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 ARTES & ESPETÁCULOS 15/01/2003
Cinema III

Afinadíssimo
Resnais foge de seu estilo num quase musical

Ivan Claudio

  Divulgação
  AGNES: ótima como
a guia turística que
sofre de fobias

Difícil imaginar o diretor francês Alain Resnais, cujo estilo cerebral já rendeu filmes como O ano passado em Marienbad e Hiroshima, meu amor, assinando uma comédia na qual os personagens expressam seus pensamentos mais íntimos através de canções populares. Mas é exatamente o que acontece em Amores parisienses (On connait la chanson, França/Inglaterra/Suíça, 1997), em cartaz em São Paulo. O filme não chega a ser um musical, pois ninguém sai dando piruetas pelos bulevares parisienses. Contudo, tem o mesmo clima leve do gênero.

Um casal está jantando, o homem faz um galanteio à mulher,
e ela, sem mais nem menos, começa a entoar “Parole, parole,
parole (palavra, palavra, palavra)”, refrão da conhecida música
da italiana Mina. Ao ser repetido, o efeito fica ainda mais engraçado.
Não existe nenhum critério para a inserção dos trechos musicais,
na verdade dublados pelos atores e, portanto, ouvidos nas suas gravações originais. Homens dublam mulheres e vice-versa.
E como foram usados 36 hits, é um festival de risadas.

Mas o que faz de Amores parisienses uma obra de mestre e não
uma piada repetida é a sábia condução da sua trama em torno de
alguns parisienses às voltas com o cotidiano mais banal. Odile (Sabine Azema), mulher do adúltero Claude (Pierre Arditi) e nostálgica de uma antiga paixão, quer comprar uma nova casa; a guia turística Camile (Agnes Joui) desenvolve uma estranha fobia ao preparar uma tese
sobre “os cavaleiros do ano 1000 do lago Paladru”, assunto que só
não causa risos no apaixonado corretor Simon (André Dussolier), esnobado por ela. Pouco a pouco estas vidas vão se cruzando e,
em meio a muita música, o que parecia uma brincadeira vira uma
deliciosa opereta cheia de pequenas e grandes revelações.

Kama Sutra
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