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 ENTREVISTA
28/05/2003

ISTOÉ – Quais os outros problemas causados pela doença?
Ramacciotti –
Outro risco da TVP é a síndrome pós-trombótica. O doente que tem uma trombose, mesmo tratando de forma adequada, raramente consegue desobstruir 100% da veia acometida. O paciente fica com uma sequela, que é uma hipertensão venosa profunda. Ela pode causar varizes, dermatites e úlceras de pernas, entre outros problemas. Esse tipo de hipertensão acomete de 0,5% a 2% da população brasileira. O que é um problema de saúde pública grave.

ISTOÉ – Não cuidar dessa síndrome acaba saindo caro?
Ramacciotti –
Um recente estudo nosso mostra que, aqui no Brasil, cuidar da síndrome pós-trombótica grave durante um ano custa de R$ 3 mil até R$ 8 mil por ano por paciente, levando em conta as cirurgias para tratar úlceras, medicamentos e afastamento do trabalho. É muito mais barato prevenir e cuidar corretamente para evitar as complicações.

ISTOÉ – Quais os objetivos da campanha realizada pela Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular?
Ramacciotti –
Ela visa conscientizar a população e os médicos. Estão sendo distribuídos 140 mil folhetos sobre a doença para o público em ações que acontecem em aeroportos e shoppings, além de anúncios em veículos de comunicação e outdoors espalhados nas principais capitais, entre outras coisas. O aumento do fluxo nos consultórios está mostrando que a iniciativa tem surtido efeito. As pessoas têm nos procurado. A campanha conta também com um site (www.riscotvp.com.br), que informa a população a respeito da doença. E temos desenvolvido um programa de treinamento para os médicos.

ISTOÉ – Por quê? Eles não estão preparados para identificar os casos e tratar os pacientes?
Ramacciotti –
Teriam de estar. Temos dados que mostram que apenas 38% dos médicos brasileiros estão preparados para diagnosticar a enfermidade. Por isso, temos dado palestras sobre como prevenir, diagnosticar e tratar. Todo cirurgião e todos os que internam doentes, independentemente da especialidade, devem estar habilitados para detectar e tratar a TVP.

ISTOÉ – Quem são as pessoas mais suscetíveis à TVP?
Ramacciotti –
Existe uma explicação da medicina que determina três fatores que levam à trombose. Para o sangue virar uma espécie de gelatina dentro da veia, é preciso a ocorrência de alterações de coagulação, ficar por um período muito longo parado ou ter lesão das células que recobrem o interior dos vasos. Esses três fatores explicam a trombose. E permitem imaginar quais as pessoas mais suscetíveis. Indivíduos que ficam imobilizados por períodos prolongados, que passaram por grandes cirurgias, fazem uso de terapia de reposição hormonal e de contraceptivo oral, são portadores de doenças clínicas graves, como insuficiência cardíaca, e que se submetem à radioterapia e quimioterapia são alguns dos mais expostos à TVP. Nós sabemos que há fatores genéticos que tornam algumas mais suscetíveis.

ISTOÉ – Quais são eles?
Ramacciotti –
Sabemos que pessoas com história familiar de trombose têm maior propensão à doença. Isso porque já identificamos alguns fatores genéticos que deixam as pessoas em situações que chamamos de pró-coagulantes. Esses indivíduos, quando expostos aos riscos da TVP, têm mais chance de desenvolver a enfermidade. É importante que, antes de procurar o médico, as pessoas saibam se há na família parentes com TVP. O fato de ter um familiar que teve ou tem trombose é importante na hora em que o indivíduo vai fazer uma cirurgia, por exemplo, já que essa é uma situação de risco.

ISTOÉ – Qual o processo orgânico que leva à TVP?
Ramacciotti –
A trombose é um processo fisiológico. Toda manhã, me corto quando me barbeio. Meu organismo forma um coágulo para estancar o sangue, só que o corpo tem um sistema anti-trombótico natural que impede que essa trombose progrida e me cause algum mal. Quando esse processo de autoproteção do corpo é quebrado por um longo período de cama, por um câncer ou por uma cirurgia, entre outras situações, a pessoa fica exposta à TVP. Obesidade e varizes também são fatores de risco. O que não significa que quem tem varizes vai ter trombose, mas, sim, que corre mais risco do que as que não têm. A mesma coisa ocorre com a obesidade.

ISTOÉ – Quais os principais sintomas da TVP?
Ramacciotti –
Dor forte na extremidade acometida, que vem acompanhada de um inchaço característico que chamamos de empastamento, por deixar a região dura. Isso pode vir associado
de aumento de temperatura e dor quando há movimento ou quando
se palpa a área afetada.

ISTOÉ – Qual o exame para detecção do problema?
Ramacciotti –
O mais eficiente é uma ultra-sonografia especial que mapeia o sistema circulatório. O aparelho mede a velocidade do fluxo sanguíneo. No ponto onde há trombose, não tem fluxo.

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