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  ESPORTE 15/01/2003
Luta

O fenômeno do ringue
O supercampeão peso pesado de vale-tudo Antônio Rodrigo é idolatrado a ponto de parar o Japão e virar história em quadrinhos. No Brasil, não passa de um ilustre desconhecido

Marcos Pernambuco - Tóquio

Fotos: Marcelo Alonso  
Conhecido como Minotauro, Antônio Rodrigo venceu o principal campeonato de vale-tudo do mundo  

O esporte brasileiro cada dia faz mais sucesso no Japão. E não é apenas pelo futebol pentacampeão, que fez vibrar o estádio de Yokohama na final da Copa de 2002. O vale-tudo, outra modalidade esportiva dominada pelos brasileiros, tem projetado estrelas verde-amarelas na terra do sol nascente. Nos períodos de competição, os mais importantes veículos de comunicação do Japão e do mundo disputam espaço no aeroporto de Narita, em Tóquio, aguardando com ansiedade o desembarque do mais novo mito do ringue. Centenas de fãs também tentam chegar perto do ídolo,
a maioria com a bandeira brasileira nas mãos. Alguns curiosos perguntam quem é a celebridade prestes a desembarcar. Será Zico? Ou Ronaldo? Dessa vez o fenômeno, que vem dando show de habilidade nos modernos estádios
do Japão, é o lutador pop star Antônio Rodrigo Nogueira, de 26 anos, conhecido mundo afora como Minotauro. O frisson é tão grande que
as tevês japonesas transmitem ao vivo do aeroporto a chegada do
atleta brasileiro, para acentuar o clima de expectativa sobre o Pride,
o mais importante campeonato de vale-tudo do mundo.

Fotos: Marcelo Alonso  
FEBRE A vitória foi capa
dos principais jornais
e revistas japoneses
 

É difícil imaginar, mas o supercampeão dos pesos pesados do vale-tudo – que é idolatrado pelos mais de 100 mil pagantes que lotam os estádios de futebol e beisebol onde são montados os ringues e por milhões de telespectadores – passeia pelas ruas do Brasil e, principalmente da Barra da Tijuca, onde mora no Rio de Janeiro, sem ser notado. Nada de autógrafos, presentes, nem sequer um aperto de mão. A fama que Minotauro – apelido recebido na adolescência por causa de sua força – alcançou no Oriente não se reproduz quando o brasileiro volta para casa. “O assédio dos fãs é a resposta de um trabalho bem-feito. Sou um profissional de destaque e gostaria de ser reconhecido também em meu país”, lamenta Rodrigo. A luta surgiu em sua vida por acaso. Durante a infância em Vitória da Conquista, na Bahia, ele foi atropelado saindo de uma festa. Um caminhão deu ré e passou por cima dele, quebrando diversas costelas, perfurando os pulmões e causando grave hemorragia. As sérias lesões deixaram o menino de 11 anos em coma por alguns dias e vários médicos chegaram a duvidar que ele voltaria a andar. Depois de um ano no hospital, a força de vontade venceu. Rodrigo começou a fazer judô como terapia e, em seguida, tomou gosto e entrou para o boxe, jiu-jítsu e muay thai. Em pouco tempo, renascia para fazer história no mundo das artes marciais.

Bom de briga – A fama internacional é consequência do currículo irrepreensível, recheado de vitórias espetaculares, neste esporte muito criticado pelo excesso de violência. Nos últimos dois anos, venceu todas as lutas, a maioria por finalização (imobilizando o adversário com chave-de-braço, perna ou estrangulamento). São 21 lutas e apenas uma derrota por pontos, muito contestada na ocasião. “Minha carreira deslanchou quando venci o gigante Bob Sapp, de dois metros de altura e 170 quilos de músculos. Ele é muito mais forte e cheguei a desmaiar duas vezes, quando ele me arremessou de cabeça no chão”, conta Minotauro, único a derrotar o monstro americano. A única mancha no currículo do rei do vale-tudo, como é chamado no Japão, teve como protagonista Dan Henderson, outro ídolo americano. A revanche, em 23 de dezembro de 2002, na 24ª edição do Pride, serviu para encerrar o melhor ano da carreira de Rodrigo e ratificá-lo como campeão dos campeões. Mesmo com dores no ombro e febre de 39 graus, que deixou o atleta hospitalizado até algumas horas antes da luta, a vitória foi incontestável.

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