Há pouco mais de dois anos, numa surpreendente campanha
de relações públicas, o Líder Querido
de Pyongyang recebeu o presidente sul-coreano, Kim Dae Jung, e depois
a então secretária de Estado americano, Madeleine
Albright. O ditador tem notório gosto por boas comidas, muitas
bebidas e mulheres. Também é fã de cinema,
com coleção de vídeos com 15 mil títulos.
Uma série favorita era a das aventuras de James Bond. Isso
até o lançamento do novo filme: (Um novo dia para
morrer), onde os norte-coreanos são
os vilões. Kim protestou duramente contra essa caracterização.
Teve o total apoio
de seus vizinhos sul-coreanos, que ficaram justamente ofendidos
com as cenas finais, onde 007 passa em
armas a magnífica Halle Berry, dentro de um templo budista.
Além da birra contra 007, os coreanos estão unidos
em outros assuntos. O presidente eleito da Coréia do Sul,
Roh Moo Hyun, que tomará posse
no mês que vem, ganhou o cargo com uma plataforma crítica
à política americana na região. É a
primeira vez desde a guerra que os sul- coreanos demonstram oposição
a seus protetores de Washington.
Nossa política com relação ao norte é
a de entendimento diplomático
e estreitamento de relações. Não nos parece
que Washington deseje percorrer o mesmo caminho, disse a ISTOÉ
um diplomata da missão
sul-coreana na ONU. Nas ruas de Seul se ouvem os ecos cada vez mais
estridentes dessa política de reintegração
das duas metades coreanas.
A irritação com os americanos vem aumentando, não
só pela linha-dura adotada pelo governo Bush com relação
ao Paralelo 38º, como pela insensibilidade do Departamento
de Defesa dos EUA, que deixou de
punir soldados acusados de cometer crimes em território sul-coreano.
O presidente Bush sabe que Kim Jong Il não é
Saddam Hussein,
disse a ISTOÉ um funcionário da Casa Branca. Esta
distinção
fica patente com o fato de Bush ter declarado repetidas vezes
que não há intenção de ações
militares contra Pyongyang.
Afinal, se Saddam é apenas suspeito de tentar fabricar armas
químicas, Kim Jong Il é suspeito de ter a bomba atômica,
com possibilidades de aumentar o estoque em questão de meses.
Em vista disso, na terça-feira 7, o governo americano, reunido
com representantes de Seul e Tóquio, voltou atrás
em sua postura de não negociar com Pyongyang antes do congelamento
de seus programas nucleares. Já é um passo importante,
disse o vice-ministro das
Relações Exteriores sul-coreano, Lee Tae Sik. Essa
crise, porém,
talvez pudesse ser resolvida se os Estados Unidos assinassem um
pacto de não-agressão com a Coréia do Norte,
prometendo alguma
ajuda econômica. Mas a linha-dura de Washington ainda não
se convenceu de que o ditador coreano cumpriria os acordos assinados.
Deste modo, o que poderia terminar com o estouro de rolhas
de champanhe corre o risco de acabar em explosão nuclear.
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Senhor presidente, eu tenho notícias muito graves.
A Coréia
do Norte invadiu a Coréia do Sul, disse
por telefone o secretário
de Estado ao presidente americano. Eram 21h20 de 25
de junho
de 1950. O secretário, Dean Acheson, era o principal
alvo da
direita macartista americana, que acusava a administração
do presidente democrata Harry S. Truman de ter perdido
a China
para os comunistas em 1949. O ditador norte-coreano
Kim Il-Sung convencera seus aliados Josef Stálin
e Mao Tsé-tung de que Washington não interviria
num conflito na Coréia, península ocupada
pelo Japão até 1945 e que a guerra fria
dividira em dois Estados
em 1948: uma tirania comunista no Norte e uma ditadura
anticomunista no Sul. Numa blitzkrieg surpresa, sete
divisões de infantaria e uma brigada blindada,
num total de 95 mil soldados
norte-coreanos, cruzaram o Paralelo 38º , tomaram
Seul e empurraram o Exército sul-coreano para
o porto de Pusan, no extremo sul.
Para não dar mais argumentos à direita
republicana, o presidente Truman respondeu rapidamente:
sob o manto da ONU, uma força liderada pelos
EUA foi despachada para repelir o invasor e restabelecer
o status quo. Graças ao general Douglas MacArthur,
comandante das tropas de ocupação do Japão,
que desembarcou marines em Ichon, perto de Seul, os
americanos, sul-coreanos e aliados romperam o cerco
comunista. Foi então que a Casa Branca, inebriada
com a contra-ofensiva, decidiu invadir a Coréia
do Norte para reunificar a península na marra,
ignorando as advertências do premiê chinês
Zhou Enlai. Em represália, quase 200 mil soldados
chineses entraram na Coréia e tomaram Seul, forçando
os americanos e seus aliados a recuar. MacArthur, que
queria estender a guerra até o território
chinês, foi afastado. Diz a lenda que o impetuoso
general teria ameaçado jogar bombas atômicas
na China, mas o palpite infeliz
foi mesmo de Truman. Com pesadas baixas, a guerra se
estabilizou
em 1951. Um armistício seria assinado em junho
de 1953, perpetuando a divisão das Coréias.
A guerra matou mais de 200 mil soldados
das forças da ONU e coreanos (sendo 40 mil americanos);
1,6 milhão de comunistas (60% dos quais chineses)
e mais de três milhões
de civis coreanos. Pôs fim também ao longo
período do Partido Democrata na Casa Branca,
ocupada a partir de 1953 por
outro general e herói da Segunda Guerra, Dwight
Eisenhower.
Cláudio Camargo
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