| MEDICINA
& BEM ESTAR
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15/01/2003
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| Obesidade |
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O
povo contra Mcdonald’s
Dez adolescentes americanos que,
juntos, pesam uma tonelada alegam que a rede é responsável por
seus problemas de saúde |
Osmar
Freitas Jr. – Nova York
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Dois hambúrgueres, alface, queijo, molho especial, cebola
e picles num pão com gergelim. Esta, como até as crianças
sabem, é a fórmula do Big Mac, o indefectível
sanduíche da cadeia McDonald’s. Mas até quando
se manterá assim? Inaugurada em 1948, a empresa anunciou
neste começo de janeiro que em breve mudará a receita
e mexerá em ingredientes tradicionais de sua linha de produtos.
A bem da verdade, há quase um ano seus mestres-cucas já
vêm cortando gorduras, diminuindo quantidades de sal e tentando
travestir o menu com roupagem mais saudável. As batatas fritas,
por exemplo, já não são mergulhadas naquela
alquimia oleosa, cujo segredo do sabor era a inclusão de
banha animal. Esse detalhe, diga-se, foi o estopim da revolução
por que passa agora a velha rede. Hindus da seita sikh vivendo nos
EUA, vegetarianos acostumados a comer as batatinhas, descobriram
que o gosto especial da iguaria era creditado à gordura de
carne de vaca. O bicho é sagrado para esses fiéis.
O processo que moveram deu um prejuízo de US$ 12 milhões
aos bolsos de Ronald McDonald, num acordo fora da corte em março
do ano passado. Em novembro viria outra pancada: em nome de crianças
gordinhas, o advogado Samuel Hirseh entrou na Corte Federal de Manhattan
com uma ação popular contra a empresa. Diz que a origem
de males como diabete, pressão alta e obesidade mórbida
em seus clientes se deve ao cardápio da casa.
O processo, é claro, virou piada na boca do povo, mas em
Oak Brook,
no Estado de Illinois, onde está plantada a sede da McDonald’s,
ninguém está rindo. “Esta ação
é frívola, mas suas consequências podem ser
sérias”, afirma Walt Riker, o porta-voz da empresa.
Ele está coberto
de razão: mal a briga começou, as ações
da companhia na Bolsa de Valores de Nova York tiveram sua maior
desvalorização em sete anos.
Em dezembro, após todos esses baques, a McDonald’s
anunciava o primeiro prejuízo de sua história, fechando
o último trimestre de 2002
com perdas de US$ 390 milhões. “Existem paralelos entre
esta ação
e aquela contra a indústria do tabaco. Em ambas, alega-se
que
as empresas não alertaram seus clientes dos perigos à
saúde que poderiam ocorrer com o consumo de seus produtos.
E essas coisas, quando começam, acabam criando vida própria”,
avalia o jurista John Braker, co-presidente da Associação
dos Advogados de Nova York.
Diabete – De concreto, o que se apresenta diante do
juiz são dez adolescentes. Juntos, eles perfazem uma tonelada.
A balança da Justiça deverá decidir se o consumo
conspícuo de Big Macs, milk shakes, batatinhas e outros itens
foi incutido como vício nesses jovens, causando a cada um
sérios problemas de saúde. “Não sabia
que a comida do McDonald’s fazia mal a meu filho. Pensei que
era algo saudável”, jurou Ruth Rhymes ao juiz. Ela
é mãe de Gregory Rhymes, 15 anos, nove dos quais vividos
com várias refeições diárias num McDonald’s.
Ele pesa 182 quilos, embutidos em 1,70m. “Normalmente peço
Big Mac com fritas, Coca-Cola e sorvete. Tudo em tamanho super”,
disse o garoto a ISTOÉ.
Jazlyn Bradley, 19 anos, 102 quilos e 1,68m, faz sua lista. “Começo
o dia com McMuffin (sanduíche de ovo frito com queijo) e
termino com Big Mac e torta de maçã”, conta.
Ashley Perlman, 14 anos e 1,57m, vai de Happy Meal (cheeseburguer,
fritas, refrigerante e biscoito), pois é colecionadora ávida
dos brinquedos que vêm com o lanche. Colecionou também
gordura e colesterol: está com 100 quilos. Essas pessoas
têm em comum, além da ação, os rigores
da diabete. “A rede sabe que se uma criança se alimenta
lá mais de uma vez por semana, ela pode desenvolver diabete.
Mesmo assim, não faz alertas”, diz o advogado Hirseh.
“McDonald’s virou uma coisa tóxica insinuante.
Ninguém acha que pode ser insalubre”, completa.
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MUDANÇA
A cadeia anunciou
que pretende mexer nos
ingredientes tradicionais |
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A empresa se defendeu, a princípio, pedindo o arquivamento
do processo. “Uma pessoa não fica gorda da noite para
o dia”, argumenta o advogado da rede, Brad Lerman. “Além
disso, a Associação Americana de Diabete diz que qualquer
comida pode ser servida numa dieta saudável e que a obesidade
é causada por vários fatores, como vida sedentária”,
explica. O juiz não parece ser muito favorável às
crianças diabéticas. A começar por seu nome,
Robert Sweet (“doce” na tradução). Ele
já arquivou dois processos vinculados à causa, mas
ainda está para decidir se deixa a ação principal
continuar. De qualquer modo, a McDonald’s está atenta.
No Brasil, desde dezembro a rede fornece tabelas com os valores
calóricos e o perfil nutricional de seus lanches (o Cheddar
McMelt, por exemplo, tem 460 calorias e o Big Mac, 490). Na França,
a filial local já fixou em suas paredes alertas sobre os
perigos do consumo frequente dos produtos. Se o juiz Sweet deixar
a briga continuar em Nova York, a moda pode pegar. É possível
que, em breve, as embalagens venham com o aviso. “O Ministério
da Saúde adverte: este hambúrguer faz mal à
saúde.” |