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  BRASIL 05/03/2003
Máfia  

  Fernando Maia/Ag. O Globo
  Miro e o pai Waldomiro (no alto), combatidos por Biscaia e Frossard, hoje estão mais fortes

“Eles continuam a ser os grandes mantenedores do Carnaval. Mandam na Liga e nas escolas. Não mudou nada, mas eles não escondem isso de ninguém”, explica Marina Maggessi, coordenadora da Inteligência da Polícia Civil. “É só olhar o desfile”, sugere. Das escolas que ocuparam as sete primeiras colocações no Carnaval dos últimos dois anos, seis têm um bicheiro no comando. A segunda colocada de 2002, a Beija-Flor, tem Anísio Abrahão David. A terceira, a Imperatriz Leopoldinense, tem Luizinho Drummond. A quarta, Mocidade Independente, tem Rogério de Andrade. A quinta, Viradouro, tem Carlos Monassa, presidente do conselho fiscal da Liesa. A sexta, Salgueiro, tem Miro Garcia.
E a sétima, Grande Rio, tem Jaider Soares.
A exceção no grupo é a Mangueira. “O
dinheiro dos patronos será sempre
importante”, garante o vice-presidente
da Liesa, Jorge Luiz Castanheira,
braço direito do Capitão Guimarães.

A Liesa é a chave para se entender por que o poder dos “banqueiros” não se pulverizou. Criada em 1984, a Liga, “sem fins lucrativos”, passou a controlar o desfile das escolas de samba, antes a cargo do poder público, representado pela Riotur. Na prática, o desfile foi privatizado em favor dos bicheiros. De contraventores, eles passaram a patrocinadores do espetáculo. Este ano, entre a venda de ingressos, discos e direitos de transmissão – pagos com exclusividade pela Rede Globo –, a Liga vai embolsar R$ 1,26 milhão. Além disso, vai repassar às 14 agremiações do Grupo Especial entre R$ 1,7 milhão e R$ 1,9 milhão, cada uma. “Mais do que continuar dominando as escolas, eles dominaram a comercialização do Carnaval”, explica o jornalista Roberto Moura, estudioso da relação samba-bicheiros. A Liesa nunca sofreu uma auditoria ou fiscalização pública. Até agora. A deputada Denise Frossard decidiu pedir uma investigação sobre a Liesa. “A Liga é uma fachada”, diz.

Para o MP, o negócio do momento é a exploração de máquinas caça-níqueis. “Aí está a grande articulação criminosa”, diz a procuradora Mônica Di Piero, coordenadora da 1ª Central de Inquéritos do Ministério Público Estadual. “A maior parte do comércio de caça-níqueis está nas mãos de bicheiros”, concorda o procurador da República Luiz Francisco
de Souza, que conhece bem as ligações dos bingos e donos de máquinas caça-níqueis no Brasil com a máfia italiana e o narcotráfico. Um organograma feito pela Divisão Investigativa Antimáfia (DIA), do governo italiano, mostra que mafiosos como o italiano Lillo Lauricella e o espanhol Alejandro Ortiz estão por trás das “maquininhas” exportadas para o
Brasil. Quem tentou enfrentar esse poder ficou pelo caminho. Há um
ano e meio, o então subsecretário de Segurança Pública, coronel Lenine de Freitas, comandou uma ruidosa operação de repressão à máfia dos caça-níqueis na zona oeste. Invadiu a antiga fortaleza de Castor,
em Bangu, apreendeu 1.300 máquinas em três dias e encontrou uma agenda com 52 nomes de policiais civis e militares a serviço do crime organizado. Em poucas horas, a Justiça mandou devolver tudo e
os policiais suspeitos foram soltos. No ano passado, a Polícia Civil apreendeu apenas 146 maquininhas. O coronel Lenine, que sofreu ameaças e acabou afastado, diz que a guerra está sendo perdida.
“O poder deles hoje é ainda maior”, completa.

Para o ex-procurador-geral Biscaia, nenhum esquema desse porte funciona sem acordo com o poder público. “A ausência absoluta de repressão é o sinal mais claro da corrupção”, afirma. “Temos de admitir. O poder público não conseguiu desestruturar o jogo do bicho”, constata o promotor de Justiça Afrânio Silva Jardim. “A porta estava aberta na minha sentença, mas não se investigou a fundo. Por que o Estado não funciona? Por causa da corrupção”, pergunta e responde Denise Frossard, que faz uma constatação sombria. “Por paradoxal que possa parecer, acabei contribuindo para aumentar a cota da corrupção com os órgãos públicos”, diz a deputada, para quem ficou mais caro corromper. “É isso que esses dez anos comemoram. Hoje custa mais caro não investigá-los.”

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