| ARTES
& ESPETÁCULOS |
02/04/2003
|
 |
| Cinema |
Mísseis verbais
Sem o brilho habitual, a 75ª edição
do Oscar vira
palanque de repúdio ao ataque americano
Ivan Claudio
 |
|
| Brody
e Nicole: vencedores nas categorias de ator e atriz |
|
O fuscada pelo baixo-astral dos ataques dos Estados Unidos ao Iraque,
a cerimônia de entrega do 75º Oscar, ocorrida no domingo
23, em Los Angeles, perdeu grande parte de seu brilho, apresentando
números musicais pouco exuberantes, sem muitos efeitos especiais
e sem o habitual excesso kitsch. Bem que o apresentador Steve Martin
tentou quebrar a tensão do espetáculo com um bom repertório
de piadas. Mas a noite estava mais para discursos de alguns vencedores
ou protestos velados dos muitos homens
da ala pacifista que usavam broches de pombas da paz na lapela de
seus paletós, num ato de evidente repúdio à
política bélica do presidente George W. Bush. Foi
também um Oscar de surpresas – como a premiação
de melhor diretor a Roman Polanski pelo sensível O pianista
e a de melhor ator
a Adrien Brody, protagonista do mesmo filme – e de previsibilidade,
como a celebração do divertido musical Chicago,
vencedor de seis estatuetas, entre elas a de melhor filme e melhor
atriz coadjuvante
para a hoje grávida de nove meses Catherine Zeta-Jones. Nicole
Kidman, prêmio de melhor atriz por sua atuação
em As horas,
também não surpreendeu ninguém.
| |
 |
| |
Caetano
e Lila na canção
de Frida: nervosismo |
Do ator mexicano Gael García Bernal ao cineasta espanhol
Pedro Almodóvar, que entrou para o clube dos big five ao
vencer na categoria de melhor roteiro original pelo excelente Fale
com ela, muita gente aproveitou a ocasião para deixar
seu recado de paz e amor. O primeiro a quebrar o protocolo e mandar
às favas a proibição de fazer referência
ao conflito foi Chris Cooper, melhor ator coadjuvante por Adaptação.
Terminou seu agradecimento pedindo paz diante dos problemas pelos
quais atravessa o mundo. Na sequência, Michael Moore, diretor
do melhor documentário com Bowling for Columbine –
que faz uma irônica e arrasadora crítica ao armamento
nos EUA – protagonizou um discurso de efeito tão devastador
quanto um míssil Tomahawk.
 |
|
| Moore:
discurso inflamado |
|
No lado mais ameno da maior festa do cinema, o Brasil foi representado
por Caetano Veloso, nervosíssimo, que cantou em dueto com
Lila Downs a canção Burn it blue, do filme
Frida. E como entre os premiados há sempre um que esnoba
o prêmio, desta vez o protesto coube ao rapper Eminem, estrela
de 8 mile – rua das ilusões e um dos autores
da melhor canção. No entanto, o grande esnobado foi
Martin Scorsese, diretor de Gangues de Nova York, um filme
violento, grandioso e extremamente crítico aos Estados Unidos.
Agraciado com dez indicações, ele saiu de mão
abanando. Os votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas
de Hollywood são mais patriotas que se imaginava.
|