| |
 |
| |
Miro e o pai Waldomiro (no alto), combatidos por Biscaia e Frossard,
hoje estão mais fortes |
“Eles continuam a ser os grandes mantenedores do Carnaval.
Mandam na Liga e nas escolas. Não mudou nada, mas eles não
escondem isso de ninguém”, explica Marina Maggessi,
coordenadora da Inteligência da Polícia Civil. “É
só olhar o desfile”, sugere. Das escolas que ocuparam
as sete primeiras colocações no Carnaval dos últimos
dois anos, seis têm um bicheiro no comando. A segunda colocada
de 2002, a Beija-Flor, tem Anísio Abrahão David. A
terceira, a Imperatriz Leopoldinense, tem Luizinho Drummond. A quarta,
Mocidade Independente, tem Rogério de Andrade. A quinta,
Viradouro, tem Carlos Monassa, presidente do conselho fiscal da
Liesa. A sexta, Salgueiro, tem Miro Garcia.
E a sétima, Grande Rio, tem Jaider Soares.
A exceção no grupo é a Mangueira. “O
dinheiro dos patronos será sempre
importante”, garante o vice-presidente
da Liesa, Jorge Luiz Castanheira,
braço direito do Capitão Guimarães.
A Liesa é a chave para se entender por que o poder dos
“banqueiros” não se pulverizou. Criada em 1984,
a Liga, “sem fins lucrativos”, passou a controlar o
desfile das escolas de samba, antes a cargo do poder público,
representado pela Riotur. Na prática, o desfile foi privatizado
em favor dos bicheiros. De contraventores, eles passaram a patrocinadores
do espetáculo. Este ano, entre a venda de ingressos, discos
e direitos de transmissão – pagos com exclusividade
pela Rede Globo –, a Liga vai embolsar R$ 1,26 milhão.
Além disso, vai repassar às 14 agremiações
do Grupo Especial entre R$ 1,7 milhão e R$ 1,9 milhão,
cada uma. “Mais do que continuar dominando as escolas, eles
dominaram a comercialização do Carnaval”, explica
o jornalista Roberto Moura, estudioso da relação samba-bicheiros.
A Liesa nunca sofreu uma auditoria ou fiscalização
pública. Até agora. A deputada Denise Frossard decidiu
pedir uma investigação sobre a Liesa. “A Liga
é uma fachada”, diz.
Para o MP, o negócio do momento é a exploração
de máquinas caça-níqueis. “Aí
está a grande articulação criminosa”,
diz a procuradora Mônica Di Piero, coordenadora da 1ª
Central de Inquéritos do Ministério Público
Estadual. “A maior parte do comércio de caça-níqueis
está nas mãos de bicheiros”, concorda o procurador
da República Luiz Francisco
de Souza, que conhece bem as ligações dos bingos e
donos de máquinas caça-níqueis no Brasil com
a máfia italiana e o narcotráfico. Um organograma
feito pela Divisão Investigativa Antimáfia (DIA),
do governo italiano, mostra que mafiosos como o italiano Lillo Lauricella
e o espanhol Alejandro Ortiz estão por trás das “maquininhas”
exportadas para o
Brasil. Quem tentou enfrentar esse poder ficou pelo caminho. Há
um
ano e meio, o então subsecretário de Segurança
Pública, coronel Lenine de Freitas, comandou uma ruidosa
operação de repressão à máfia
dos caça-níqueis na zona oeste. Invadiu a antiga fortaleza
de Castor,
em Bangu, apreendeu 1.300 máquinas em três dias e encontrou
uma agenda com 52 nomes de policiais civis e militares a serviço
do crime organizado. Em poucas horas, a Justiça mandou devolver
tudo e
os policiais suspeitos foram soltos. No ano passado, a Polícia
Civil apreendeu apenas 146 maquininhas. O coronel Lenine, que sofreu
ameaças e acabou afastado, diz que a guerra está sendo
perdida.
“O poder deles hoje é ainda maior”, completa.
Para o ex-procurador-geral Biscaia, nenhum esquema desse porte
funciona sem acordo com o poder público. “A ausência
absoluta de repressão é o sinal mais claro da corrupção”,
afirma. “Temos de admitir. O poder público não
conseguiu desestruturar o jogo do bicho”, constata o promotor
de Justiça Afrânio Silva Jardim. “A porta estava
aberta na minha sentença, mas não se investigou a
fundo. Por que o Estado não funciona? Por causa da corrupção”,
pergunta e responde Denise Frossard, que faz uma constatação
sombria. “Por paradoxal que possa parecer, acabei contribuindo
para aumentar a cota da corrupção com os órgãos
públicos”, diz a deputada, para quem ficou mais caro
corromper. “É isso que esses dez anos comemoram. Hoje
custa mais caro não investigá-los.”
|