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29/01/2003
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| Memória |
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Vida
no cárcere
Livro de jornalista que ficou
preso no Carandiru
ajuda leitores deprimidos |
Ines Garçoni
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METAMORFOSE
Humberto criava
cavalos e passava
férias na Europa:
“Mudei para melhor” |
Um anônimo cidadão de Americana (SP) telefonou para
o jornalista Humberto Rodrigues: “Queria agradecer. Seu livro
me fez desistir de cometer suicídio”, disse. Humberto
está colecionando histórias parecidas, como um verdadeiro
salvador de almas deprimidas. Não era a intenção.
Quando escreveu Vidas do Carandiru (Geração
Editorial, 293 páginas, R$ 25,00), pensava apenas em contar
sua passagem de 471 dias
pelo maior presídio da América Latina – desativado
em dezembro, em São Paulo. No livro, cuja primeira edição
se esgotou em 20 dias, o autor conta o dia-a-dia da prisão
e narra histórias dos ex-companheiros de cárcere.
Mas é a sua própria trajetória – do homem
rico que, aos 68 anos, foi preso injustamente – que mais emociona
o leitor. Ele dá o exemplo ao mostrar que conseguiu enfrentar
as vicissitudes da cadeia: espancamento, noites maldormidas em companhia
de percevejos, rebeliões, assassinatos, policiais truculentos.
São episódios descritos com realismo, mas recheados
de lições de vida que levantam o moral de qualquer
indivíduo desanimado. “Virou um livro de auto-ajuda.
Eu não esperava”, diz.
Até sua passagem pelo Carandiru, entre julho de 2000 e outubro
de 2001, Humberto era um executivo bem-sucedido. Trabalhou em grandes
empresas, criava cavalos, passava férias na Europa. Mas os
céus parecem ter se inspirado em A metamorfose, de Franz
Kafka – livro em que o personagem acorda transformado em uma
barata –, e fizeram com que Humberto, um dia, acordasse assaltante.
Ele diz ter guardado quadros em casa a pedido de dois conhecidos
que não sabia serem ladrões. Só descobriu que
as obras eram roubadas quando a polícia bateu à sua
porta. Tinha sido delatado pelos próprios ladrões,
já capturados, como o mentor de um assalto à casa
de um marchand. Julgado e condenado sem ter sido ouvido pelo juiz,
esperou por novo julgamento, no qual foi inocentado por falta de
provas.
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A
história do
homem rico que sobreviveu
à cadeia: exemplo
de otimismo
e coragem |
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Antes disso, passou 43 dias na Delegacia de Crimes contra o Patrimônio
(Depatri), também em São Paulo. O lugar é cenário
de uma narrativa marcante: “A galeria foi invadida por um
grupo de aproximadamente 20 policiais do Garra, vestidos de ninja,
fortemente armados. (...) Ordenaram que todos os presos tirassem
as roupas. (...) Os ninjas batiam nas costas e nas solas dos pés,
com tacos de beisebol. Vi dois presos desmaiando de tanta dor. Depois
disso, jogaram água em cima de nós e aplicaram choques
com os bastões. Com requintes de crueldade, alguns procuravam
a área genital para aplicar as descargas.”
A experiência fez com que Humberto mudasse de vida e seus
pontos de vista. “Para melhor”, diz. “Vivo com
menos dinheiro e sou mais feliz.” Hoje, morando num quarto-e-sala
“de janelas sem grades”, faz meditação
e gosta de caminhar sem rumo. “Tem coisas do cotidiano que
a gente não dá valor. Às vezes, comer um pastel
na rua é mais saboroso que almoçar num restaurante
fino.” Sonha em abrir uma livraria. E uma ONG, para ajudar
ex-presidiários. Entre outros ensinamentos que tirou da cadeia,
ele cita a solidariedade: “Quero retribuir a ajuda que recebi
de muitos lá dentro.”
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