| ARTES
& ESPETÁCULOS |
28/05/2003
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| Música |
Só pra contrariar
O ex-pagodeiro Alexandre Pires consagra-se
no estilo romântico e acaba de ser eleito o artista latino do ano
pela revista Billboard
Luiza Villaméa – Nova York
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Alexandre,
no Remy Lounge, em Nova York: baladas românticas e
barriga de tanquinho à mostra |
Quando eles gritam seu nome, o “x” de Alexandre soa
como “s”. Inconfundível, o sotaque hispânico
é maioria entre os fãs nova-iorquinos do cantor Alexandre
Pires, o antigo vocalista do grupo Só pra Contrariar, que
vive uma promissora carreira internacional. Recém-eleito
o melhor artista latino pela revista americana Billboard,
ele mereceu noite de gala ao colher os resultados de seu primeiro
disco solo em espanhol, Alexandre Pires, cujo principal sucesso
é a música Usted se me llevó la vida.
Deixou a festa em Miami com lugar assegurado entre as estrelas latinas
que venceram em território americano, como o porto-riquenho
Ricky Martin, o espanhol Enrique Iglesias e a cubana Gloria Estefan.
Foi ao lado de Gloria, por sinal, que Alexandre deu seu primeiro
passo rumo às paradas internacionais, ao gravar o dueto Santo,
santo, em 1999, quando ainda fazia parte do SPC. Na semana passada,
ao desembarcar em Nova York na condição de único
brasileiro contratado pela gravadora BMG US Latin, Alexandre era
alvo de mimos diversos, entre eles uma limusine escandalosamente
branca. “Eles sempre me mandam essa banheira”, reclamou
em tom suave, mas firme. “Prefiro andar de camionete.”
Poucas horas depois, tinha à sua disposição
carros mais discretos, como um utilitário esportivo Lincoln
Navigator.
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A contrapartida para o tratamento de estrela se chama trabalho.
Nessa fase de divulgação de seu novo CD em espanhol,
Estrella guía, teve dias em que Alexandre acordava
antes das 5 da manhã e só parava de trabalhar depois
das 10 da noite. Disciplinado, nunca atrasava a agenda apertada,
que incluía entrevistas ao vivo em rádio e tevê.
Perfeccionista, tentava deixar tudo nos trinques. Em uma das tardes,
em vez de se permitir uma pausa, preferiu repassar o som infinitas
vezes no Remy Lounge, uma casa noturna a poucas quadras de onde
ficavam as duas torres do World Trade Center. Embora não
tenha aprovado o resultado, quando voltou ao palco à noite
não deixou transparecer o menor aborrecimento. Pela animação
da platéia – predominantemente feminina –, ele
agradaria mesmo se desafinasse. Como tem a voz límpida e
o corpinho malhado, faz um sucesso absurdo. Com o sangue latino
fervendo nas veias, as mulheres não querem só ouvi-lo.
Querem pegar, abraçar, beijar. Do alto de seus 44 anos, a
dominicana Doris Peña não hesitou quando teve Alexandre
ao alcance das mãos. Apalpou com entusiasmo o bumbum do cantor.
“Minha mãe, de 77 anos, também é louca
por ele”, tentou justificar Doris.
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“Eu
não nasci
de Armani, mas
me ensinaram
a gostar” |
O clima erótico aumentou ainda mais quando Alexandre apresentou
a música Quitemonos la ropa, do novo CD, cuja letra
exalta o contato com a pele desnuda. Atendendo aos apelos da platéia,
o cantor tirou a jaqueta, deixando à mostra bíceps
de fazer inveja em muito marmanjo. A barriga, estilo tanquinho,
também não é para ninguém botar defeito.
Embora as fãs insistissem que ele continuasse o strip-tease,
o cantor não foi além. Mais tarde, confidenciou a
ISTOÉ que não se sente um homem-objeto. “O jogo
de sedução faz parte do trabalho. Não posso
ficar com uma postura de robô, cheio de não-me-toques”,
disse. Exibir-se sem constrangimentos exige cuidados. Para a voz,
nada de gelo. Nos restaurantes, pede para colocar o suco de laranja
no microondas por 15 segundos. Para o corpo, malhação
e mais malhação. Nas viagens, sempre exige hotéis
com academias bem equipadas. Ao vestir, está cada vez mais
básico. “Eu não nasci de Armani, mas me ensinaram
a gostar. Só que hoje já não tenho esse tipo
de obsessão”, comenta.
Outra mudança radical, que coincide com a saída do
SPC, se deu no estilo musical. Gravado em espanhol, Estrella
guía é uma coleção de baladas românticas,
marcadas pela profusão de teclados e cordas.
Ao contrário de Ricky Martin e Gloria Estefan, que costumam
fazer incursões em seus ritmos de origem, não se reconhece
o Brasil no CD
de Alexandre. Nada de samba, pagode e outros remelexos. As únicas
pistas verde-amarelas são uma batida eletrônica em
ritmo de bloco afro-baiano na faixa Prisionero de amor e
algumas frases cantadas em português pela atriz e cantora
espanhola Rosario Flores, no dueto Inseguridad. “Ainda
estou buscando uma identidade musical. Não posso abandonar
minhas raízes. Meu sonho é fazer música brasileira
em outros idiomas”, assume o cantor. Por enquanto, ele não
se arrisca a cantar
em inglês. Em espanhol, já alcançou relativa
fluência. É nesse idioma que fará a próxima
turnê internacional, a partir de setembro. Não deixará,
no entanto, de dar suas canjas em português. No Remy Lounge,
por exemplo, surpreendeu ao fechar o show com Garota de Ipanema,
de Vinicius de Moraes e Tom Jobim.
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