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 ENTREVISTA
28/05/2003
Ameaça desconhecida
O médico Eduardo Ramacciotti alerta para a gravidade
da trombose venosa profunda, doença que mata cerca
de 50 mil pessoas nos EUA

Lia Bock

Ricardo Giraldez

O nome da doença é complicado: trombose venosa profunda (TVP). Mas quando é pronunciado pelo cirurgião vascular Eduardo Ramacciotti torna-se algo mais fácil de entender. Apaixonado por sua profissão, ele está empenhado na prevenção dessa enfermidade, grave e pouco conhecida. Sua luta é tornar a TVP um assunto para ser discutido mais amplamente, criando um contexto ideal para que todos saibam como ela pode aparecer, quais as situações de risco, como se prevenir e os prejuízos que a doença pode causar. Não é por acaso que Ramacciotti é um dos coordenadores da campanha de prevenção da TVP, realizada pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Vascular por meio de outdoors, anúncios e folhetos.

A TVP caracteriza-se pelo surgimento de um coágulo que obstrui uma veia, geralmente na perna, e que pode acabar em uma embolia pulmonar e levar à morte. A doença ganhou visibilidade quando os especialistas começaram a falar na síndrome da classe econômica, problema que acomete pessoas que passam muito tempo paradas na mesma posição – por isso o nome, numa referência aos passageiros que ocupam a parte menos privilegiada e mais barata das aeronaves. A síndrome pode levar ao desencadeamento da TVP. Ramacciotti acredita que há um certo exagero quando se fala na síndrome, mas pondera que o destaque dado ao assunto foi bom para deixar a população mais familiarizada com a TVP, doença que só nos Estados Unidos mata cerca de 50 mil pessoas por ano. “Não é qualquer um que entra em um avião para uma viagem na classe econômica que vai ter TVP”, esclarece. Foi em um intervalo entre as aulas na Faculdade de Medicina do ABC (SP), o atendimento no consultório, as ações da campanha de prevenção da doença e seus shows em bares com a banda Selma Lins, na qual é o guitarrista que Ramacciotti, 36 anos, conversou com ISTOÉ.

ISTOÉ – O que é a TVP?
Eduardo Ramacciotti –
A trombose venosa profunda caracteriza-se pela formação de coágulos no sistema venoso profundo, ou seja, nas veias profundas. O mais frequente é esse processo ocorrer nas pernas. Mas ele pode aparecer no braço, no intestino ou em qualquer área que tenha veias profundas. A TVP atinge muita gente. Nos Estados Unidos, cerca de 500 mil pessoas têm TVP por ano. Lá, cerca de 50 mil óbitos são registrados anualmente decorrentes de suas complicações. No Brasil, o que sabemos é que a incidência de TVP é de 0,8 a 1 caso para cada mil habitantes. Ou seja, numa cidade com 100 mil habitantes, há 100 casos de TVP por ano.

ISTOÉ – Quais são as suas complicações?
Ramacciotti –
Se a veia que se entope faz a drenagem da perna, a perna inteira sente. Se for muito grave, pode acontecer um problema sistêmico, como queda de pressão. Mas se esse trombo se desprende do local onde foi originado, segue com o fluxo sanguíneo e chega ao pulmão, o que invariavelmente causa uma embolia pulmonar. Se o coágulo obstrui um vaso sanguíneo menor dentro do pulmão, o problema é mais leve. Mas se a artéria atingida for uma das principais, pode haver parada respiratória e morte. Estima-se que 11% das embolias pulmonares matam na primeira hora, mas a grande maioria não é fatal. O problema é que a embolia é de difícil diagnóstico clínico. O quadro é de dor no peito e falta de ar, o que não deixa muito claro do que se trata. É preciso associar o quadro clínico com o diagnóstico. Mas é possível ter a TVP assintomática e não acontecer nada. Há casos em que o diagnóstico é feito apenas anos depois, quando a pessoa começa a ter sequela na perna.

ISTOÉ – O coágulo sempre se desprende?
Ramacciotti –
Não. Apenas em alguns casos ele segue rumo ao pulmão.

ISTOÉ – Qual o tempo entre uma pessoa desenvolver TVP e ter uma embolia pulmonar?
Ramacciotti –
Varia. Há pessoas que em poucas horas desenvolvem a trombose, têm o quadro clínico de dor e inchaço e imediatamente sofrem uma embolia pulmonar. Outras fazem uma cirurgia, por exemplo, e só manifestam o problema depois de dias.

ISTOÉ – A embolia pulmonar está sempre relacionada com a TVP?
Ramacciotti –
Em 95% dos casos sim. Fizemos uma pesquisa em 132 mil necropsias realizadas nos últimos dez anos em São Paulo e observamos que 16% das pessoas acima de 60 anos tiveram embolia pulmonar. Não sabemos se foi a causa da morte ou não, mas isso mostra que é uma doença muito frequente.

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