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 ENTREVISTA
02/04/2003
Saúde comprometida
Professor critica a proliferação de faculdades de medicina
e diz que muitos dos recém-formados não têm condições
de tratar mais do que uma gripe

Cilene Pereira e Lena Castellón

Ricardo Giraldez
 

A cada dia que passa, o clínico geral Antônio Carlos Lopes, 54 anos, fica mais surpreso com a qualidade de muitos dos estudantes de medicina que conhece. Ele é presidente da Sociedade Brasileira de Clínica Médica – entidade que congrega os especialistas da área e ajuda a difundir o conhecimento, mantendo o nível de qualidade dos profissionais. É também professor-titular da disciplina de clínica médica da Universidade Federal de São Paulo. Entre outras atribuições, Lopes tem a função de orientar alunos de residência médica (etapa posterior à graduação, importante para a obtenção de título de especialista). E é com terrível perplexidade que o especialista se depara com jovens médicos que nem sequer conhecem a exata localização do coração nem sabem dizer quantas são as válvulas cardíacas. De acordo com o médico, eles são os produtos finais da fábrica de faculdades médicas de péssima qualidade montada no País, nos últimos anos. São médicos sem noções básicas de anatomia, incapazes de realizar um bom exame ou de apresentar um raciocínio clínico que leve a um diagnóstico correto. Ou seja, não estão preparados para exercer a profissão.

Segundo Lopes, dos cerca de dez mil novos médicos formados a cada ano no Brasil, 90% não estão treinados o suficiente para oferecer um bom atendimento e deveriam voltar para os bancos da universidade. “No máximo eles conseguem tratar problemas como uma diarréia. Nada de casos complexos”, afirma. Em sua opinião, quem sai perdendo, obviamente, são os paciente. “Eles estão correndo riscos”, alerta. Ex-presidente do American College of Physicians – maior entidade de clínicos gerais do mundo –, Lopes defende que não seja permitida a abertura de mais nenhuma faculdade médica no Brasil e se realize uma avaliação dos cursos existentes. Ele sugere que aqueles que não apresentarem um nível satisfatório de qualidade sejam fechados. “Muitas faculdades surgiram porque o reitor imaginava que deveria ter um curso de medicina para que sua instituição tivesse mais força. Montava-se um programa pedagógico sem compromisso ético com o ensino e com a comunidade, sem estruturas adequadas e sem hospital universitário”, observa.

O clínico geral também critica a existência dos cursinhos preparatórios para a residência médica, uma invenção brasileira criada para treinar os estudantes para que eles passem nos exames de admissão para esses cursos. “Os alunos do quinto e sexto ano estão sacrificando a graduação no momento em que teriam de aprender raciocínio clínico. Sacrificam esse período para decorar respostas”, diz. Segundo ele, esses cursos provam, com sua existência, que as faculdades não oferecem um ensino de qualidade. Se oferecessem, os cursos não precisariam existir. Formado há 31 anos e pai de três filhos – um médico formado e dois estudantes de medicina –, Lopes diz nesta entrevista a ISTOÉ que se nada for feito a qualidade do atendimento médico prestado no Brasil piora ainda mais.

ISTOÉ – O sr. tem uma visão crítica em relação à formação médica atual. Como era a graduação na sua época e como ela está hoje?
Antônio Carlos Lopes –
Naquela época, tínhamos modelos no
ensino médico. Éramos preparados por professores que, além de
serem bons mestres, eram excelentes profissionais. Valorizavam
o ensino à beira do leito, a relação médico-paciente, o aspecto humanístico da medicina, a ética no ensino. Eles montavam um
currículo que tinha um compromisso com a comunidade. Não era simplesmente para preencher espaço, horário.

ISTOÉ – E o que aconteceu?
Lopes –
Nas escolas tradicionais, federais, estaduais e algumas particulares, esse perfil ainda existe, embora em menor escala.
Por que em menor escala? Porque esses mestres que traziam a experiência da vida profissional para o ensino – muito importante
porque na medicina só pode ensinar quem faz – foram desaparecendo.
E não houve a possibilidade de seus discípulos darem continuidade
àquilo que aprenderam em razão dos problemas de saúde do Brasil
e do avanço da tecnologia. Nesse sentido, passou-se a dar mais
atenção aos aspectos tecnológicos do que ao paciente, tratando-se mais a doença do que o doente. Hoje, há uma preocupação com
a última ressonância magnética, por exemplo, quando na realidade
70% da medicina se resolve à beira do leito, desde que se converse
com o doente, que se saiba examiná-lo. E há outro aspecto importante. Concomitantemente, foram surgindo escolas médicas criadas sem
nenhum compromisso ético com a comunidade.

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