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Ousar
mudar
Reza a tradição política brasileira que vice-presidente
bom é aquele que não dá entrevistas, não
faz intriga nos bastidores, não aparece na imprensa. Durante
os oito anos do reinado de FHC, o pernambucano Marco Antônio
Maciel vestiu este modelito. Era o vice dos sonhos: sempre em sintonia
com o titular do cargo. Nenhuma divergência entre eles chegou
aos mortais contribuintes e eleitores do País. Com a posse
de Lula, as coisas mudaram. Os palácios da Alvorada e do
Jaburu – residências oficiais do presidente e de seu
vice, José Alencar – são comandados por Marisas,
mas a convivência entre as duas famílias Silva já
não tem a mesma harmonia da campanha.
O presidente sempre teve em Alencar um amigo. Durante as muitas
atividades eleitorais, foram estreitando os laços de confiança.
A ponto
de Lula considerar o vice um parente próximo, quase um pai
que ele não teve. O afastamento entre os dois é por
uma questão que também divide o governo, os partidos
aliados, os economistas: a estratosférica taxa de juros,
que represa o desenvolvimento, poda empregos e esmaga a produção.
A reportagem de Luiz Cláudio Cunha e Sônia Filgueiras
(a partir da pág. 24) mostra que, aos cinco meses de vida,
o governo Lula convive com um racha que, a persistir, pode determinar
a cara com que o PT vai entrar para a história. É
compreensível o cuidado do Banco Central, do ministro Palocci
e, consequentemente, do próprio presidente com o fantasma
da inflação, mas um pouco de ousadia não faria
mal a um governo que se elegeu vendendo a esperança como
principal mote. Por enquanto, a turma “do pé no freio”
vai levando vantagem sobre
quem deseja acelerar.
O papel de Alencar, como uma espécie de consciência
crítica, é fundamental. Afinal, o vice é um
empresário bem-sucedido que conhece na pele os problemas
da falta de crédito e das dificuldades em crescer sob uma
taxa de juros inadministrável. O debate, mesmo arranhando
amizades e consolidando divisões internas, é salutar
e coerente com a história do PT. Lavar roupa suja em público
pode ser positivo, se a grita da sociedade produtiva – empresários
e trabalhadores – for ouvida. Cautela e canja de galinha não
fazem mal, mas a coragem de alterar a rota para experimentar outros
rumos é o que marca os grandes governos.
Hélio Campos Mello, Diretor de Redação
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