| CIÊNCIA,
TECNOLOGIA & MEIO AMBIENTE |
15/01/2003
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Poluição à venda
O Brasil dá os primeiros passos
no comércio de carbono, uma forma de gerar divisas e reduzir o efeito
estufa
Lino Rodrigues
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REPLANTIO
Peugeot mantém projeto de absorção de carbono |
Brasil poderá ser um dos grandes beneficiados com o nascimento
de um mercado mundial de algo que parece inusitado: a poluição
atmosférica. A compra e a venda desse “produto”
– ou seja, o direito de uma nação desenvolvida
de poluir o ar em troca de investimentos em energia limpa no Terceiro
Mundo – está prestes a começar. Sob a alcunha
de Mecanismo de Desenvolvimento Limpo, ou MDL, o sistema, criado
em 1997 pelo Protocolo de Kyoto, deve entrar em operação
neste ano.
O mercado funciona da seguinte forma: uma empresa inglesa, que
libera na atmosfera grandes quantidades de gás carbônico
– um
dos principais agravadores do efeito estufa –, pode continuar
a poluir se entrar no chamado comércio do carbono. Ou seja,
ela paga para que uma empresa de um país em desenvolvimento,
como o Brasil, diminua em seu lugar
as emissões de CO2 por meio de projetos ambientais.
Entre os projetos, estão aqueles que estimulem a produção
de energia limpa, como a solar e a gerada a partir de biomassa,
e os que removam carbono da atmosfera. Nesse campo, chamado sequestro
de carbono, os principais planos consistem no
replantio de florestas que, ao crescer, absorvem CO2 do ar.
Ao investir nesses projetos, as empresas ganham o equivalente
a cotas de carbono que elas podem continuar a liberar na atmosfera.
Essas cotas são chamadas créditos de carbono. Essa
espécie de
“direito de poluir”, deve entrar em vigor se for aprovado
em definitivo
o Protocolo de Kyoto, que estipula que os países industrializados
terão que reduzir em 5,2% suas emissões no período
de 2008 a 2012.
Mesmo não oficializada, a compra e venda de carbono está
mexendo
com muitas empresas brasileiras. Certas de que poderão aumentar
suas receitas e melhorar o ambiente, elas se preparam para participar
de um mercado que pode movimentar só no Brasil US$ 300 milhões
por ano, de um total estimado de US$ 3 bilhões a US$ 10 bilhões
anuais no mundo todo. “Será muito difícil o
carbono ultrapassar as commodities tradicionais, mas será
um mercado muito importante”,
diz Marcelo Junqueira, diretor-executivo da subsidiária brasileira
da americana Econergy e especialista na área de energia limpa.
Com
13 projetos em andamento, a empresa já conseguiu um certificado
de pré-validação para a Cia. Energética
Santa Elisa, de São Paulo,
que usa bagaço de cana-de-açúcar para produzir
energia.
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FUMAÇA
Poluição no Vale
do Paraíba: mercado de emissão
de carbono pode gerar US$ 300 milhões por ano no Brasil |
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Já a multinacional francesa Peugeot patrocina o Projeto
Poço de Carbono,
na região amazônica do Estado de Mato Grosso, no qual
investiu US$ 11 milhões com o objetivo de promover o sequestro
de 50 mil toneladas de carbono por
ano no período de 2003 a 2043, por meio do reflorestamento
de cinco mil hectares de pastagens degradadas.
Outro exemplo é o da Siderúrgica Plantar, de Minas
Gerais, que recebeu do Banco Mundial US$ 5,3 milhões para
substituir carvão mineral por vegetal na produção
de ferro gusa. A siderúrgica deixará de emitir
1,1 tonelada de CO2 por cada tonelada do produto produzida. “É
uma vantagem competitiva”, diz Marco Antonio Fugihara, da
PriceWaterHouseCoopers e responsável pelo projeto da Plantar.
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES)
percebeu o potencial de o País vender créditos de
carbono e preparou uma grande campanha de marketing para o mercado
internacional.
A idéia é mostrar as vantagens brasileiras em relação
aos seus
principais rivais, a Índia e a China. “O Brasil tem
condições de atrair investimentos, pois tem um mercado
de capitais sólido e território
e clima para absorção de tecnologias”, diz Isaura
Frondizi, gerente-executiva de meio ambiente do BNDES. Se tudo der
certo, o banco deverá se transformar em um centralizador
dos projetos ambientais, dando certificações e incentivo
financeiro aos novos programas.
Início próximo – O mercado
de carbono ainda não é oficial porque
os países do chamado Anexo 1 (36 no total, incluindo Europa,
Japão
e Canadá) ainda não atingiram um número de
assinaturas suficiente
para colocar o Protocolo de Kyoto em vigor. Para isso, é
preciso a assinatura da Rússia – dona de 18% das emissões.
A expectativa
é que isso aconteça ainda no primeiro semestre de
2003. Mesmo
não assinando o documento, os EUA, com 25% do total mundial
das emissões de gases poluentes, ficariam obrigados a cumprir
as metas sob pena de punição, a exemplo do que acontece
na Organização Mundial do Comércio (OMC), que
impõe sanções aos membros que infringem um
dispositivo ou uma regulamentação.
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