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 ARTES & ESPETÁCULOS 28/05/2003
Livros

Grand finale
O afinador de piano vale pelo desfecho

Eliane Lobato

  Divulgação
  Mason: longas descrições compensadas pela reviravolta no enredo

A crença cristã de que é preciso sofrer muito para alcançar o reino dos céus é invocada mais uma vez em O afinador de piano, de Daniel Mason (Companhia das Letras, 398 págs., R$ 41). O que significa atravessar páginas e páginas de descrições entediantes sobre uma viagem para, enfim, chegar a uma bela história e um magistral desenlace. Do total de páginas do livro, 210 são gastas para contar a travessia de Edgar Drake entre Londres e o Forte Mae Lwin, em território birmanês, passando pelo Mediterrâneo, o Mar Vermelho e o mar da Arábia, sem falar de metade da Índia, cruzando o golfo de Bengala e atravessando rios como o Irrawaddy. Drake fora contratado pelo exército inglês para afinar um piano Érard de um major importante nas articulações políticas do imperialismo britânico do século XIX.

O personagem-título é seduzido pela idéia de que o major Anthony Carrol, manda-chuva do forte no meio da floresta, só pode ser uma pessoa especial, já que usa um piano para conter a guerra – e ele tem “enorme respeito por todos que encontram música na responsabilidade.” Quando finalmente os dois se encontram e a história deslancha, enfrentam-se outras pencas de páginas sobre funcionamento e afinamento de piano que só interessam, sinceramente, a quem é do ramo. Descontados esses deslizes, O afinador de piano tem cenas belíssimas dignas de Fitzcarraldo, o fantástico filme do alemão Werner Herzog. Como quando Drake, já ciente do quanto fora inocente útil num cruel jogo político, vê a balsa com o piano serpenteando pela fúria de um rio sob forte chuva. Difícil definir o que comove mais, se seu desespero tentando salvar o Érard ou o próprio piano, com as “teclas feridas”, “pancadas a rasgar-lhe o mogno” e as cordas sendo cortadas violentamente, emitindo sons que reverberavam pela floresta como gemidos.

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