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 EDITORIAL
02/04/2003

A armadilha de Bush

A invasão do Iraque começou mal. Após a primeira semana de guerra já está claro que a arrogância superou a prudência nas estratégias bélicas da coalizão liderada por Bush. Pressionado pela opinião mundial, já furiosa com a invasão, Bush optou por chegar logo a Bagdá e acabar logo com a brincadeira, reduzindo Saddam Hussein a pó. Achou que as forças da coalizão seriam aplaudidas pelos iraquianos, cansados de Saddam. Não está dando certo. A cidade portuária de Umm Qasr, de apenas quatro mil habitantes, demorou quase uma semana para ser tomada. Basra, com 1,3 milhão de habitantes, continua cercada e oferecendo resistência. Os cerca de 20 mil homens da 3ª Divisão de Infantaria Mecanizada cumpriram à risca as ordens e chegaram rapidinho às cercanias de Bagdá. O que foi fatal. Suas preciosas linhas de suprimento – água, comida, munição, combustível –, normalmente mais lentas, ficaram distantes e vulneráveis e vêm sendo atacadas pelos iraquianos. Estes sim não cumpriram os planos de Bush. O presidente americano não esperava resistência de um país destruído e combalido e achava que a facilidade que seu pai teve, em 1991, para tirar os iraquianos do Kuwait seria repetida agora. Bush e seus Rumsfelds e Wolfowitz não pensaram que a grande diferença entre as duas guerras era que, na primeira, os iraquianos foram tirados de um país que haviam invadido. Nessa, eles é que estão sendo invadidos. Por mais que detestem o ditador sanguinário Saddam Hussein, não é ele quem está jogando Tomahawks em suas cabeças e ameaçando invadir seus quintais.

A equação de custo e benefício para Bush não é nada animadora. Se ele entra em Bagdá, a carnificina será inevitável. E de ambos os lados. Se resolve manter um cerco, o sofrimento dos quatro milhões de habitantes da cidade não será suportado pela opinião pública mundial. O que há de bom nesta tragédia é que a doutrina Bush – e a pergunta que a acompanha: o que virá depois do Iraque, a Coréia do Norte, o Irã? – corre o saudável risco de já nascer morta, atingida pela arrogância e insensatez de seus mentores.

Hélio Campos Mello, Diretor de Redação

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