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 EDITORIAL
28/05/2003

Ousar mudar

Reza a tradição política brasileira que vice-presidente bom é aquele que não dá entrevistas, não faz intriga nos bastidores, não aparece na imprensa. Durante os oito anos do reinado de FHC, o pernambucano Marco Antônio Maciel vestiu este modelito. Era o vice dos sonhos: sempre em sintonia com o titular do cargo. Nenhuma divergência entre eles chegou aos mortais contribuintes e eleitores do País. Com a posse de Lula, as coisas mudaram. Os palácios da Alvorada e do Jaburu – residências oficiais do presidente e de seu vice, José Alencar – são comandados por Marisas, mas a convivência entre as duas famílias Silva já não tem a mesma harmonia da campanha.

O presidente sempre teve em Alencar um amigo. Durante as muitas atividades eleitorais, foram estreitando os laços de confiança. A ponto
de Lula considerar o vice um parente próximo, quase um pai que ele não teve. O afastamento entre os dois é por uma questão que também divide o governo, os partidos aliados, os economistas: a estratosférica taxa de juros, que represa o desenvolvimento, poda empregos e esmaga a produção. A reportagem de Luiz Cláudio Cunha e Sônia Filgueiras (a partir da pág. 24) mostra que, aos cinco meses de vida, o governo Lula convive com um racha que, a persistir, pode determinar a cara com que o PT vai entrar para a história. É compreensível o cuidado do Banco Central, do ministro Palocci e, consequentemente, do próprio presidente com o fantasma da inflação, mas um pouco de ousadia não faria mal a um governo que se elegeu vendendo a esperança como principal mote. Por enquanto, a turma “do pé no freio” vai levando vantagem sobre
quem deseja acelerar.

O papel de Alencar, como uma espécie de consciência crítica, é fundamental. Afinal, o vice é um empresário bem-sucedido que conhece na pele os problemas da falta de crédito e das dificuldades em crescer sob uma taxa de juros inadministrável. O debate, mesmo arranhando amizades e consolidando divisões internas, é salutar e coerente com a história do PT. Lavar roupa suja em público pode ser positivo, se a grita da sociedade produtiva – empresários e trabalhadores – for ouvida. Cautela e canja de galinha não fazem mal, mas a coragem de alterar a rota para experimentar outros rumos é o que marca os grandes governos.

Hélio Campos Mello, Diretor de Redação

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