ajudando: os indicadores apontam para recessão nos Estados
Unidos e estagnação na Europa. “Queremos crescimento
consistente, sustentável e duradouro. Não se pode
tirar o remédio em hora errada”, reforçou Palocci
no XV Fórum Nacional do BNDES, no Rio de Janeiro, na quinta-feira
22, onde também falaram Mantega e Meirelles.
| |
 |
| |
O guardião: Meirelles, do BC, com as
benções de Palocci e Dirceu |
Na semana anterior ao Copom, a economia navegava bem. Os políticos
recebiam do governo bons sinais: os juros poderiam baixar, respaldados
em sólidas avaliações técnicas. “A
pressão pela baixa nos juros foi tão exagerada que
teve um efeito contrário”, reconhecia um líder
do governo na Câmara. Coube ao presidente da Casa, João
Paulo Cunha, ecoar a queixa do Planalto. “Os responsáveis
pela manutenção da taxa de juros são os tagarelas
que falaram demais antes da reunião do Copom”, atacou.
“Lula herdou um país muito endividado, dependente e
vulnerável”, emenda o empresário Oded Grajew,
assessor econômico do presidente. Fiel às parábolas
do chefe, Grajew lembra: “Todo mundo quer o Ronaldinho jogando
no seu time. Mas, quando ele voltou antes do tempo, estourou o joelho.
Com os juros, é assim.” Mas o resultado da decisão
do Copom foi mais severo do que se imagina.
|