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| Ameaça
desconhecida |
O
médico Eduardo Ramacciotti alerta para a gravidade
da trombose venosa profunda, doença que mata cerca
de 50 mil pessoas nos EUA |
Lia
Bock
O nome da doença é complicado: trombose venosa profunda
(TVP). Mas quando é pronunciado pelo cirurgião vascular
Eduardo Ramacciotti torna-se algo mais fácil de entender.
Apaixonado por sua profissão, ele está empenhado na
prevenção dessa enfermidade, grave e pouco conhecida.
Sua luta é tornar a TVP um assunto para ser discutido mais
amplamente, criando um contexto ideal para que todos saibam como
ela pode aparecer, quais as situações de risco, como
se prevenir e os prejuízos que a doença pode causar.
Não é por acaso que Ramacciotti é um dos coordenadores
da campanha de prevenção da TVP, realizada pela Sociedade
Brasileira de Cirurgia Vascular por meio de outdoors, anúncios
e folhetos.
A TVP caracteriza-se pelo surgimento de um coágulo que
obstrui uma veia, geralmente na perna, e que pode acabar em uma
embolia pulmonar e levar à morte. A doença ganhou
visibilidade quando os especialistas começaram a falar na
síndrome da classe econômica, problema que acomete
pessoas que passam muito tempo paradas na mesma posição
– por isso o nome, numa referência aos passageiros que
ocupam a parte menos privilegiada e mais barata das aeronaves. A
síndrome pode levar ao desencadeamento da TVP. Ramacciotti
acredita que há um certo exagero quando se fala na síndrome,
mas pondera que o destaque dado ao assunto foi bom para deixar a
população mais familiarizada com a TVP, doença
que só nos Estados Unidos mata cerca de 50 mil pessoas por
ano. “Não é qualquer um que entra em um avião
para uma viagem na classe econômica que vai ter TVP”,
esclarece. Foi em um intervalo entre as aulas na Faculdade de Medicina
do ABC (SP), o atendimento no consultório, as ações
da campanha de prevenção da doença e seus shows
em bares com a banda Selma Lins, na qual é o guitarrista
que Ramacciotti, 36 anos, conversou com ISTOÉ.
ISTOÉ – O que é a TVP?
Eduardo Ramacciotti – A trombose venosa profunda
caracteriza-se pela formação de coágulos no
sistema venoso profundo, ou seja, nas veias profundas. O mais frequente
é esse processo ocorrer nas pernas. Mas ele pode aparecer
no braço, no intestino ou em qualquer área que tenha
veias profundas. A TVP atinge muita gente. Nos Estados Unidos, cerca
de 500 mil pessoas têm TVP por ano. Lá, cerca de 50
mil óbitos são registrados anualmente decorrentes
de suas complicações. No Brasil, o que sabemos é
que a incidência de TVP é de 0,8 a 1 caso para cada
mil habitantes. Ou seja, numa cidade com 100 mil habitantes, há
100 casos de TVP por ano.
ISTOÉ – Quais são as suas complicações?
Ramacciotti – Se a veia que se entope faz a drenagem
da perna, a perna inteira sente. Se for muito grave, pode acontecer
um problema sistêmico, como queda de pressão. Mas se
esse trombo se desprende do local onde foi originado, segue com
o fluxo sanguíneo e chega ao pulmão, o que invariavelmente
causa uma embolia pulmonar. Se o coágulo obstrui um vaso
sanguíneo menor dentro do pulmão, o problema é
mais leve. Mas se a artéria atingida for uma das principais,
pode haver parada respiratória e morte. Estima-se que 11%
das embolias pulmonares matam na primeira hora, mas a grande maioria
não é fatal. O problema é que a embolia é
de difícil diagnóstico clínico. O quadro é
de dor no peito e falta de ar, o que não deixa muito claro
do que se trata. É preciso associar o quadro clínico
com o diagnóstico. Mas é possível ter a TVP
assintomática e não acontecer nada. Há casos
em que o diagnóstico é feito apenas anos depois, quando
a pessoa começa a ter sequela na perna.
ISTOÉ – O coágulo sempre se desprende?
Ramacciotti – Não. Apenas em alguns casos
ele segue rumo ao pulmão.
ISTOÉ – Qual o tempo entre uma pessoa desenvolver
TVP e ter uma embolia pulmonar?
Ramacciotti – Varia. Há pessoas que em poucas
horas desenvolvem a trombose, têm o quadro clínico
de dor e inchaço e imediatamente sofrem uma embolia pulmonar.
Outras fazem uma cirurgia, por exemplo, e só manifestam o
problema depois de dias.
ISTOÉ – A embolia pulmonar está sempre
relacionada com a TVP?
Ramacciotti – Em 95% dos casos sim. Fizemos uma pesquisa
em 132 mil necropsias realizadas nos últimos dez anos em
São Paulo e observamos que 16% das pessoas acima de 60 anos
tiveram embolia pulmonar. Não sabemos se foi a causa da morte
ou não, mas isso mostra que é uma doença muito
frequente.
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