| ARTES
& ESPETÁCULOS |
26/03/2003
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| Cinema |
O lado B da vida
Durval Discos usa do humor
e do drama nonsense para falar da solidão de seus personagens
Apoenan Rodrigues
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Etty
e França: mãe e filho num debate entre
a loucura progressiva e a passividade diante da realidade |
Dono de uma loja que só vende vinil e ignora o CD, Durval
é o próprio retrato de uma época. Ouve música
dos anos 70, usa cabelo comprido e roupas de décadas atrás
e só não é tão hippie quanto seu estilo
denuncia porque ainda mora com a mãe, Carmita, na casa que
é uma extensão da loja anacrônica. Empenhado
em tirar parte da carga doméstica das costas da matriarca,
insiste para que ela arranje uma empregada que cuide da residência
decadente e cheia de quinquilharias. Até aí, Durval
Discos (Brasil, 2002), que estréia em São Paulo
e Porto Alegre na sexta-feira 28, carrega o tom de comédia
apresentando um elenco muito à vontade em tirar humor de
situações corriqueiras. O protagonista Ary França
faz o típico filho único que ainda não se deu
conta de que envelheceu e Etty Frazer desenha uma mãe possessiva
com toda a carga de loucura revelada em progressão geométrica.
À volta deles, aparece Marisa Orth, engordurada e desbocada
no papel da funcionária de uma doçaria vizinha à
loja. Também tem participações afetivas arrebanhadas
pela diretora Anna Muylaert, que bolou uma das aberturas de filmes
mais criativas já vistas no cinema nacional. Assim, pipocam
Rita Lee, alucinada atrás do disco “de capa branca
com assinatura”, de Caetano Veloso; ou André Abujamra
como um pesadão reggae boy interessado em LPs de Bob Marley.
Tudo corre na paz tediosa até aparecer Célia (Letícia
Sabatella), a nova empregada que, três dias depois de contratada,
foge deixando a filha Kiki, interpretada pela ótima garotinha
Isabela Guasco, selecionada entre 100 crianças. A partir
deste momento, o filme entra no seu “lado B”, como define
a diretora Anna, que com este trabalho conquistou sete Kikito no
Festival de Gramado – Cinema Latino e Brasileiro de 2002.
Sempre sublinhando sua história com humor, Anna faz da câmera
uma cúmplice ao mesmo tempo divertida e cruel, ao focar em
detalhes a decadência da diminuta família de classe
média baixa, seja a poeira e a gordura impregnadas no ambiente
físico, seja a carência da mãe e passividade
do filho, desequilibrado entre a insanidade familiar e a realidade
do mundo. Do drama-comédia ao thriller trash, no fundo Durval
Discos mascara a solidão de seus personagens com situações
que, de tão nonsense, provocam risos nervosos.
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