| CIÊNCIA,
TECNOLOGIA & MEIO AMBIENTE |
15/01/2003
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Rumo à Antártida
Brasileiro inicia travessia
inédita para atingir
o Pólo Sul em um veleiro diminuto
Marcelo Ferroni
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Montagem:
Pandiani
(à esq.) e Ross, com um
dos cascos do veleiro, durante os últimos
acertos para a viagem
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Nos próximos
dias, uma dupla de
velejadores pretende realizar uma façanha
que, à primeira vista, parece loucura: atravessar os 900 km
que separam a ponta
da América do Sul e a Antártida, enfrentando ventos
fortes, mares bravios e muito frio,
a bordo de um pequeno veleiro sem cabine,
de não mais que seis metros e meio.
A jornada, que deve levar de três a quatro dias, faz parte
da terceira expedição pelas Américas realizada
pelo brasileiro Roberto Pandiani, 44 anos, com um veleiro conhecido
como hobie cat — uma embarcação de 21
pés, com dois cascos paralelos e compartimentos apenas para
os equipamentos de primeira necessidade. Se bem-sucedido, Pandiani
será a primeira pessoa a atravessar
o chamado estreito de Drake e atingir a Antártida a bordo
de um barco sem cabine.
Parece difícil de acreditar. As duas camas em que os velejadores
se revezarão durante a travessia não passam de uma
pequena esteira montada nas laterais do casco, em que eles deverão
se amarrar e se cobrir com uma barraca improvisada. Nos compartimentos,
além de água e mantimentos, eles levam equipamentos
de vídeo, foto e comunicação. Pandiani, no
entanto, mostra que está preparado. “Podem até
nos chamar de loucos”, diz ele. “Mas, depois de ver
todo o planejamento que fizemos, acho difícil que alguém
continue a duvidar do nosso projeto.”
As preparações se iniciaram em outubro de 2001.
Na época, Pandiani conversou com o sul-africano Duncan Ross,
39 anos, que já havia participado de outras expedições
ao lado do brasileiro. De lá até
janeiro deste ano, ambos trabalharam duro para obter patrocínios,
estudar a travessia e montar um hobie cat especial para a região.
Ross, que acompanhou toda a construção no estaleiro
Barracuda,
no Rio de Janeiro, mostra o Satellite, como o barco foi batizado.
Seu casco, em comparação com o de um hobie cat comum,
é muito mais resistente. No lugar da tradicional fibra de
vidro, os velejadores
optaram por uma combinação de espuma compacta e kevlar,
o mesmo material usado em coletes à prova de bala. Seu mastro
também
é mais alto e mais espesso, o que garante maior estabilidade.
Para combater o frio, que pode cair abaixo dos dez graus negativos
durante a noite, os velejadores também estão preparados.
Na bagagem, eles levam uma vestimenta especial, chamada dry suit
(roupa seca). Composta por três camadas de tecido, ela retira
o suor do corpo, mantendo-o aquecido, e impede a entrada de água.
Para garantir a segurança, o Satellite não vai sozinho
à Antártida. Pela mesma trilha, segue, à distância,
o Kotic 2, um veleiro de aço de 63 pés, ou cerca
de 19 metros, equipado para enfrentar condições adversas
de clima.
A aventura começou na terça-feira dia 7. Pandiani
e Ross desmontaram seu hobie cat em São Paulo e partiram,
de carro, em direção a Ushuaia, no extremo sul da
Argentina. A chegada está prevista para quarta
-feira 15. Lá, depois de montar o Satellite, os velejadores
começam
o processo de adaptação, já que, em Ushuaia,
eles devem
enfrentar ventos cortantes e temperaturas próximas a zero.
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| No
gelo: Pandiani durante a travessia do cabo Horn, em
2001, com um hobie cat semelhante ao que usará agora
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De Ushuaia, a equipe vai para Puerto Williams, no Chile, para aguardar
o melhor momento da partida. Será preciso cerca de quatro
dias de tempo bom para
que não haja imprevistos durante
o caminho. “Não poderemos
perder tempo”, diz o brasileiro. “Vamos dormir pouco
durante
o trajeto e alcançar a Antártida
o mais rápido possível.”
Os velejadores relutam em dizer o nome do local que devem alcançar
no continente gelado: Deception Island (ilha da decepção).
“Chegando lá, vamos mudar seu nome”, brinca Ross.
A ilha, uma pequena formação vulcânica, será
seu abrigo durante quatro dias, enquanto aguardam o encontro com
o Kotic 2. A partir daí, os velejadores pretendem passar
25 dias explorando a Antártida,
para em seguida voltar à América do Sul, a bordo do
veleiro de aço.
Essa é a aventura mais ambiciosa de Pandiani. Em 1994,
o brasileiro passou 289 dias viajando de hobie cat entre o Brasil
e os EUA. Entre novembro de 2000 e abril de 2001, ele partiu da
costa chilena e atravessou o cabo Horn, na ponta da América
do Sul, chegando
ao Rio de Janeiro. No estreito de Drake, será a primeira
vez que
Pandiani enfrentará mar aberto a bordo de um veleiro de 21
pés.
Sua façanha será equivalente à de outros
velejadores solitários
em busca da quebra de limites. Em 1984, Amyr Klink passou 100
dias em alto-mar, em um pequeno barco a remos, para atravessar
cerca de 6.500 km entre a África e o Brasil se aproveitando
de
correntes oceânicas. Outro caso que ficou famoso foi o do
norueguês Thor Heyerdahl, que atravessou o oceano Pacífico
a bordo de uma
balsa rústica em 1947 para provar sua teoria de que povos
antigos
eram capazes de fazer longas travessias. “É o que sempre
quis fazer”, comenta Pandiani. Agora é torcer pelo
velejador.
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