| ECONOMIA
& NEGÓCIOS |
15/01/2003
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Aceita
palmas?
No país do real, os mais pobres
driblam a falta
de dinheiro com a criação de moedas próprias |
Liana
Melo – Fortaleza
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Moeda
social Francisco Bezerra, dono
do mercado, e Benedito José, o cliente, acertam a conta em palmas
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Depois de um longo dia de trabalho, o cearense Benedito José
vai às compras, decidido a gastar o salário semanal
em produtos da cesta básica. A conta no mercado dá
R$ 16,05. Para facilitar o troco, o dono do estabelecimento, Francisco
Bezerra, arredonda para R$ 16. “Aceita palmas?”, pergunta
Benedito, recebendo um sim como resposta. Saca então do bolso
do calção duas notas, cada uma delas de dez palmas.
De troco, recebe quatro palmas. No país onde a moeda oficial
é o real, o diálogo entre
Benedito e Francisco soa estranho. Só pode mesmo ser explicado
por uma realidade bem brasileira: a exclusão social. Desde
14 de
outubro do ano passado, os moradores do Conjunto Palmeiras,
um bairro pobre a 18 quilômetros do centro de Fortaleza, passaram
a driblar a falta de dinheiro no bolso com uma solução
singela e inteligente: a confecção de sua própria
moeda.
Quem lidera a reforma monetária no Conjunto Palmeira é
um cearense de voz mansa e solícito, João Joaquim
Segundo. Ele é o chefão do Banco Palma$ – a
instituição financeira que emite o tal papel-moeda
que anda circulando de mão em mão entre os cerca de
30 mil moradores do bairro. Há mais de três décadas,
Joaquim Segundo está engajado em projetos sociais no conjunto.
Começou como agente pastoral e acabou executivo financeiro
do Banco Palma$, numa versão bem humanizada dos engravatados
que comandam o mercado financeiro. “Meus clientes
são os desbancarizados. São aquelas pessoas que foram
excluídas
da sociedade e, por isso, se alimentam da própria miséria.”
Cerca
de 80% dos moradores do bairro não possuem renda suficiente
para serem considerados incluídos sociais. Fazem parte, portanto,
das estatísticas da miséria brasileira, onde 50,9%
da população nordestina vive, segundo o IBGE, com
menos de meio salário mínimo por mês.
Ao trocar o real pelo palma, os moradores do Conjunto Palmeiras
estão rompendo com a estrutura monetária vigente no
Brasil. O mais surpreendente é que não estão
sozinhos nessa empreitada. As moedas sociais, como são chamados
esses papéis-moedas, são uma invenção
dos anos 80. Primeiro vieram os clubes de troca, em resposta ao
desemprego e à queda da atividade econômica em muitos
países. O exemplo mais corriqueiro é o da vizinha
Argentina. Os membros desses clubes reúnem-se periodicamente
para trocar ou vender produtos.
Feitas em computador ou gráficas de fundo de quintal e válidas
por
uma espécie de acordo coletivo numa determinada área,
as moedas alternativas vêm ganhando nomes variados pelo Brasil
afora: tupy,
zumbi, lua, bônus e ecosol. Todas usam o real como lastro.
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