| CIÊNCIA,
TECNOLOGIA & MEIO AMBIENTE |
05/03/2003
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Filhos da pobreza
As estatísticas revelam que,
apesar da queda na natalidade, a miséria e a desigualdade aumentaram
no Brasil
Nilson Lage e Carlos Chernij
Na Idade Média, os sábios da Igreja chegaram à
conclusão de que os inocentes, quando morrem, não
vão para o céu, com os bons cristãos, nem para
o inferno, entre ateus e pecadores. Seguem para o limbo, um estado
de suspensão, neutro e tranquilo. Nem mesmo o limbo poderia
abrigar os 50 ou 60 milhões de brasileiros suprimidos das
estatísticas nos últimos 30 anos. São os bebês
que deveriam ter nascido, mas não foram sequer concebidos.
Tudo começou em 1965, quando foi fundada no Rio de Janeiro
a Sociedade Civil Bem-Estar Familiar no Brasil, ou Bemfam, primeira
e mais conhecida instituição de planejamento familiar
no País. Ela deslanchou em 1974, quando, a partir de um memorando
secreto do secretário de Estado Henry Kissinger, o governo
americano passou a despejar dólares e pressão diplomática
em campanhas de esterilização no Brasil.
A natalidade caía desde 1940, já que as condições
de vida nas sociedades modernas não estimulam a reprodução.
De sete nascimentos por casal, ficara abaixo de seis em 1970, desabando
para duas crianças por família em 2002. Homologado
quase integralmente pelo presidente Gerald Ford, em 1975, o Relatório
Kissinger defende o aborto como método anticoncepcional e
aponta o trabalho das mulheres fora de casa como um incentivo a
“ter menos filhos”. Elege os países nos quais
os EUA “têm interesses políticos e estratégicos”,
o Brasil entre eles.
A partir daí, generalizou-se a esterilização
por ligadura das trompas. Seu principal mérito: era definitiva.
Para justificá-la, o Relatório Kissinger insiste que
nos países pobres “o rápido crescimento populacional
é uma das causas e consequência da pobreza”.
Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios,
do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE),
em 1986, 29,3% das mulheres entre 15 e 54 anos em união estável
estavam esterilizadas;
no mesmo ano, uma pesquisa da Bemfam mostrava que 84% das esterilizações
ocorreram entre 1978 e 1986. Para viabilizá-las, foi
preciso incentivar o parto cirúrgico, ou cesariana. Convênios
em linguagem misteriosa foram firmados com centenas de hospitais
privados e, principalmente, públicos. As clínicas
recebiam, em troca
da adesão ao programa, doações em equipamentos
e material de consumo. Com a justificativa de que se tratava de
aperfeiçoar as operações, equipes foram treinadas
para “aproveitar a cesariana”
e suprimir a possibilidade de reprodução.
Contou-se com a complacência dos médicos, que recebiam
pela cesariana um pouco mais do que no parto normal, além
dos subsídios da instituição promotora da esterilização.
Em 1966, o economista Glycon de Paiva, da Bemfam, previa que se
o Brasil não contivesse a natalidade se tornaria uma “fábrica
de miseráveis”.
Fome em grandes plantações –
Trinta e cinco anos depois de
Geraldo Vandré despertar a ira da ditadura militar ao denunciar,
na canção-hino Pra não dizer que não
falei das flores, que a fome percorria os campos “em grandes
plantações”, a esquerda chegou
ao poder no Brasil para anunciar uma campanha contra ela, a fome,
a mesma. O esforço estatístico do Fome Zero reúne
mais provas
de que a tentativa de diminuir a desigualdade social pelo controle
da natalidade deu com os burros n’água.
Os dados, antigos e recentes, deixam claro que não há
relação entre o número de habitantes e a miséria.
Usando métodos que consideram as linhas de indigência
e pobreza, o Ipea (órgão do Ministério do Planejamento)
estimou o total de pobres em 52 milhões, em 1999 —
cerca de um terço da população. Dentre eles,
22,6 milhões eram indigentes, o que corresponde a 150 estádios
do Maracanã lotados. O Instituto Ethos, entidade empresarial
associada ao Fome Zero, fez as contas e concluiu que 46 milhões
de brasileiros vivem com menos de
US$ 1 por dia, o que os torna oficialmente miseráveis. Um
estudo recente da Comissão Econômica para a América
Latina
(Cepal) estima que só no ano passado o exército de
excluídos
na América Latina aumentou 88 milhões. No Brasil,
eles são mais
de um terço da população (36,9%).
Em matéria de distribuição de renda, ficamos
pouco acima da
África do Sul e de Malavi, abaixo da Bolívia e de
Uganda. Caminhamos para nos aninhar entre os países que encolhem.
São nações como a Itália, que perderá
um quarto da população até 2050; o Japão,
que encolherá 14,1%, e a Rússia, que diminuirá
28,3%. No caso do Brasil, com o risco de aumentar o número
de miseráveis, dependentes
por inteiro da incerta filantropia.
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