| ECONOMIA
& NEGÓCIOS |
15/01/2003
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A
Eletrobrás é nossa
Luiz Pinguelli Rosa, um dos grandes
estudiosos do País, deixou a universidade para criar no governo
um novo modelo elétrico e transformar a empresa numa aliada
do programa Fome Zero |
Liana
Melo
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‘‘Não
existe a possibilidade
de o governo reestatizar empresas. Mas
não daremos
continuidade ao
programa de privatização’’
Luiz Pinguelli Rosa |
Ao ser empossado nesta terça-feira 14 presidente das Centrais
Elétricas Brasileiras (Eletrobrás), o físico
Luiz Pinguelli Rosa estará pela primeira vez em seus 59 anos
assumindo um cargo governamental. Ao trocar a diretoria da Coordenação
dos Programas de Pós-Graduação de Engenharia
(Coppe), da
UFRJ, pela estatal, ele não estará apenas mudando
de lado. Estará trocando a oposição pela situação.
A Coppe é, desde sua fundação, nos idos da
ditadura militar, uma espécie de trincheira política.
Foi contra o acordo nuclear do Brasil com a Alemanha no governo
Ernesto Geisel, previu a crise do álcool no período
José Sarney e transformou-se em inimigo público de
Fernando Henrique Cardoso logo que as privatizações
do
setor elétrico começaram a sair do papel.
Chegando ao poder com Luiz Inácio Lula
da Silva, Pinguelli garante que não será revanchista.
A reestatização está descartada, mas o setor
de geração
de energia não será privatizado, como previsto pelo
antigo governo. Crítico feroz da venda de estatais, o novo
presidente da Eletrobrás
foi peça-chave no governo de transição. Foi
nas dependências
da Coppe que nasceu o programa energético do governo Lula.
Afinadíssimo com a ministra das Minas e Energia, Dilma Roussef,
ele não foi o único acadêmico pinçado
para o governo. Seu amigo Maurício Tomasquim, autor de um
estudo que calcula o alto grau
de endividamento das empresas privadas do setor elétrico,
virou secretário-executivo de Dilma. “Vamos criar um
novo modelo elétrico”, anuncia Pinguelli, animadíssimo
e ansioso com a nova função. “Não
há tempo a perder, já estamos atrasados”, diz
ele, prometendo transformar a Eletrobrás num aliado do Programa
Fome Zero.
ISTOÉ – Como o sr. se sente ao sair da oposição
e ir para a situação?
Luiz Pinguelli Rosa – É um trauma. Não
porque eu estivesse na
oposição, mas porque eu sempre estive na universidade.
Traumático
é isso, trocar a universidade pelo governo. O meio acadêmico
é,
por definição, o espaço onde se deve adotar
uma postura crítica.
Mesmo agora que o País elegeu um governo de esquerda, a universidade
deve continuar com esse papel. Seria um grave erro se esse
espírito crítico fosse abandonado. Não pode
haver adesão total.
ISTOÉ – O governo é novo, mas herdou
uma crise velha. Estamos
na iminência de um novo apagão?
Pinguelli – Não corremos esse perigo. O País
está com excesso de energia. Estamos vivendo um período
de trégua elétrica. Houve uma redução
de consumo, de 25%, devido ao baixo nível da atividade econômica.
Por conta do último apagão, o governo que saiu acelerou
obras de geradores de emergência. Nossa folga hoje é
de 3,5 gigawatts de potência. Por isso, não devemos
ter apagão em 2003. Mas bastará
um ligeiro aquecimento da economia para voltarmos a correr perigo.
ISTOÉ – Existe a possibilidade de o governo
reestatizar empresas?
Pinguelli – De jeito nenhum. Mas não daremos
continuidade ao
programa de privatização. A Eletrobrás será
retirada do programa
nacional de desestatização. O mesmo irá ocorrer
com todo o setor
de geração de energia. As privatizações
levaram o caos ao setor
elétrico. Foram feitas privatizações ideológicas,
além de a venda
das estatais ter sido usada para financiar o governo, ajudando-o
na redução do endividamento. Precisamos mudar esse
modelo porque
não funcionou, mas não vamos romper contratos. Vamos
sentar
à mesa e negociar. Estamos vivendo uma situação
sui generis:
o setor elétrico estatal está bem financeiramente.
O que está
mal é o setor privado, que endividou-se excessivamente.
ISTOÉ – O que mudará na Eletrobrás?
Pinguelli – Pretendo alterar o orçamento da
estatal. Estou
pleiteando aos ministros Dilma Roussef (das Minas e Energia)
e Antonio Palocci (da Fazenda) que liberem as restrições
impostas
à Eletrobrás. Hoje os investimentos da estatal são
computados
como gastos do governo federal, o que afeta o alcance da meta de
superávit primário. Se a mudança for aprovada,
o investimento da Eletrobrás poderia subir dos atuais R$
3,2 bilhões para R$ 5 bilhões.
ISTOÉ – O sr. vai trocar a diretoria da empresa?
Pinguelli – Não penso nisso de imediato. O
processo de indicação da nova diretoria está
em curso e deverá ser acelerado, assim como a indicação
das empresas coligadas. Não faremos grandes rupturas. O
que precisa mudar é o sistema elétrico brasileiro,
não a Eletrobrás.
ISTOÉ – As estatais serão convocadas
a ajudar na implantação
do Programa Fome Zero?
Pinguelli – Seremos um instrumento do Programa Fome
Zero. Poderíamos estimular a criação de peixes
em barragens, o que criaria emprego e contribuiria com alimentos
para a população local, além de estimular a
plantação ao longo das linhas de transmissão.
Não pretendemos fazer milagre, mas podemos mitigar a fome
usando recursos das estatais.
ISTOÉ – O que o sr. pretende levar da Coppe
para a Eletrobrás?
Pinguelli – Projetos inteligentes como fontes alternativas
de
energia. Nunca entendi por que o lixo urbano ainda não está
sendo
usado na geração de energia. Não existe razão
para importarmos patentes solares, podemos perfeitamente desenvolvê-las
aqui.
É possível fazer da Eletrobrás um instrumento
de desenvolvimento tecnológico e industrial, sem abandonar
suas antigas funções.
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